Dorindo Carvalho: «O Sentido Trágico dos Limites» – 1. Tempo histórico e emergência estética – por José Fernando Tavares*

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+Texto de apresentação do livro

«O Homem é a Medida de Todas as Coisas

/ Dorindo / pintura-desenho gráfico».

Edição do Instituto Piaget / Lisboa /  2002

A geração a que pertence Dorindo Carvalho (n.1937) deu primazia à solidariedade, ao afecto e ao companheirismo, qualidades que só raramente voltaram a repetir-se nas gerações posteriores. Referimo-nos, naturalmente, ao domínio da criatividade nas suas diversas metamorfoses. É preciso notar que uma geração, antes de mais nada, é espírito, verdade, vontade e amor, va-lores maiores que, por si só, abrem caminho a um aspecto que é essencial na existência: esse aspecto é, justamente, a criação, na qual reside o verdadeiro sentido de tudo o resto. Para lá da criação propriamente dita, a existência é, de facto, o resto, esse resto inconsútil e efémero que preocupa todos aqueles cujo percurso existencial está longe de qualquer contribuição espiritual, seja ela em que domínio for.

Embora a expressão esteja gasta, podemos, no entanto, dizer que Dorindo Carvalho é um dos úlimos representantes da sua geração, na qual encontramos outros nomes importantes da pintura portuguesa e europeia, mas também outras personalidades que se notabilizaram na literatura e na realização cinematográfica. Na nossa perspectiva, entendemos que só é representante de uma geração aquela personalidade que deu um contributo especial ao tempo histórico que a viu nascer. Seja no domínio da arte, da ciência ou da tecnologia, esse contributo deverá possuir na sua essência um grau de validade que lhe permita permanecer na memória histórica durante muito tempo. Conforme iremos ver mais adiante, o contributo de Dorindo Carvalho para o seu tempo, não apenas no que respeita à pintura, mas, sobretudo, no que respeita ao desenho gráfico, possui uma notoriedade e uma grandeza que só excepcionalmente poderão igualar-se ao contributo dos seus contemporâneos, se bem que essa contribuição, até ao presente, tivesse sido rodeada de uma discrição e de um silêncio que, de alguma forma, foram algo prejudiciais, não ao percurso pessoal do artista propriamente dito (pois Dorindo nunca se permitiu interromper o seu percurso criador), mas sim prejudicial à sua visibilidade pública.

Talvez essa, de resto, não tivesse sido uma das suas preocupações enquanto criador. Embora o preço de uma assinatura, no domínio da arte plástica, seja medido amiúde pela cotação pública do nome do artista, isso não quererá dizer que o valor da sua arte seja menor, nem no contexto do seu aparecimento, nem, sequer, no valor intrínseco que a própria capacidade criativa do artista lhe imprime.

O mercado da arte tem sido o mercado do preconceito. O excesso de valor que a opinião pública, apoiada na crítica mais ou menos credenciada, atribui ao conjunto de uma obra, deve-se ao peso do nome do artista que assina essa mesma obra. É aqui que reside o preconceito, ele mesmo já compreendido e assimilado como instituição no seio da vida social e na mentalidade que a acompanha.

A arte tem sido, na sua íntima essência, um dos aspectos mais complexos assumidos pela natureza humana. Ela compreende o vasto campo do imaginário, mas não deixa, apesar disso, de estar sujeita aos juízos de valor de uma comunidade que nem sempre está preparada para deixar por mãos alheias a sua própria educação do gosto. E o gosto pressupõe uma crença, um determinado tipo de crença, à qual subjaz a opção estética, o gosto pelas coisas do mundo, talvez o grão de sensibilidade mais decisivo que determina o próprio interesse pela vida.

 A arte também nos pode ajudar a gostar de viver, pois há nela um fundo mítico que é aplicado a todas as situações humanas.

Esse fundo mítico é conferido pela força do tempo, e é o próprio tempo que permite sedimentar a importância de uma personalidade, conferindo-lhe o seu valor real; talvez mesmo o seu valor mais justo. A história das artes, sobretudo a história da estética, jamais poderá esquecer o valor de uma obra, mesmo que se verifique um aparente esquecimento por parte dos interesses sociais. A memória histórica, porque se baseia, quer na irrefutabilidade do documento, quer na evidência do monumento, atribui ao seu objecto o valor que lhe é legítimo, consoante a intensidade e a potência do génio aí patente.

