HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO PELOS SEUS OITENTA ANOS – DE UMA CRISE A OUTRA, DA CRISE DOS ANOS DE 1930 NA ALEMANHA À CRISE DOS ANOS DA TROIKA — A EQUIVALÊNCIA NOS DISCURSOS POLÍTICOS, A EQUIVALÊNCIAS NAS POLÍTICAS ECONÓMICAS APLICADAS – I

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PARTE I: O quadro intelectual no início dos anos de 1930 na Alemanha[1]

 

Introdução

 

Hoje, tal como nos Anos Trinta, há pessoas que apelam e com uma grande insistência para que se reforce a já elevada austeridade orçamental, económica e social, à imagem do que foi aplicado no século passado pelos regimes fascistas europeus. Entre todas essas condições já passadas, a mais extrema foi, sem dúvida, a que foi conduzida pelo banqueiro alemão, Hjalmar Schacht que, no meio da década de 1920, foi a principal via de ligação dos poderosos círculos financeiros anglo-holandeses na Alemanha e que assumiu mais tarde o cargo de ministro da Economia de Adolfo Hitler.

O mundo de então, e tal como o de agora, debatia-se com uma grande bolha financeira. Se a bolha atual tem como base o aparecimento dos Eurodólares no final da década de 1960 e a dissociação do dólar e do ouro pelo presidente Nixon, em 15 de agosto de 1971, a crise dos anos de 1930 tinha como base as enorme reparações de guerra impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes.

Os apelos ouvidos hoje a favor deste tipo de políticas devem ser neutralizados e rapidamente agora, antes que seja tarde demais, o que requer uma melhor compreensão do que é uma política económica e social à Hjalmar Schacht.

 

A pirâmide financeira pós-Versailles

 

O Tratado de Versalhes, que deveria pôr fim à Primeira Guerra Mundial, impôs à Alemanha “reparações de guerra” que no total atingiam a espantosa soma de 132 mil milhões de marcos-ouro. Independentemente do debate sobre a principal responsabilidade desta guerra, qualquer pessoa com o mínimo de bom senso poderia reconhecer a óbvia inconsistência entre uma tal exigência financeira relativamente à Alemanha e a capacidade da sua economia de então poder de facto dispor destes volumes de mais-valias financeiras na época para entregar aos países seus credores.

Enquanto os poderosos interesses financeiros anglo-holandeses pretendiam utilizar estas reparações de guerra para definitivamente arruinarem a Alemanha, a oligarquia alemã via nisso, por outro lado, um pretexto ideal para iniciar as reformas internas e as políticas de austeridade de modo a reforçar o seu próprio poder. Ninguém, entre os dirigentes sindiciais e outras personalidades políticas alemães geralmente empenhados na defesa do interesse geral, ousou confrontar abertamente esta política, porque não estava na moda questionarem a legitimidade das reparações de guerra. Nenhuma política económica alternativa foi também proposta ou discutida. (Para se perceber melhor como poderia ser assim mesmo, pense-se na maneira como procede a imprensa atual para nos convencer a aceitar o Pacto de Estabilidade e Crescimento,  que eleva quase ao nível de lei sagrada os critérios de austeridade de Maastricht. Tentam fazer-nos crer que um “não” à proposta da Comissão Europeia equivale a uma recusa da Europa e de toda e qualquer forma de cooperação entre os países europeus.)

Uma tímida resistência sindical opondo-se à pressão brutal exercida sobre a Alemanha pelos seus credores, no entanto não iria impedir a crise hiperinflacionista de 1923-1924, tendo as autoridades financeiras alemãs decidido voltar a imprimir dinheiro numa tentativa desesperada de colmatar as brechas.

Esta situação permitiu aos credores da Alemanha designar o banqueiro Hjalmar Schacht, um partidário duro da deflação e da austeridade, para a Presidência do Reichsbank. Schacht era filho de um comerciante que tinha vivido nos Estados Unidos. Depois de estudos em medicina, filologia, ciências políticas e economia empregou-se no Dresdner Bank e tornou-se um consultor financeiro junto do governo de ocupação alemão na Bélgica durante a Primeira Guerra Mundial.

Schacht assumiu as suas funções no Reichsbank em 22 de dezembro de 1923, tornando-se assim um dos personagens mais poderosos na Alemanha. Ele trabalhará sob a supervisão de Gilbert Parker, a autoridade encarregada, no local, da coleta das reparações de guerra.

 

As duas reorganizações da dívida alemã

 

Uma primeira reorganização da dívida foi então negociada, sob o nome de plano Dawes: 134 mil milhões de reischmarks, em vez dos 132 mil milhões iniciais de marcos-ouro iniciais (Observe que as duas moedas não eram equivalentes e nós não descobrimos qual foi a taxa de conversão) deveriam ser pagos ao longo de mais de 36 anos, dos quais 22 mil milhões antes de 1928.

