HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO PELOS SEUS OITENTA ANOS – DE UMA CRISE A OUTRA, DA CRISE DOS ANOS DE 1930 NA ALEMANHA À CRISE DOS ANOS DA TROIKA — A EQUIVALÊNCIA NOS DISCURSOS POLÍTICOS, A EQUIVALÊNCIAS NAS POLÍTICAS ECONÓMICAS APLICADAS – VII

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Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

 

PARTE V: Da queda do general Kurt von Schleicher à ascensão de Hitler

 

Com a comunicação ao país feita pelo general-chanceler torna-se pois clara a posição do mais importante adversário dos nazis e da oligarquia financeira que dominava Berlim e, ao mesmo tempo, torna-se evidente quais são as suas fontes de inspiração. Um homem, portanto, a destituir e posteriormente a abater. Na urgência, a direita alemã e os meios financeiros e económicos tudo fizeram e conseguiram para que o marechal Hindenburg destituísse o general e nomeasse Adolfo Hitler para o cargo de chanceler, o que aconteceu a 28 de janeiro de 1933.

Para esta destituição terão trabalhado em consonância direta ou indireta e com apoios financeiros von Papen, Schacht, Gobbels, Joachim von Ribbentrop, Göring, von Thyssen, Alfried Alwyin Krupp, barão Kurt von Schröder (grande financeiro) Wilhelm Keppler, da IG Farben, Friedrerich Flick (grande industrial), Emil Kirdorf (imperador na indústria extrativa), para além de Hitler, obviamente. Para este efeito terão utilizado as boas graças de von Papen junto do marechal Hindenburg e o ódio de morte que o filho do marechal, Oskar von Hindenburg, nutria pelo general Kurt von Schleicher. Oskar von Hindenburg era “homem pequeno” sem substância moral ou intelectual, mas era afinal dele que o resultado do complô dependia pela persuasão que podia fazer sobre o pai para demitir o general-chanceler. Para o convencerem a empenhar-se a fundo nesse trabalho, para além do ódio ao chanceler em exercício, também terá ajudado uma forte chantagem sobre o filho do marechal, que se encontrava perante graves dificuldades financeiras, com um buraco na ordem de 10 milhões de reichsmarks no Danat Bank. Um segredo que terá permanecido bem guardado e, tendo em conta que Schacht tinha sido um executivo deste banco, é lógico admitir que ele era conhecedor deste facto e que dele se terá servido. A corrupção sempre foi o que foi, sempre é o que é. De todo este processo uma coisa é clara: Hitler chega ao poder pelas mãos do grande capital, industrial e financeiro.

Paralelamente à pressão destas personalidades altamente respeitáveis do ponto do visto do marechal Hindenburg, houve também o aumento da atividade insurrecional promovida pelas SS, pelas SA, pelas tropas nazis, que faziam reinar o terror no país. O marechal, velho, cansado e doente, decide-se então aceitar as sugestões e os argumentos das altas figuras citadas. E o resultado de tudo isto foi a nomeação de Adolfo Hitler para formar governo a 30 de janeiro de 1933.

Algumas semanas depois da tomada de poder, os nazis deitam fogo ao Parlamento, numa operação orquestrada por Goebbels e Göring e de modo a que o partido nazi aparecesse como o garante da estabilidade da nação ameaçada pelos extremistas de esquerda! Marcam-se pois novas eleições em março de 1933, a terceira no espaço de um ano, e os nazis atingem um resultado histórico — 17 milhões e 300 mil votos, ou seja 43,9% dos votos —, aprovando assim o parlamento os plenos poderes para Hitler. A ditadura pode pois começar…

Hitler nomeou rapidamente Schacht para a presidência do Reichsbank. Schacht efetivamente tinha merecido esta nomeação, ele que tinha presidido à recolha de fundos para a campanha eleitoral dos nazis junto da larga rede de industriais e dos meios da alta finança que tinha à sua volta.

Os nazis fizeram votar, alguns dias mais tarde, a lei sobre os plenos poderes de Hitler. O período que se seguiu foi uma fase de consolidação, com a dissolução dos sindicatos e dos partidos políticos (exceto o partido nazi, obviamente). Os nazis iam oferecer por algum tempo presentes às diferentes componentes da sua clientela e lançar um programa económico muito heteróclito que compreendia, designadamente, subsídios para a renovação de bairros residenciais selecionados e o desenvolvimento de vários projetos de infraestrutura. Mas estava-se bem longe do “New Deal” de Roosevelt ou do programa de estímulo à economia proposto por Lautenbach e von Schleicher[1].

