DARIO FO, O “JOGRAL” NOSSO CONTEMPORÂNEO –  POR MANUEL SIMÕES

Dario Fo
Dario Fo

manuel-simc3b5esAcaba de nos deixar Dario Fo (1926-2016), o grande dramaturgo/actor italiano que encheu os palcos de todo o mundo com a sua arte genial. Tive a sorte de assistir, extasiado, a dois espectáculos encenados a partir de dois episódios da sua obra mais prestigiosa, Mistero Buffo, o texto construído a partir de 1969, fazendo confluir diversos dialectos italianos ou até inventados, o que não impedia a grande comunicação com públicos de todo o mundo, graças à linguagem corporal e gestual verdadeiramente extraordinárias. Teatro político no sentido mais nobre, a sua popularidade foi enorme porque através das tiradas “jogralescas”, e da introdução a cada espectáculo, desenvolvia-se e crescia um discurso metódico, claro, directo e concreto sobre a cultura e a História.

Os espectáculos de Dario Fo eram irrepetíveis, não só pelas introduções, certamente programadas mas ditas com a espontaneidade que nos pareciam criação do momento; e, na verdade, muitas vezes tinham que ver com o contexto político-social. Um dos espectáculos a que assisti foi representado em Veneza por ocasião do Carnaval, nos primeiros anos em que se retomou esta manifestação, com forte participação popular, sem o folclore e os estereótipos actuais para turista ver. Então Dario Fo introduziu o episódio “Maria conhece a condenação imposta ao filho”, extraído dos evangelhos apócrifos, com uma história local. Narrou então:

Quando se celebrava o Carnaval no século XVIII, as festas duravam três meses. Ora aconteceu que, na véspera de principiarem, subitamente faleceu o doge, o que pôs em embaraço os políticos: divulgar ou não a sua morte, o que, na primeira hipótese, significava anular todos os actos festivos. Decidiu-se então esconder a morte do doge mas era necessário conservar o cadáver, embalsamando-o. Para tal era necessário retirar as vísceras e levá-las para fora da cidade, utilizando o bucintoro (barco real), o qual percorreu o Canal Grande com o aplauso geral do público, pensando assistir à passagem da primeira figura da Sereníssima República. Aqui Dario Fo fez a extrapolação política para que conduzia a crónica veneziana: também naquele momento se efectuava um congresso da Democracia Cristã, isto é, para ele um cadáver que muita gente venerava e considerava vivo.

Os “mistérios” medievais, que Daria Fo construiu durante anos de pesquisa, inserem-se numa visão do mundo que concebe a história feita pelo povo, vivida e contada pelo povo, contrariando a História oficial contada pelas classes dominantes. O grande comediante escreveu outras obras, entre as quais a peça Não se paga, não se paga!, traduzida e representada em Portugal, e um romance sobre as peripécias da família Borgia, sobre as quais recentemente o Autor declarou não serem diferentes das que se vivem na actualidade.

Obteve o Prémio Nobel para a Literatura em 1997. À sua irreverência de “jogral” aqui fica a nossa homenagem, a ele que também declarou: «a maior infâmia é a da hipocrisia».

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