EDITORIAL: a geringonça ou «é preciso ter lata»  

«Deixai vir a mim as criancinhas» (Mateus.19-14)

logo editorialGeringonça é uma expressão popular. Também se pode dizer gerigonça, parece provir do castelhano  jerigonza e significa artefacto construído com peças de diferentes máquinas ou instrumentos e é coisa frágil que funciona mal e a qualquer momento se desconjunta. Uma série canadiana passada há anos na televisão pública, mostrava um herói perito em construir geringonças que resolviam situações e o «desenrascavam». Claro que uma geringonça é coisa arriscada, pois pode desfazer-se  antes de cumprido o objectivo que levou  à sua construção.

O governo edificado com gente do PS, do PCP e dos Verdes, mescla a que podia chamar-se «executivo de coabitação», com um presidente da República do partido feito com os restos do partido único salazarista, a que podia chamar-se a ala dos «fascistas envergonhados», mas a que se chamava «ala liberal», a geringonça e o afilhado de Marcelo Caetano, tem funcionado. O mesmo não se podia dizer do governo PSD-CDS, onde podia esperar-se uma harmonia maior, tanto mais que o PR, embora do mesmo partido do primeiro-ministro, com uma gente inacreditável – uns rapazes auto-licenciados e umas raparigas que não seriaam admitidas numa multinacional nem como telefonistas, se permitem vir criticar a geringonça. É indignante assistir às declarações de um Passos Coelho que só fez disparates e se permite vir acusar de ineficiência um governo, talvez feito de diversos corpos, como a famosa personagem de Mary Shelley, mas que vai funcionando.

Há argonautas que militam nos partidos de esquerda e no PS; há argonautas sem partido que defendem posições pessoais e «, sobretudo, condenam a presença num parlamento para lamentar de gente que se diz democrata. Em Portugal não há democracia – há  partidocracia. Nós somos uma geringonça assumida e não queremos ser um mecanismo perfeito. Apoiamos  o governo de António Costa e o presidente Marcelo?

Nem pensar – consideramos o regime em que vivemos um regime que opõe federações de interesses, deixando de fora o interesse dos cidadãos uma oligarquia. No entanto ouvir Passos Coelho a dizer que «é preciso ter lata» é como ouvir uma homilia em que um padre pedófilo diz «Deixai vir a mim as criancinhas».

1 Comment

  1. Embora nunca desse o meu voto ao PS, ao BE e ao PCP não posso deixar de estar-lhes grato por terem posto com dono – esperemos que em definitivo – a “banditagem” herdeira do salazarismo.CLV

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