EDITORIAL: A vitória da estupidez.

logo editorialTal como sucedera dez anos antes em Portugal, com intelectuais e esquerda vendo com bons olhos a intervenção militar de 28 de Maio de 1926 que (dizia-se) ia repor a ordem no País e que, logo que pacificada a vida nacional, a Nação seria devolvido às instâncias constitucionais que a Lei Fundamental de 1911 preconizava, também na Espanha Republicana de 1936, houve gente do mundo da Cultura que, saturada da desorganização política, dos confrontos violentos entre facções, acreditou que el alzamiento poderia pôr alguma ordem no caos político que a República trouxera. Miguel de Unamuno, humanista com grande prestígio no universo da cultura, surpreendera tudo e todos ao apoiar   os «nacionalistas».

No editorial de 12 de Outubro de 2012 descrevíamos o grave incidente ocorrido no mesmo dia, mas dedicado à discussão entre Unamuno e José Millán Astray, fundador do  Tercio  e mutilado de guerra[i]

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­.Unamuno pediu ao general fascista que pensasse em Espanha? Mas em qual Espanha? Na que preparava a federalização, dando autonomia das nacionalidades que a compõem? «Ou a una e grande» dominada pela Igreja e alinhando com o nazi-fascismo que crescia e se preparava para dominar o mundo?

Como diz Luís Cília cantando Manuel Alegre, «dois países num país». A Falange cresceu verrinosamente, enquanto a esquerda lutava entre si. Com  as tropas franquistas às portas de Barcelona, os comunistas transportavam anarquistas para as praias onde eram fuzilados[1]  Os intelectuais eram presa apetecida pelos falangistas. Em geral, não ofereciam resistência: perante as turbas armadas, opunham às vezes corajosos discursos que provocavam gargalhadas aos assassinos, discursos que muitas vezes eram cortados a meio pelo ladrar das espingardas.

A estupidez, humilhada, vingava-se.

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[1]Em fins de Julho, nos bolsos do reitor amontoavam-se cartas de familiares e de amigos, de colegas e alunos seus presos – professores, escritores, jornalistas, artistas, pedindo-lhe que usasse a sua influência para livrar os entes queridos da morte.[…] Unamuno foi, no início de Outubro, ao paço episcopal, onde Franco estava a residir e instalara o seu posto de comando, suplicar clemência para os amigos. Em vão, pois todos iam sendo executados.[…] Unamuno arrependera-se de ter apoiado aquela gente miserável, com o seu prestígio de figura mundialmente conhecida, desiludindo a intelectualidade internacional que, com raras excepções, condenara o golpe contra a República. Foi-se apercebendo, do horror que alastrava por Espanha.[…] Naquela segunda-feira,  12 de Outubro, ia decorrer na sala dos actos (o «paraninfo») da Universidade a abertura solene do ano académico. Acabrunhado, tomava apontamentos enquanto os discursos «patrióticos» se sucediam. Mas não pôde conter-se – de súbito, pôs-se de pé. As palavras brotaram-lhe de um jorro: «Falou-se aqui de guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu próprio o fiz. Mas não, a nossa é apenas uma guerra incivil. » (…) «Vencer não é convencer e é preciso convencer, principalmente, e não pode convencer o ódio que não deixa lugar para a compaixão. Falou-se também de catalães e bascos, chamando-lhes anti-Espanha; pois bem, com a mesma razão podem eles dizer o mesmo. E aqui está o senhor bispo, que é catalão, para vos ensinar a doutrina cristã que não quereis conhecer, e eu, que sou basco, levei toda a minha vida a ensinando-vos a língua  espanhola, a qual não sabeis…»[…]Nesta altura, o general Millán Astray, que odiava Unamuno, que o acusara de corrupção, gritou «-Posso falar? Posso falar?» A sua escolta puxou das armas e alguém entre o público gritou – «Viva a morte!». O general derramou todo o seu estúpido rancor, designando a Catalunha e o País Basco como cancros de Espanha. Contudo, acrescentou, o fascismo redentor iria exterminá-los cortando em carne viva como um frio bisturi. Estava tão enraivecido que ficou sem voz. Ouviram-se então diversos vivas a Espanha. Fez-se um silêncio absoluto e mortal. Os olhos voltaram-se para Unamuno. Erguendo-se, este proferiu um discurso que seria a sua derradeira lição, a sua lição magistral:«Conheceis-me bem e sabeis que não sou capaz de ficar em silêncio. Por vezes, ficar calado é o mesmo que mentir, pois o silêncio pode ser interpretado como aceitação» (…) «Acabo de ouvir o grito necrófilo e insensato de “Viva a morte!” Isto soa-me igual a “Morra a vida”. E eu que passei toda a vida a criar paradoxos que provocaram a reprovação e o enfado daqueles que os não compreenderam, tenho de vos dizer, com autoridade na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. Uma vez que foi proclamada em homenagem ao último orador, entendo que foi a ele dirigida, se bem que de uma forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele próprio é um símbolo da morte. E outra coisa. O general Millán-Astray é um inválido. Não é preciso que o diga em tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Porém os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, hoje em dia há demasiados inválidos. E depressa haverá mais se Deus não nos ajudar. Custa-me pensar que o general Millán-Astray possa ditar normas de psicologia de massas. Um inválido que não tenha a grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem, não um super-homem, viril e completo apesar das suas mutilações, um inválido, como disse, que não possua essa superioridade de espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados em seu redor» (…)«O general Millán-Astray gostaria de criar uma Espanha nova, criação sem dúvida negativa, à sua própria imagem. Por isso ele desejaria uma Espanha mutilada».[…]Millán-Astray que entretanto recuperara a voz, rugiu: «Morra a inteligência!». Unamuno respondeu-lhe com a serenidade de quem se sabe perdido: «Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vós estais profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta no meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque tendes força bruta de sobra; mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir necessitais de uma coisa que vos falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha».

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