Hoje quero me inspirar numa linda crônica de Márcio Tavares do Amaral, publicada em sua coluna de sábado, do Segundo Caderno do Globo, na qual o filósofo poeta conta onde passou o último feriado. Foi numa casa “num canto de serra”, em lugar pacífico e belo, com “um riacho que corre como um som caricioso de chuva.” Som de chuva, bem menos caricioso, temos tido demais no Rio de Janeiro nesta altura da primavera.
No refúgio de sua casa da serra, onde há “um mundo de raízes antigas e folhas novas, … riacho mansinho e fogo alegre”, o escritor se reabasteceu de paz e de beleza. E ao lê-lo, fui catapultada para um velho jardim e um pátio de antigamente, onde num grande balanço, que dava para duas pessoas ou três crianças, vi centenas de vezes o nascer da lua, acompanhada por sua estrela Vésper, vi a noite cair docemente como só no Sul acontece, e permaneci longos e pensativos instantes enquanto surgiam as pequeninas luzes dançantes das milhares de estrelas da Via Láctea. Então, procurava as “três marias” ou aguardava atenta o sempre tardio Cruzeiro do Sul. Não costumava ouvir o som mansinho de um riacho, mas o canto dos grilos a seu modo igualmente “caricioso”. Ferindo o silêncio, nas noites mais quentes, a algazarra das cigarras sempre sedentas de mais calor. E agora, ao pensar em tudo isso, ressoaram em mim versos que descobri tempos depois, e que me acompanham até hoje: … delle sere io solea passar gran parte / mirando il cielo, ed ascoltando il canto / della rana rimota alla campagna ! (que traduzo livremente: das noites, passava muito tempo / olhando o céu e escutando o canto / da rã longínqua na campanha!) – Campanha, palavra que para uma gaúcha soa familiar e “cariciosa”.
Os versos pertencem ao magnífico poema Le Ricordanze, de Giácomo Leopardi, que ouvi pela primeira vez num filme de Luchino Visconti – cujo título Vaghe stelle dell’Orsa, (Vagas estrelas da Ursa Maior) é o início do primeiro verso do longo poema.
Lá na serra, no silêncio da casa de descanso, em suas estantes, os místicos e os poetas olhavam para Márcio com cumplicidade. Aqui, as minhas estantes da cidade acolheram, nos últimos dias, mais alguns livros, entre os quais uma preciosidade há muito esperada e finalmente chegada da Itália: o livro Secretum / Il mio segreto, de Francesco Petrarca, herói de uma história quase anedótica da minha juventude. Pois era dele o verso que eu ouvira um professor de italiano dizer, e que procurei anos a fio pensando, equivocada, que fosse de Ovídio. Essa peripécia eu já narrei aqui.
Agora o livro chegou. E ele tem aquela grande dignidade dos livros europeus: é simples e sóbrio, nada, absolutamente nada chamativo. Sua capa bege possui apenas uma fina moldura negra, cercada por outro tom de bege mais escuro, quase laranja, que a completa. E as letras do nome do autor, modestas, estão em itálico, assim como o título em latim SECRETUM (pálido como um reflexo ou uma sombra), acima do italiano IL MIO SEGRETO, este em esguias maiúsculas mais graúdas, porém simples, clássicas, negras como a moldura fina. Em baixo, apenas o selo da editora em vermelho e branco e o nome MURSIA, em branco sobre preto. No centro, em letras alaranjadas muito miúdas: a cura di / Enrico Fenzi ( organizado por Enrico Fenzi); e pouco abaixo, na mesma cor quase invisível: edizione comentata bilingue. Tudo absolutamente discreto e elegante.
Meus poucos leitores, como meus amigos, já conhecem minha paixão pelos livros e podem imaginar a festa que significou a chegada deste livro do poeta, filósofo e filólogo Francesco Petrarca (1304-1374), que só comecei a conhecer, de fato, a partir daquele verso ou frase, que tanto me atormentava: Sentio inexpletum quoddam in praecordiis meis semper … (e que continuo a traduzir como “Sinto qualquer coisa de incompleto atrás [ou no fundo] do meu coração sempre”, e que interpreto como a expressão da própria condição humana, tal como nos revelaram os existencialistas do século XX).
Acredito que Il mio Segreto vá ocupar o lugar do livro de cabeceira por muitos meses. Livro novo é como um novo amor, especialmente quando foi longamente desejado e esperado.
Márcio Tavares do Amaral chamou seu artigo de Interlúdio Místico e tem-se mesmo a impressão de que ele viveu o feriado numa espécie de estado privilegiado da consciência poética: “Aqui sonhos são possíveis, desejados e bem-vindos. Não se fazem rogar. (…) Com sorte, se estiver suficientemente distraído, quem sabe possa sentir a brisa leve, miudinha, que nem agita as folhas. A brisa leve de Deus.”
No meu modesto bairro do Leme, quase sempre tranquilo, costumo levantar cedo para nadar na piscina do Clube que fica providencialmente ao lado de onde moro. O espaço da piscina não se pode chamar de bucólico, mas é emoldurado por muitas plantas, inclusive palmeiras. E é frequentado por incontáveis passarinhos. Hoje, por exemplo, havia um grupo grande de pardais em festa que se revezaram em voos rasantes sobre a água azul. Outras vezes há bem-te-vis que pulam e cantam por ali. Mas as mais fascinantes são as gaivotas, que flanam sereníssimas altas, altas no céu. Não há dúvida de que nesta altura, em pleno Rio de Janeiro tão cheio de conflitos e violências, esse é um privilégio de valor inestimável. Pausa para relaxar, para não pensar nos escândalos de corrupção com suas estrepitosas, mas necessárias prisões de políticos execráveis como Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, os dois ex- governadores recentemente punidos pela operação Lava Jato. Pausa para não pensar no estado falido e nos milhões de desempregados, na precariedade dos hospitais e dos serviços de transportes, na falta de saneamento etc, etc. Para não pensar no abandono de crianças e na violência contra as mulheres. E esquecer, nem que seja por alguns instantes, a tragédia ambiental de Mariana, em Minas Gerais.
E sonho com um mundo menos injusto e cruel, onde apesar de Donald Trump e das ameaças terroristas, possamos ter muito mais momentos de paz além da doce perspectiva de ler um clássico como o humanista Petrarca.