Ignacio Ramonet, Les 7 propositions de Donald Trump que les grands médias nous cachent
Mémoire des Luttes, 21 de Setembro de 2016
Há ainda algumas semanas – a mais de dois meses da eleição presidencial do próximo 8 de Novembro nos Estados Unidos –, todas as sondagens davam Hillary Clinton, a candidata do Partido democrata, como a vencedora. Parecia então evidente que, apesar da peso dos preconceitos machistas, a Sra. Clinton seria a primeira mulher a ocupar a Sala Oval da Casa Branca e ter nas mãos as rédeas da mais importante potência do nosso tempo.
O que é que tinha acontecido ao candidato do Partido republicano, o mediático Donald Trump, cuja ascensão era considerada como “irresistível”? Porque é que tinha caído tão fortemente nas sondagens? Sete americanos em cada dez declaravam que não o queriam como presidente; e apenas 43 % o consideravam como “qualificado” para se sentar à Casa Branca (65 % consideravam, em contrapartida, que Hillary Clinton estava perfeitamente apta para exercer esta tarefa).
Recordemos que nos Estados Unidos, as eleições presidenciais não são nem nacionais nem diretas. Trata-se antes de cinquenta eleições locais, uma por cada Estado, que designam os 538 grandes eleitores encarregados de elegerem por sua vez (ele ou ela) o chefe do Estado. Isto relativiza singularmente as sondagens de caráter nacional.
Face a estes resultados tão maus, contudo, o candidato republicano Donald Trump decidiu, em Agosto passado, fazer algumas mudanças na sua equipa e nomear um novo chefe de campanha, Steve Bannon, diretor do sítio ultra conservador Breitbart News Network. Trump alterou também o seu discurso para se dirigir a dois grupos de eleitores decisivos: os Afro-Americanos e os Hispânicos.
Conseguirá ele assim inverter a tendência e impor-se na resta final de modo a ganhar a campanha? Não é impossível. Com efeito, Trump parece já, em parte, ter recuperado o seu atraso em relação a Hillary Clinton. Personagem atípico, com as suas propostas odiosas, grotescas ou sensacionalistas, Trump já superou os prognósticos. Face a pesos pesados como Jeb Bush, Ted Cruz ou Marco Rubio que, além disso, contavam sobre o apoio decidido do conjunto do establishment republicano, eram poucos os analistas que davam Trump como vencedor nas primárias do Partido republicano. E contudo, esmagou os seus adversários, reduzindo-os a cinzas.
Desde a crise devastadora de 2008 (da qual ainda não saímos), nada há que esteja como dantes, em parte nenhuma. Os cidadãos estão profundamente desiludidos, desencantados e desorientados. A própria democracia, como modelo, perdeu uma grande parte da sua atração e da sua credibilidade. Todos os sistemas políticos foram abalados até às raízes. Na Europa, por exemplo, sucedem-se sismos eleitorais inéditos, desde a vitória da extrema-direita na Áustria até ao Brexit inglês ou mesmo a recente derrota da chanceler alemã Angela Merkel no seu Land Mecklembourg-Poméranie.
Mas a perturbação não se limita à Europa, basta olhar para a esmagadora vitória eleitoral, em maio passado, do inclassificável e tonitruante Rodrigo Duterte nas Filipinas… Todos os grandes partidos tradicionais estão em crise. Assiste-se por toda a parte à ascensão de forças de rutura, quer com os partidos de extrema-direita (Áustria, países nórdicos, Alemanha, França), quer com os partidos populistas e antissistema (Itália, Espanha). Por toda a parte, a paisagem política está em vias de transformação radical.
