CARTA DO RIO – 120 por Rachel Gutiérrez

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“A mãe da escritora Colette tinha uma tartaruga chamada Charlotte, que dormia durante todo o inverno. A menina Colette sabia que o inverno tinha acabado quando sua mãe anunciava ‘Charlotte s’éveille, c’est le printemps’.” (Charlotte está acordando, é a primavera).

Assim começa o artigo de hoje de Luis Fernando Veríssimo, no Globo. A revelação do escritor conterrâneo e contemporâneo, que muito admiro, provocou em mim sentimentos contraditórios. Em primeiro lugar, uma surpresa um tanto enciumada porque, conhecendo bastante a obra de Colette e tendo lido muito sobre ela, não me lembrava da existência dessa tartaruga chamada Charlotte. Em segundo lugar, a satisfação de descobrir que Veríssimo cultua, como eu, o mundo encantado dessa admirável escritora.

Abri, então, ao acaso, um pequeno livro sobre Colette, da valiosa coleção Écrivains de toujours (Escritores de sempre), das edições du seuil (quer dizer, do limiar, da soleira) e logo deparei com uma referência da escritora à sua mãe,  a sua tão amada Sido, cuja intimidade com a natureza ela sempre procurou assimilar.  O trecho citado no livro narra uma vez que a escritora surpreendeu Sido desenrolando um barbante dourado para amarrar com muitas voltas um ramo de um gerânio que se quebrara ao ficar preso entre o vidro de uma janela e a cortina de tule. Ela evoca, então, a magia daquele “socorro eficaz lacrado com ouro”.

É compreensível que Colette tenha preservado por toda a vida o amor pelas plantas, pelas flores e pelos animais. Sua infância foi vivida poeticamente na bela região da Borgonha, numa casa coberta por era e cercada de flores e árvores. Levantava-se de madrugada para colher morangos e outras frutas silvestres. E, em estado de graça, via o dia nascer, “o primeiro pássaro, o sol ainda oval, deformado por sua eclosão.” Sozinha e livre, dava longas caminhadas pelo bosque e só retornava à casa após beber a água cristalina de uma das duas fontes próximas.

No Rio, agora, estamos na segunda melhor época do ano. A luz do outono talvez seja mais bela, mas a nossa primavera é igualmente luminosa e clara. O céu enfim azul, lembra o de Lisboa e o de Porto Alegre. A cidade continua suja, maltratada, mas as árvores estão bem verdes e viçosas. Para nossa alegria, a natureza continua generosa.

Eu bem que gostaria de continuar falando do céu azul e do verdor das árvores, mas a nossa primavera também nos trouxe uma tarefa nada fácil: escolher, no segundo turno da eleição para prefeito, entre dois candidatos que Rosiska Darcy de Oliveira definiu com perfeição: “ícones de duas religiões.” E perguntou:

É a isso que estamos condenados, nós os que não subscrevemos nem às igrejas do reino de Deus nem às do reino da terra?

Pois ficamos entre um bispo evangélico da Igreja Universal e um candidato do PSOL, (Partido Socialismo e Liberdade), a vertente dissidente e radical do PT, a esquerda mais dogmática.

Rosiska escreveu ontem:

Crivella e Freixo conquistaram, numa eleição rigorosamente democrática, o direito de disputar o segundo turno. O eleitorado que não se reconhece em nenhum dos dois terá de dialogar com eles. E vice-versa. Os candidatos terão que respeitar essa parcela da sociedade que tem com os dois diferenças abissais. E agora?

São Paulo teve mais sorte: elegeu logo no primeiro turno o novo, a novidade: João Dória, um empresário bem sucedido que se apresentou como um “não político”, apenas um administrador, um gestor independente e possivelmente eficaz.

Escreveu Fernando Gabeira:

A eleição de São Paulo consagrou um candidato com um perfil mais próximo do empresário que do político profissional. Além da corrupção, que é o grande tema, existe no ar uma demanda por eficácia.

 Além disso, o grau de abstenção, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas também em todo o país, retratam o estado de espírito dos eleitores. E Gabeira explica o recado das urnas tanto aqui quanto em outros países:

Sistemas políticos envelhecidos que não conseguem produzir sua renovação, acabam sendo superados por algo que vem de fora, inicialmente pessoas bem-sucedidas com capacidade de financiar suas campanhas.

Porém, não há milionários nem astros de TV (como Trump) para assumir todos os governos.

O que Gabeira conclui, na atual conjuntura política de vários países e do Brasil é que quem foi às urnas e perdeu as eleições foi próprio sistema político.

Voltando ao Rio de Janeiro, vejamos o que a brilhante escritora Rosiska Darcy de Oliveira manda como recado para os nossos candidatos:

O poder não se esgota no poder. Nem a democracia nas eleições. Freixo e Crivella, um ou outro governará uma cidade insubmissa, senhora de uma cultura própria e, ao mesmo tempo, cosmopolita, aberta à invenção de modos de vida. Quem quer que seja o eleito, quisera que logo entendesse que é a cultura da cidade que estará sempre no comando. E essa cultura, afeita não propriamente à fé, mas certamente à esperança, só respira em liberdade.

Sim! É certo que os cariocas irão resistir a qualquer retrocesso na defesa da descriminalização do aborto, ao recrudescimento na violência contra as mulheres ou na discriminação e agressão contra gays etc. etc. O eleito que se cuide.

Nesta primavera, e sempre, o Rio de Janeiro continuará exercendo seu papel e se orgulhando de ser o cartão de visitas do Brasil, de sua alegria e de sua liberdade.

 

 

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