Embora o conceito de «genialidade» já tivesse caído em desuso (pois a arte, de facto, deve mais ao esforço e à experimentação do que à espontaneidade mais ou menos gratuita), nada nos impede de utilizá-lo, de modo a que possamos abordar, de um ponto de vista teórico, uma determinada expressão estética, independentemente do contexto histórico em que ela surge. No caso de que agora nos ocupamos — o trabalho pictórico e gráfico de Dorindo Carvalho — podemos afirmar que estamos perante uma expressão que, afinal, sempre nos surpreendeu e que, no momento presente, nos espanta. E espanta-nos por diversas razões, as quais, numa perspectiva de conjunto, formam uma totalidade e uma coerência dignas de uma observação mais cuidada e mais objectiva, sobretudo porque, nesta totalidade, podemos vislumbrar o esboço de um pensamento mais sistemático e mais conforme com os anseios e com as interrogações do homem contemporâneo.

E dizemos que sempre nos surpreendeu porque há muito havíamos tomado contacto com ela sem disso nos darmos conta: assim aconteceu através do contacto com as capas dos livros de bolso da editora Europa-América, na sua primeira fase. Não é frequente um jovem leitor apaixonar-se pela evidência do traço, pelo excesso de humanismo aí presente, pela força espiritual que de aí emana. É impossível um sentimento de indiferença perante esse jogo de traços que ressumam uma humanidade tão impressionante e tão viva como as nervuras de uma árvore ancestral, plena de seiva.

O mercado da arte tem sido o mercado do preconceito. O excesso de valor que a opinião pública, apoiada na crítica mais ou menos credenciada, atribui ao conjunto de uma obra, deve-se ao peso do nome do artista que assina essa mesma obra. É aqui que reside o preconceito, ele mesmo já compreendido e assimilado como instituição no seio da vida social e na mentalidade que a acompanha.

A arte tem sido, na sua íntima essência, um dos aspectos mais complexos assumidos pela natureza humana. Ela compreende o vasto campo do imaginário, mas não deixa, apesar disso, de estar sujeita aos juízos de valor de uma comunidade que nem sempre está preparada para deixar por mãos alheias a sua própria educação do gosto. E o gosto pressupõe uma crença, um determinado tipo de crença, à qual subjaz a opção estética, o gosto pelas coisas do mundo, talvez o grão de sensibilidade mais decisivo que determina o próprio interesse pela vida.  A arte também nos pode ajudar a gostar de viver, pois há nela um fundo mítico que é aplicado a todas as situações humanas.

Esse fundo mítico é conferido pela força do tempo, e é o próprio tempo que permite sedimentar a importância de uma personalidade, conferindo-lhe o seu valor real; talvez mesmo o seu valor mais justo. A história das artes, sobretudo a história da estética, jamais poderá esquecer o valor de uma obra, mesmo que se verifique um aparente esquecimento por parte dos interesses sociais. A memória histórica, porque se baseia, quer na irrefutabilidade do documento, quer na evidência do monumento, atribui ao seu objecto o valor que lhe é legítimo, consoante a intensidade e a potência do génio aí patente.

Embora o conceito de «genialidade» já tivesse caído em desuso (pois a arte, de facto, deve mais ao esforço e à experimentação do que à espontaneidade mais ou menos gratuita), nada nos impede de utilizá-lo, de modo a que possamos abordar, de um ponto de vista teórico, uma determinada expressão estética, independentemente do contexto histórico em que ela surge. No caso de que agora nos ocupamos — o trabalho pictórico e gráfico de Dorindo Carvalho — podemos afirmar que estamos perante uma expressão que, afinal, sempre nos surpreendeu e que, no momento presente, nos espanta. E espanta-nos por diversas razões, as quais, numa perspectiva de conjunto, formam uma totalidade e uma coerência dignas de uma observação mais cuidada e mais objectiva, sobretudo porque, nesta totalidade, podemos vislumbrar o esboço de um pensamento mais sistemático e mais conforme com os anseios e com as interrogações do homem contemporâneo.

E dizemos que sempre nos surpreendeu porque há muito havíamos tomado contacto com ela sem disso nos darmos conta: assim aconteceu através do contacto com as capas dos livros de bolso da editora Europa-América, na sua primeira fase. Não é frequente um jovem leitor apaixonar-se pela evidência do traço, pelo excesso de humanismo aí presente, pela força espiritual que de aí emana. É impossível um sentimento de indiferença perante esse jogo de traços que ressumam uma humanidade tão impressionante e tão viva como as nervuras de uma árvore ancestral, plena de seiva.

 

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