Esta metamorfose atinge hoje os Estados Unidos, um país que já teve em 2010, uma vaga populista destrutiva, encarnada na época pelo Tea Party. A irrupção do multimilionário Donald Trump na corrida à Casa Branca prolonga esta vaga e constitui uma revolução eleitoral que ninguém foi capaz de prever. Ainda que, aparentemente, a velha bicefalia entre democratas e republicanos continua a ser uma realidade, a subida de um candidato tão atípico como Trump constitui um verdadeiro tremor de terra. O seu estilo direto, de discurso a dar para o populacheiro, e a sua mensagem maniqueísta e reducionista, em que apela aos mais baixos instintos de certas categorias sociais, está extremamente afastado do tom habitual dos políticos americanos. Aos olhos das camadas mais desiludidas da sociedade, o seu discurso autoritário-identitário possui um caráter de autenticidade quase inaugural. Muitos dos eleitores, com efeito, estão extremamente irritados “pelo politicamente correto”; consideram que já não se pode mais dizer o que se pensa sob pena de se ser acusado “de racista”. Consideram que Trump diz bem alto o que eles pensam em voz baixa. E ouvem “a palavra libertada” de Trump sobre os Hispânicos, sobre os Afro-Americanos, sobre os imigrantes e os muçulmanos como um verdadeiro alívio.
A esse respeito, o candidato republicano soube interpretar, melhor que ninguém, o que se poderia chamar “a rebelião da base”. Antes de toda a gente, percebeu a potente fratura que separa doravante, de um lado as elites políticas, económicas, intelectuais e mediáticas; e de outro lado, a base popular do eleitorado conservador americano. O seu discurso anti-Washington, anti-Wall Street, anti-imigrantes e anti-meios de comunicação social seduz nomeadamente os eleitores brancos de pouca formação mas também – e é muito importante –, todos os abandonados do sistema, devido à globalização económica.
A mensagem de Trump difere da dos líderes neofascistas europeus. Não é um ultra-direita convencional. Define-se a si próprio como “um conservador com bom senso ”. Sobre o tabuleiro de xadrez político tradicional, situar-se-ia antes à direita da direita. Chefe de empresa multimilionário e estrela popular de reality show, Trump não é nem um militante antissistema nem, evidentemente, um revolucionário. Não critica o modelo político em si mesmo mas antes os responsáveis que pilotam este modelo. O seu discurso é emocional e espontâneo. Faz apelo aos instintos, “às tripas”, não à reflexão nem à razão. Dirige-se à esta parte do eleitorado americano que foi envolvida pelo desânimo e pelo descontentamento, e às pessoas cansadas da velha política e do sistema “dos privilegiados”, “das castas”. Todos os que protestam e que gritam: “Que se vão todos f. ! ” ou “ são todos uns corruptos! ”, a estes promete injetar honestidade no sistema e renovar o pessoal e os costumes políticos.
Os grandes meios de comunicação social difundiram muito algumas das suas declarações e propostas. Sobretudo as mais ignóbeis e mais odiosas. Recordemos a esse respeito, por exemplo, as suas afirmações a propósito dos imigrantes mexicanos ilegais que, de acordo com ele, “ são corrompidos, delinquentes e violadores”. Ou o seu projeto de expulsar cerca de 11 milhões de imigrantes latinos ilegais que propõe reenviar à força em autocarros para o México. Ou a sua proposta, inspirada da série “Guerra dos Tronos ” (Game of Thrones), de construir um colossal muralha ao longo dos 3.145 quilómetros de fronteira com o México, que atravessaria vales, montanhas e desertos, para impedir a chegada de migrantes latinos e cujo financiamento (21 mil milhões de dólares) ficaria a carga do governo mexicano.
Na mesma ordem de ideias, anunciou querer proibir a entrada dos migrantes muçulmanos, e atacou com veemência os pais de um militar americano de confissão muçulmana, Humayun Khan, morto em combate em 2004 no Iraque. Tem igualmente afirmado que o casamento tradicional formado por um homem e uma mulher constitui “a base de uma sociedade livre” e criticou a decisão do Tribunal supremo de reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo como um direito constitucional. Apoia o que se chama “as leis de liberdade religiosa” promovidas pelos conservadores em vários Estados para recusar os subsídios às pessoas LGBT. Convém também não esquecer as suas declarações sobre “a mentira” da mudança climática que seria, de acordo com ele, um conceito “inventado por e para os Chineses para provocar a perda de competitividade do sector transformador americano.”
