
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Fluxos de fundos e saldos sectoriais

Bill Mitchell, Flow-of-funds and sectoral balances
Billy Blog, 24 de Novembro de 2015
(CONCLUSÃO)
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Por exemplo, existem várias teorias sobre a despesa das famílias em bens de consumo , mas todas elas sugerem que o consumo é determinado positivamente por mudanças no rendimento disponível. A resposta do consumo a uma mudança no rendimento é chamada propensão marginal a consumir (PMC). É, normalmente considerado que a PMC será menor do que um, de modo que o resíduo do rendimento disponível não consumido seja positivo, sendo este resíduo que constitui a poupança.
Assim, o saldo financeiro privado (S – I) irá aumentar, com tudo o resto igual, quando o rendimento nacional aumenta .
Da mesma forma, a receita fiscal (líquida de transferências) é considerada uma função positiva do rendimento nacional. Assim, com tudo o resto igual, o saldo financeiro da administração pública (G – T), ( o défice), cai quando aumenta o rendimento nacional, e vice-versa.
As importações também são considerados uma função positiva do rendimento nacional – por isso, quando o rendimento nacional aumenta nós compramos mais bens produzidos localmente e mais mercadorias importadas. Assim, o saldo externo cai quando o rendimento nacional sobe, e vice-versa, com tudo o resto constante.
Poderíamos acrescentar mais proposições teóricas complexas para explicar o investimento privado interno, as exportações, os gastos públicos e as transferências líquidas de rendimentos do estrangeiro. E, de facto, os grandes modelos macroeconômicos fazem exactamente isso.
Mas o importante a considerar é que essas conjecturas teóricas nos permitem colocar a hipótese do que poderá acontecer com os saldos financeiros se houver um choque externo que conduz a mudanças no rendimento.
Por exemplo, poderíamos considerar que o governo decide que o nível de rendimento é muito baixo porque as despesas públicas são muito baixas em relação às despesas de plena capacidade e, como tal, com o desemprego daí resultante a ser muito alto.
Introduz-se então um aumento discricionário do défice tal que G – T sobe. Isso estimula o rendimento nacional através do processo de multiplicador da despesa que aumenta o rendimento disponível, a despesa em bens de consumo e a poupança das famílias. Esta mudança também estimula o aumento das despesas de importação.
Se nada mais mudar, a aquisição privada líquida de activos financeiros vai aumentar e o défice externo irá ele também aumentar, por pouco que seja. A relação entre os saldos sectoriais será mantida, mas o rendimento nacional será maior e os activos financeiros líquidos no sector não-governamental terão então variado.
Um raciocínio teórico mais complexo é obviamente possível.
As estruturas contabilísticas que sustentam a estrutura dos saldos sectoriais permite confirmar esta lógica. Por exemplo, se um político diz que o governo e as famílias devem, em simultâneo, reduzir o seu endividamento líquido ( aumentar a sua riqueza líquida) (assumindo estratégias neoliberais de emissão da dívida pública ), então nós sabemos que tal não é possível. Não precisamos de recorrer à teoria para chegar a este tipo de conclusões.
As estruturas contabilísticas não nos permitem determinar a validade de uma declaração política que diz que a austeridade vai estimular o crescimento. Nesta matéria, precisamos de teoria e podemos usar a estrutura dos saldos sectoriais e fazer inferências sobre quais os sectores que respondem e de que forma respondem, quando a austeridade é imposta.
Conclusão
O quadro dos saldos sectoriais e a abordagem de fluxo de fundos que lhe está estreitamente ligada é uma ferramenta analítica extremamente útil, que é muito pouco utilizada pelos economistas.
Em certo sentido, isto é contabilidade pura. Esta fornece informações úteis no seu próprio campo. Mas para realmente a utilizar como um motor para compreender e e analisar a realidade económica precisamos de ligá-la com hipóteses teóricas que nos permitem compreender como é que os saldos respondem às mudanças de rendimento e como é que correspondem a diferentes estados da economia.
Isto é suficiente, por hoje!
Bill Mitchell, Flow-of-funds and sectoral balances, texto disponível em
http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=32396 . Publicação autorizada.