Os americanos, por sua vez, concordaram em conceder-lhes novos créditos para permitir satisfazer o peso da dívida, o que permitiria relaxar um pouco a pressão e criar a ilusão de uma retoma da economia entre 1924 e 1928. Mas o desemprego, no entanto, continuou a aumentar, bem como a dívida. (Compare-se esta situação com as negociações entre o FMI e a Argentina ou ainda a ilusão de riqueza criada por Allan Greenspan entre a sua chegada à Reserva Federal, na sequência do rebentamento da crise de 1987, e o rebentamento da bolha da nova economia, em 2000.)

Os socialistas alemães (SPD) e os sindicatos consideravam-se então incapazes de lutar contra a crescente austeridade, porque os trabalhadores que formavam as suas fileiras eram confrontados com uma massa de desempregados cada vez mais importante, que ia constituindo uma reserva de força de trabalho altamente concorrencial. Os comunistas atraíram um grande número destes desempregados, mas sem terem qualquer credibilidade para propor um programa de estímulo à economia.

Em 25 de outubro de 1929, deu-se a queda de Wall Street, porque os financeiros mais bem informados sabiam que a Alemanha estava novamente à beira de uma cessação de pagamentos, ameaçando assim o reembolso das dívidas de guerra francesas e inglesas face à América, bem como o reembolso dos empréstimos concedidos desde 1924 pelos americanos aos alemães.

Foi então que se deu uma segunda reorganização da dívida alemã, conhecida sob o nome de plano Young, negociado por Schacht e assinado por ele durante o verão de 1929 e que seria ratificado pelo Reichstag em março de 1930. Segundo este plano, a Alemanha comprometia-se a pagar 34 mil milhões de reischmarks durante 59 anos, até 1988.

Mais importante ainda, o plano Young proibia qualquer recurso a uma política de crédito produtivo e impediu o Reichsbank de proceder a redesconto de toda e qualquer forma de empréstimos não autorizados pelos credores da Alemanha. Isso significava que a nenhum banco privado ou a agência governamental seria autorizada pelo Reischbank a antecipação de uma qualquer parte dos créditos concedidos para o financiamento de grandes projetos de infraestruturas ou outra forma de atividade económica industrial. (Esta cláusula assemelha-se e em muito ao que é estabelecido pelo Tratado de Maastricht atualmente em vigor na Europa, dando ao Banco Central Europeu o direito de emitir dinheiro somente em função das recomendações dos meios financeiros privados, os mesmos que, através das suas atividades altamente especulativas, criaram a bolha financeira que ameaça explodir na nossa própria cara, em qualquer momento.)

Hjalmar Schacht demitiu-se a 7 de março de 1930 da Presidência do Reichsbank, alegando que as condições sociais da época não permitiam intensificar a austeridade e não permitiam pois impedir um colapso bancário (que na verdade ocorrerá no verão de 1931). Schacht e os seus controladores sabiam que o plano Young não poderia ser implementado num ambiente democrático e que, talvez mais cedo ou mais tarde, se iria materializar dentro de um regime totalitário.

(continua)

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[1] Segundo Hansjorg Klausinger, no seu artigo German Anticipations of the Keynesian Revolution?: The Case of Lautenbach, Neisser and Ropke:

A grande depressão, na Alemanha e em particular no tempo da governação de Brüning, 1930-32, tem sido objeto de uma minuciosa investigação. Uma razão de fundo para essa preocupação dos historiadores e economistas é, claramente, a ligação entre a miséria na depressão, o declínio e a queda da República de Weimar assim como a ascensão do regime nazi. Neste sentido, a política deflacionista do governo Brüning fornece claramente a ligação fundamental. A visão dominante mantém que uma política alternativa, uma política mais expansionista, teria sido em certa medida um meio eficaz para combater o desemprego e a depressão. Além disso, esta poderia também ter impedido que os nazis chegassem ao poder. A existência, real ou suposta, de uma tal política alternativa defendida por uma escola de pensamento expansionista entre os economistas alemães tem sido, então, o principal suporte para este argumento.

No entanto, há outra razão que confere uma grande importância a este período para o historiador do pensamento económico. Porque estes economistas foram, por vezes, rotulados como os ‘Keynesianos alemães antes de Keynes’, ou ‘pré ou proto-Keynesianos’. É então tentador questionar os fundamentos teóricos da política expansionista apresentados por estes economistas alemães e se eles possivelmente anteciparam o quadro da Teoria Geral de Keynes (1936). A este respeito, ‘verdadeiras’ antecipações da economia keynesiana devem ser distinguidas de outros tipos de ‘proto-keynesianismo’. Este último significa a defesa — antes da publicação da Teoria Geral — de políticas expansionistas e em especial das obras públicas, como uma solução para a depressão e o desemprego. No entanto, a característica de proto-keynesianismo (em contraste com as antecipações de Keynes) é que a expansão assenta sobre fundamentos teóricos diferentes dos da Teoria Geral.

A estas duas razões acresce-se agora e dramaticamente uma terceira. A similitude entre os anos de Brüning que terão dado origem a Hitler e os anos da Troika. Tendo em conta a mesma cegueira ao nível dos dirigentes políticos, importa-nos pois estudar as razões da crise de então para melhor nos podermos tentar defender na crise de hoje.

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