Um tal catálogo de detestáveis inépcias foi difundido pelos meios de comunicação social dominantes não somente nos Estados Unidos mas por toda a parte no mundo. Ao ponto que nos podemos questionar como é que um candidato com ideias tão miseráveis pode encontrar um tão grande sucesso nos eleitores americanos que, evidentemente, todos eles não são, seguramente, desmiolados? Há aqui qualquer coisa que não bate bem.
Para resolver este enigma, foi necessário quebrar abertamente o muro da informação e analisar com cuidado e rigor o programa completo do candidato republicano. Descobre-se então sete outras opções fundamentais que defende, e que os grandes meios de comunicação social passam sistematicamente sob silêncio.
1) Em primeiro lugar, os jornalistas não lhe perdoam os seus ataques frontais contra o poder mediático. Acusam-no de incentivar regularmente o seu público a apupar os meios de comunicação social apelidados de “desonestos”. Trump afirma frequentemente: “Não estou em competição com Hillary Clinton, mas sim com os meios de comunicação social corrompidos. ” Recentemente, escreveu: “Se os grandes meios de comunicação social, repugnantes e corrompidos, cobrissem de maneira honesta a minha campanha, sem falsas interpretações, ultrapassaria Hillary em 20 %. ” Não hesitou em proibir o acesso aos seus comícios a vários meios de comunicação social importantes como The Washington Post, Politico, Huffington Post e BuzzFeed. Ousou mesmo atacar Fox News, a grande cadeia da direita panfletária, que no entanto o apoia a fundo …
2) Uma outra causa dos ataques mediáticos contra Trump: a sua denúncia da globalização económica que ele considera como responsável pela destruição das classes médias. De acordo com Trump, a economia globalizada é uma calamidade cujo número de vítimas não cessa de crescer. Recorda que mais de 60.000 fábricas já tiveram de fechar nestes quinze últimos anos nos Estados Unidos e que cerca de cinco milhões de empregos industriais foram destruídos.
3) Trump é um fervoroso protecionista. Propõe aumentar as taxas sobre todos os produtos importados. E diz-se pronto, se chegar ao poder, a estabelecer direitos aduaneiros de 40% sobre os produtos chineses. “Vamos recuperar o controlo do nosso país e faremos de modo que os Estados Unidos tornem a ser um grande país” afirma frequentemente, retomando o seu slogan de campanha. Partidário do Brexit, declarou que, se fosse eleito, faria sair os Estados Unidos do Acordo de Comércio livre norte-americano (NAFTA). Atacou-se igualmente ao Tratado Transpacífico (TPP) e confirmou que, uma vez eleito, retiraria os Estados Unidos do acordo: “O TPP constituiria um golpe mortal para a indústria transformadora dos Estados Unidos. ” Evidentemente, se for eleito, pararia também as negociações correntes com a União europeia. Vai mesmo mais longe: “Vamos renegociar ou sair da OMC (Organização mundial do comércio). Estes acordos comerciais são um desastre. ” repete. Em regiões como o rust belt, “a cintura da industria transformadora ” do nordeste onde as deslocalizações e o encerramento de fábricas fizeram explodir o desemprego e generalizaram a pobreza, estes propósitos são recebidos com entusiasmo e fazem reaparecer todas as esperanças.