Anexo:
Um excerto do texto Europe will work – But it needs to strengthen its governance, fix its banks, and reform its structural policies, editado por John Llewellyn e Peter Westaway, publicado por Bank Nomura
Saldos sectoriais e dinâmica da dívida pública
Os três défices– público, privado e externo (a balança corrente) – estão ligados por identidades e podem individual e coletivamente provocar um problema da dívida pública.
A poupança nacional (isto é, a balança corrente/dito o setor externo), é a soma da poupança pública e privada ( a poupança privada é a soma da poupança das famílias e das empresas ). A identidade pode ser expressada como:
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ΔCA ≡ ΔSG + Δ(SH + SC)
Onde CA se refere ao saldo da balança corrente , SG é a poupança pública total , SH é a poupança total das famílias e SC é a poupança total das empresas. O símbolo Δ denota uma variação no valor da variável em questão e o símbolo ≡ é o símbolo de identidade.
As origens de problemas da dívida de um país podem diferir: podem ser devidas basicamente à queda de competitividade; ao crescimento dos défices do setor privado ( das famílias e/ou das empresas ); ou a existência de défices públicos crescentes entes.
Deste modo, a equação (1) pode ser reescrita :
-
ΔSG ≡ ΔCA – Δ(SH + SC)
-
Δ(SH + SC) ≡ ΔCA – ΔSG
Comecemos com a hipótese de uma economia em equilíbrio – isto é em pleno emprego e com uma posição da balança corrente sustentada. Então:
Da equação 1: O movimento para um défice da balança corrente, ceteris paribus, terá como suas contrapartes uma mudança para uma situação de défice do setor público, um movimento para uma situação de défice no setor privado, ou mudança em ambos os casos;
Da equação 2: Uma mudança para um défice do setor público, ceteris paribus (isto é não sendo ele próprio causado por uma mudança na balança corrente ou na poupança privada), terá como suas contrapartes uma mudança para uma situação de défice na balança corrente, para uma situação de excedente no setor privado, ou ambos; e
Da equação 3: Uma mudança para uma situação de défice do setor privado, ceteris paribus, terá como suas contrapartes uma mudança para um excedente no setor público, uma mudança para uma situação de défice na balança corrente, ou ambas as situações.
Os mecanismos que efetuam tais mudanças são numerosos. Frequentemente, contudo, e independente do sector de origem, os problemas podem terminar no setor público. A dinâmica de uma grande dívida pública pode levantar problemas diabólicos.
A dinâmica do rácio (Dívida Pública) /PIB é uma função de três componentes:
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o saldo primário – o orçamento público antes do pagamento dos juros da dívida.
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O efeito bola de neve – a diferença entre a taxa de juro nominal paga na dívida e a taxa de crescimento nominal da economia – “multiplicada ” pelo dívida pendente por unidade PIB.
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O ajustamento stocks-fluxos – ajustamentos que asseguram a consistência entre os empréstimos líquidos (um fluxo) e a variação no stock da dívida bruta . Este termo do saco onde se mete muita coisa inclui, inter alia, perdas/ganhos resultantes da intervenção do setor bancário e dos efeitos de avaliação (especialmente importantes quando a dívida é designada em divisa estrangeira). Estes efeitos são altamente incertos ex ante, mas podem ser a posteriori quantitativamente importantes.
A variação do rácio da dívida pública relativamente ao PIB de um ano a outro pode ser escrita como :
Δ(Dt/Yt ) = – (PBt/Yt ) + [(Dt-1/Yt-1) x (it – yt )/(1+ yt)] + (SFt/Yt )
Saldo primário, Efeito bola de neve, ajustamento stock-fluxos
onde D é o montante da dívida pendente , Y é o PIB, y a taxa de crescimento do PIB em termos nominais, PB o saldo primário público , SF o ajustamento do stock – fluxos, e i a taxa de juro implícita nominal aplicada ao volume da divida pendente.
Uma dinâmica desfavorável da dívida pode então surgir de :
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Um défice primário público ; e ou
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Uma taxa de juro nominal paga pela dívida que é maior que a taxa de crescimento nominal do PIB sobretudo quando associada com uma forte dívida existente ; e ou
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Prejuizos havidos no sector financeiro /ou desvalorização com um grande valor da dívida a estar expressa em moeda
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Ver o original em:
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