O MAPA (A saga do anadel) – Ordens d’El-rey – 36 por Carlos Loures

 

Madrugada de 27 de Julho de 1487

 

Quando ocorria no Paço esta audiência, el-rei não sofrera ainda o cruel desgosto nem a doença (ou peçonha posta) que o iriam flagelar anos depois. Contudo, feliz ou infeliz, era sempre avaro em semblantes radiosos. Mantendo o ar austero durante a conversa, se de conversa se pode falar quando só um dos interlocutores fala, sem perder tempo com rodeios, disse então a Lourenço que iria ser conduzido a bordo de uma carraca estrangeira fundeada no «rio de porto» de Lisboa, onde seria engajado como grumete ou moço de convés – como tripulante de importância ínfima. Tratava-se de uma nave comercial, com o nome de Leeuwarden, navegando sob a bandeira da Flandres, e que se dirigia, sem paragem, a Veneza, transportando nos porões vinho, azeite, queijos curados, frutos secos, sobretudo figos e passas de uva, linho por fiar e outras mercadorias daquelas que se produziam em Portugal e eram por nós exportadas – era estranho, pensou o jovem, como um rei, com tantos e difíceis assuntos a resolver, pudera memorizar o conteúdo da carga de uma das muitas naves estrangeiras que estavam ancoradas em Lisboa. O rei continuou – De regresso à Flandres, esta carraca voltaria a arribar a Lisboa dentro de poucos meses, transportando na torna-viagem produtos venezianos ou mercadorias vindas doutras nações, mas ali compradas. A nave flamenga fora já, como era de lei e usança, vistoriada pelos vedores da Casa do Marco, tinha pago o imposto de ancoragem na Casa dos Contos, e, estando a carga e tripulação em condições e pagos os devidos tributos, partiria nessa madrugada, pelo que não poderia atrasar-se a embarcar.

Em Veneza enquanto o navio descarregava e carregava, teria de cumprir a missão. O barco não demoraria mais tempo do que o necessário para cumprir a sua função comercial e que seriam dois ou três dias. Como era óbvio, a Leeuwarden não esperaria por um grumete para fazer a torna-viagem. A carraca partiria logo que as usuais operações portuárias de descarga e carga estivessem completadas. Tinha, portanto, de ser lesto e de tudo fazer com perfeição, rapidez, sigilo e discrição. Sobretudo, com ponderação, que parecia ser qualidade de que o besteiro muito carecia, acrescentou o rei erguendo o sobrolho e sublinhando o remoque com um assomo de tosse. Que nunca se esquecesse de que «a sageza é discreta e calada e a asneira sempre é faladora».

Em seguida, el-rei tossiu de novo, fez uma pausa em que bebeu um gole de água. Avisou-o depois que, por certo, dada a baixa condição do posto que iria ocupar a de bordo da Leeuwarden, iria sofrer durante a viagem de ida humilhações e até mesmo castigos, porventura injustos, maus tratos e privações, que eram, todas elas, coisas vulgares na vida da marinharia. Porém, se reagisse de forma agressiva, como parecia ser da sua natureza, estropiaria todo o plano, destruindo a cobertura perante os agentes inimigos que, por certo, os havia a bordo. Tudo o que estava em jogo, e era muito, iria por água abaixo. A missão falharia, os benefícios e perdões prometidos ficariam sem efeito. Poderia contar, quando do seu regresso, com um agravamento do castigo que lhe estava destinado pela agressão ao fidalgo. Contudo, acentuou, se a missão fosse cumprida, na viagem de regresso seria tratado de maneira menos dura, havendo mesmo talvez algum prémio à chegada. Talvez, sublinhou, sem se comprometer.

Era preciso estar preparado para passar provas dolorosas, maus-tratos, castigos e injúrias. A missão, salientou, era bem mais importante do que o orgulho ferido de um besteiro, para mais condenado por agressão a um fidalgo da Corte. Tinha de desempenhar com todo o rigor o papel de humilde grumete. Lourenço não proferindo palavra, assentia com a cabeça a tudo o que escutava, pois à voz de el-rei não há coisa forte. Aliás, o soberano não lhe dava margem para que emitisse divergências ou opiniões. Não se tratava de uma conversa, mas de uma extensa lista de recomendações, ordens e ameaças emitidas em jeito de monólogo. Nada de arrojos, pundonores, valentias desnecessárias – e emitiu mais um aforismo: «quanto mais valentes são os ratos, mais depressa engordam os ratos».

A bordo havia um agente que, embora estrangeiro, servia fielmente os interesses do Reino e que, quando fosse conveniente se identificaria. Esse secreto da Coroa, na altura de ser desembarcado em Veneza, fornecer-lhe-ia instruções sobre a missão, bem como o contacto que teria de estabelecer para a poder levar a cabo. Entregar-lhe-ia uma bolsa com dinheiro para prover as suas despesas durante o desempenho da missão. Porém, haveria, como já tinha dito, segundo informações muito seguras, também agentes de Castela ou de Veneza, ou mesmo das duas, e, não se sabe mesmo se enculcas de outras nações. E ainda que os não houvesse, convinha sempre proceder na presunção de que assim era. Que nunca esquecesse que «a vigilância é a mais extremosa mãe da segurança».

E revelou-lhe então em poucas palavras, o objectivo da missão – recuperar um mapa roubado na Casa da Mina. Tratava-se de um planisfério com informação altamente secreta. Os ladrões estavam ao serviço de Veneza e o mapa estava a caminho da República para ser vendido a Castela. A missão consistia em impedir que o negócio fosse feito e, se possível, trazer o planisfério para Portugal. E, como apenas lhe tivesse ocorrido naquele momento, disse que seu pai, o «notável e honrado Lopo de Mateus, a quem a ciência do nosso Reino tanto deve», fora morto a mando de alguém que queria roubar a cópia desse mapa executada na sua oficina. A polícia do Reino tinha descoberto esse motivo para o crime e estava na peugada dos criminosos Quem tinha cometido o acto, seria punido.

Palavras que, ditas num tom indiferente, como se de coisa de somenos se tratasse, transformaram, no entanto, como por magia, uma missão de serviço, que, em qualquer dos casos, cumpriria com zelo, numa questão pessoal por cuja resolução daria mil vezes a vida, se mil vidas possuísse. Não parecendo dar-se conta do tumulto que provocara no íntimo do moço, el-rei deu a entrevista por concluída. Tinha de ser corajoso, ardiloso, forte e, sobretudo, de suportar estoicamente as dificuldades que se lhe apresentassem, de modo a não ser identificado como servidor da Coroa. Desconfiando sempre. («a credulidade dos tolos é património dos velhacos») . Era tudo por ora, disse. E com um gesto incisivo el-rei despediu-o, logo começando a despachar outro assunto com um dos servidores que o rodeavam. Trémulo de emoção pela revelação que o rei lhe fizera, Lourenço ajoelhou e beijou-lhe a mão, logo saindo, rodeado pelos homens de armas que o tinham trazido do Tronco.

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