E o assassinato dos adversários de Hitler pôde pois iniciar-se. O general Kurt von Schleicher e a sua mulher são abatidos a tiro na sua casa. Ernest Rhom que apoiava Schleicher é capturado na “noite de cristal” e tem o mesmo destino. George Strasser, o concorrente de Hitler à direção do partido e que tinha aceitado o cargo de vice-chanceler junto de Schleicher é preso e executado com uma bala na nuca. E assim sucessivamente.

O resto está escrito a sangue na mais longa noite escura que se abateu na Europa e por obra dos fanáticos alemães apoiados pelo grande capital. E destes não há memória de terem ficado presos muito tempo depois de Nuremberga.

De entre os grandes apoiantes de Hitler, vale a pena referir:

— Emil Kirdorf, o imperador da indústria extrativa, proprietário do primeiro grupo mineiro europeu. Morreu em 1938 e Hitler promoveu-lhe o funeral com honras nacionais.

— Família Krupp. Do velho patriarca Gustav Krupp aos seus herdeiros. A família Krupp forneceu a Hitler um apoio determinante no seio do grande capital alemão. O seu filho mais velho entrou mesmo para as SS em 1938. Krupp participou na reunião convocada por Hitler com os grandes capitalistas alemães, semanas antes de desencadeada a guerra contra a Polónia. Tratou-se de repartir, entre os membros do clube de capitalistas alemães, as pré-anexações das empresas que tinham sido perdidas na sequência da Primeira Grande Guerra e do Tratado de Versalhes. Krupp fez a sua escolha, tal como os outros, entre as fábricas deste país que contudo ainda não tinha sido conquistado. Mas o seu apoio ao esforço de armamento merecia este prémio: Alfred Krupp tinha-se especializado em transformar as suas fábricas em fábricas de material de guerra. De resto, foi durante todo o período de guerra o principal fornecedor de armamento a Hitler. Milhões de mortes levaram o corpo rasgado pelas balas feitas com aço Krupp. Para fabricar este material, as fábricas do grupo dispunham de uma mão-de-obra quase que gratuita, deportada dos países invadidos.[2] Estes trabalhadores condenados a trabalho forçado morriam lentamente numa centena de fábricas sob a marca Krupp, que laboravam com cerca de 100 mil escravos saídos dos campos de concentração.

— Frederick Flick, da indústria siderúrgica. Patrão de um dos conglomerados industriais mais importantes da Alemanha e membro fundador do partido nazi. Financiou generosamente o partido e participou nas lutas de conquista do poder. Notabilizou-se na captação dos bens espoliados aos judeus e na produção de armamento, destinado à Wehrmacht e às SS. Nos campos de batalha ou se era morto por uma bala Flick ou por uma bala Krupp. O esquema de exploração da mão-de-obra era em tudo semelhante ao de Krupp. Morreu em 1972 e nesse mesmo ano a sua fortuna estava considerada entre as cem maiores à escala mundial.

— Wilheim Keeppler. Um dos diretores da indústria química IG Farben e apoiante de Hitler desde a primeira hora. IG Farben teve o privilégio de ser a responsável pela produção do gás Zyklon utilizado nas câmaras de gás dos campos de concentração. Para o experimentar, os nazis entregaram-lhes 500 prisioneiros de guerra russos. A experiência foi conclusiva. Mas IG Farben tirou outros benefícios da guerra. O grupo de Keppler anexou múltiplos complexos químicos nos países ocupados, Checoslováquia, Polónia, Holanda, Bélgica França, onde o grupo Kuhlmann se tornou propriedade da IG Farben. Em Auschwitz foram construídas duas fábricas para IG Farben. O esquema de trabalho era semelhante ao descrito nas fábricas Krupp.

— Além de Fritz Thyssen, do barão Schroeder, há ainda muitos outros…

________

[1] Sabe-se que os primeiros dinheiros disponíveis para este tipo de ações quando Hitler chegou ao poder provinham do sistema criado pelo general Schleicher, ele mesmo já um resultado do plano Lautenbach. Ver Adam Tooze (2016). Le salaire de la destruction, Paris: Editor Tempus Perrin.

[2] Ver Adam Tooze, op. cit.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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