4) Outra opção de que os meios de comunicação social falam pouco: a sua recusa das reduções orçamentais neoliberais em matéria de segurança social. Numerosos eleitores republicanos vítimas da crise económica, e todos os que têm mais de 65 anos, têm necessidade do Social Security (reforma) e do Medicare (seguro de doença) lançado pelo presidente Barack Obama que os outros líderes republicanos querem suprimir. Trump prometeu não ir contra estes estes progressos sociais. Também prometeu diminuir os preços dos medicamentos, ajudar a regular os problemas dos sem domicílio fixo “SDF”, reformar a fiscalidade dos pequenos contribuintes, e suprimir um imposto federal que atinge 73 milhões de lares modestos.
5) Denunciando a arrogância de Wall Street, Trump propõe igualmente aumentar significativamente os impostos dos traders especializados nos hedge funds (fundos especulativos) que ganham fortunas. Promete o restabelecimento da lei Glass-Steagall (votada em 1933 durante a Depressão e revogada em 1999 por William Clinton), que separava a banca tradicional dos bancos de negócios para evitar que estes possam pôr em perigo a poupança popular com os investimentos de alto risco. Evidentemente, o conjunto do sector financeiro está todo ele artilhado contra Trump e opõe-se ao restabelecimento desta lei.
6) Em matéria de política internacional, Trump mostrou-se extremamente empenhado em encontrar terrenos de acordo ao mesmo tempo com a Rússia e com a China. Quer nomeadamente assinar uma aliança com Vladimir Putin e a Rússia para combater eficazmente a organização Estado islâmico (Daesh) ainda que para a estabelecer Washington deva aceitar a anexação da Crimeia por Moscovo.
7) Por fim, Trump considera que com a sua enorme dívida soberana, a América já não tem mais os meios para praticar uma política estrangeira intervencionista total. Já não tem vocação para garantir a paz a qualquer preço. Contrariamente à vários responsáveis do seu partido, e tirando as lições do fim da guerra fria, quer alterar a estrutura da NATO “Não terá mais – afirma ele – a garantia de forma automática de uma proteção dos Estados Unidos para com os países-membros da NATO ”
Estas sete propostas não fazem esquecer as declarações odiosas e inaceitáveis do candidato republicano difundidas em fanfarra pelos grandes meios de comunicação social dominantes, mas explicam sem dúvida um pouco melhor as razões do seu sucesso junto de largos sectores do eleitorado americano. Ajudá-lo-ão a ganhar? Não se pode afirmar mas é certo que os três duelos emitidos por televisão que se irão dar, face a Hillary Clinton, vão ser temíveis para a candidata democrata. Porque os estrategas militares sabem-no efetivamente: numa confrontação entre e o forte e o louco, este, pela sua imprevisibilidade e a sua irracionalidade, ganha-a muito frequentemente.
Em 1980, a vitória inesperada de Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos tinha feito entrar o mundo num ciclo de quarenta anos de neoliberalismo e de globalização económica. Uma eventual vitória de Donald Trump no próximo dia 8 de Novembro poderia, esta vez, fazer entrar o mundo num ciclo geopolítico novo cuja característica ideológica principal, que se vê surgir um pouco por toda a parte e nomeadamente na França, seria então o autoritarismo identitário.
Ignacio Ramonet, Les 7 propositions de Donald Trump que les grands médias nous cachent. Texto disponível em:
Artigo excelente que bem falta fazia na comunicação social portuguesa onde uma miserável e tradicional submissão ao banditismo ianque tem tentado fazer impôr-se e, infelizmente, parece estar a fazê-lo com sucesso .Bom grado tantos ensinamentos sobre a objectividade material que deve presidir à interpretação histórica, entre nós, a infeliz intelectualidade nacional só mostra a sua feição idealista.CLV
Artigo excelente que bem falta fazia na comunicação social portuguesa onde uma miserável e tradicional submissão ao banditismo ianque tem tentado fazer impôr-se e, infelizmente, parece estar a fazê-lo com sucesso .Bom grado tantos ensinamentos sobre a objectividade material que deve presidir à interpretação histórica, entre nós, a infeliz intelectualidade nacional só mostra a sua feição idealista.CLV