CARTA DE VENEZA – RIVUS ALTUS – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Qual é o viajante que nunca ficou dececionado ao chegar ao destino tanto almejado e ao deparar-se com um edifício, uma igreja, um monumento em obras? Algo bem comum ao visitar Veneza, até porque as características morfológicas e climáticas da cidade obrigam a manutenção constante e são sempre numerosos os pontos de interesse resguardados por tapumes. Quando muito, o tapume reproduz o resultado esperado da intervenção em ato; em muitos casos, porém, o que se vê é a publicidade enorme de alguma marca de luxo ou de uma operadora telefónica.

Nesta altura, há um monumento símbolo de Veneza que está a ser restaurado, ou seja, a Ponte de Rialto. Com mais de quatro séculos de vida, é percorrida diariamente por milhares de pessoas que a atravessam para deslocar-se de um lado a outro do Grande Canal, que se encostam às suas balaustradas para apreciar a vista panorâmica ou fazem compras nas lojas que ali se encontram. Daí a necessidade de a preservar com uma intervenção oportunamente estudada.

Este dado temporário cruza-se com outro, que poderá, em parte, compensar a desilusão de quem passar por Veneza nas próximas semanas: até 27 de novembro é possível visitar uma peculiar exposição fotográfica intitulada Rivus Altus no centro cultural Don Orione Artigianelli (entrada gratuita). Trata-se da instalação de 11.354 fotos, resultado de 264 horas de permanência no local inspirador (a Ponte de Rialto, precisamente), ao longo de dois anos.

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O número de fotografias tiradas a cada momento em Veneza deve ser assustador e, para quem mora na cidade, não entrar no campo visual de quem está a imortalizar uma visão fugaz é um desafio constante. Qualquer veneziano deve ter-se perguntado pelo menos uma vez na vida em quantas fotografias, involuntariamente, não estará a circular pelo mundo fora. E a Ponte de Rialto é, sem dúvida, umas das atrações que mais fotografias merece; por isso, é natural perguntar-se qual será o sentido de realizar e expor mais onze milhares de imagens sobre o mesmo tema, partilhando-as com o público.

O fotógrafo e arquiteto Massimiliano Farina, que lançou uma campanha de crowdfunding para poder concretizar o seu ambicioso projeto, na impossibilidade de “contar” uma cidade tão bonita sem ser críptico ou alusivo e, sobretudo, sem cair na banalidade do estereótipo, decidiu concentrar-se num ponto específico e não sair dali. Um dos resultados mais surpreendentes do seu intenso trabalho é, sem dúvida, a representação e interpretação da vista oferecida pela ponte, que consiste num painel com sete metros de comprimento, composto por 78 fragmentos fotográficos selecionados aleatoriamente. O painel na realidade permite uma experiência dinâmica e interativa, pois as 78 peças que o compõem são blocos de papel fotográfico – cada folha com uma foto diferente – e cada visitante é convidado a tirar e levar para casa uma folha de um bloco, contribuindo dessa forma para a transformação constante da imagem no seu conjunto.

Outra componente da mostra Rivus Altus diz respeito aos frequentadores da ponte, às 15.936 pessoas retratadas, incluindo figuras características da vida veneziana, porque os lugares também são feitos das pessoas que os habitam e os visitam. Cada pessoa retratada na secção dedicada aos “observadores” é apresentada segundo perspetivas diferentes, criando dípticos que mantém a ideia de movimento que marca esta mostra bizarra.

 

Para conhecer o projeto, visite o site oficial:

https://www.kickstarter.com/projects/130007592/rivus-altus-10000-fragments-from-rialto-bridge-in

Veja o vídeo: https://vimeo.com/172572166

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