No encerramento do chamado Jubileu da Misericórdia, o papa Francisco acaba de publicar o que chama de “Carta Apostólica”. Um documento de 7 066 palavras (na tradução portuguesa) e 42 102 caracteres, num total de 22 conjuntos ou pequenos capítulos. Apesar do tamanho do documento, dificilmente se poderia ser mais inócuo e mais fora deste nosso tempo e deste nosso mundo. Para começar, o papa abre a Carta com uma miserável citação de Santo Agostinho que, para ele e para o cristianismo é muito mais importante do que Jesus, o filho de Maria e o seu Evangelho ou Notícia Boa de Deus que nunca ninguém viu e nele se nos dá a conhecer (Jesus Segundo João 1,14). Assim como em todas as vítimas dos poderes, também do poder religioso-eclesiástico. A Carta não abre, como seria expectável, com referência a algumas das muitas clamorosas situações sociais, humanas e cósmicas da nossa actualidade. Nem sequer com a citação de algum reconhecido sociólogo-antropólogo orgânico e militante, comprometido com as grandes Causas da Humanidade do nosso Hoje-e-Aqui planetário e cósmico. O mundo do papa, bispos, clérigos e leigos paraclérigos das igrejas cristãs é outro, sem ter nada a ver com o dos seres humanos e dos povos das nações. É um mundo mais preocupado com o mítico céu do que com Terra e o Cosmos; com as “almas” dos que já morreram do que com os-que-ainda-vivem-na-história; com ritos litúrgicos, sempre os mesmos, do que com os quotidianos das populações, inclusive, das que ainda frequentam esses ritos. Por isso, um mundo que nunca havemos de integrar. E, se o integramos, de onde havemos de fugir quanto antes.
“MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera, em latim) – começa por escrever o papa – são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador: «Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia».”
Exactamente assim: “a mísera e a misericórdia”. Santo Agostinho chama “Mísera” à mulher da narrativa envangélica. E, para cúmulo, o papa Francisco ainda acha esta expressão agostiniana de “a mais bela e coerente”. Fala depois em “pecador”, como se já tivesse deixado de ser um ser humano de carne e osso, mulher ou homem, irrepetível e único, para passar a ser simplesmente “pecador”, uma espécie de coisa sem nome, sem individualidade. Pior escrever-falar é impossível. E tudo isto no final do ano jubilar da Misericórdia, durante o qual muito se falou de “portas santas”, não de portas das nossas casas, das casas das nossas famílias, das portas e das casas que muitos milhões não têm e estão condenados a ter de viver em barracos, por entre esgotos a céu aberto e doenças infecciosas por todos os lados.. Muito menos da Porta da Casa comum que é o Cosmos, do qual somos a Consciência, por isso, seres vivos eticamente responsáveis por nós, uns pelos outros e por ele.
Mas há mais nestas palavras de abertura do documento. Acontece que o relato evangélico a que se referem Santo Agostinho e a citação do papa não é do Evangelho de João, como aquele pensava e, pelos vistos, este também pensa. É verdade que vem materialmente inserido no Evangelho de João, mas não é dele. Alguém o introduziu lá muito mais tarde. Tão pouco, é um relato jornalístico, como um e outro dão a entender que é. É, sim, uma insuperável narrativa antropológica-teológica para nos dizer a todas, todos, quando nos deixamos seduzir pelo Dinheiro e caímos em “adultério”, entenda-se, em idolatria, sem dúvida, a mais assassina, pois mata-nos a alma-identidade, os afectos, a capacidade de acolher e de cuidar de nós, uns dos outros e do planeta Terra. Só por isso é que a mulher, nesta narrativa, não tem nome. É uma personagem representativa das mulheres e homens reais que, em cada geração, podem vir a rever-se nela. Igualmente, o “adultério” de que se fala na narrativa só o é no sentido teológico, não no sentido sexual, como deixa subentender o próprio papa. E com ele todos os bispos, párocos e todas as suas falsas catequeses faladas e escritas Tem tudo a ver com o culto de ídolos ou deuses religiosos ou laicos. Hoje, mais ainda do que nos séculos passados, o deus Dinheiro, sem dúvida o mais poderoso e o mais sedutor deste início do terceiro milénio e o que mais está aí a conduzir a humanidade para o abismo, já que é homicida, genocida, ecocida.
Os verdadeiros “Adúlteros”, hoje, são todos os que têm no Dinheiro ou Poder financeiro, o seu valor maior, pelo qual são até capazes de perder a própria vida e fazer perder a vida a milhares de milhões de seres humanos e povos, bem como a milhares de milhões de outros seres vivos que nos precederam no decurso da Evolução. Nesta categoria teológica de “adúlteros” que matam, está, antes de mais, a própria Cúria romana, da qual o papa que assina esta Carta apostólica é o chefe máximo, por mais que se mascare de misericórdia e de perdão. Até a sua misericórdia é crueldade. Como crueldade-em-acção é o cristianismo petrino-paulino-agostino-jesuítico que ele faz gala de seguir e de se dizer cristão, em vez de simplesmente humano. Sem nunca (querer) perceber que o cristianismo é o-não-Jesus Nazaré em acção que está aí a dar cabo do mundo, devido ao mal que faz às mentes-consciências de quantas, quantos vivem sob a sua alçada, antes de mais, ele próprio, os cardeais, os bispos residenciais e os párocos. Uns infelizes que só produzem-reproduzem infelizes. Uns frustrados que só produzem-reproduzem frustrados em série. Mas sempre com aquele ar de superioridade, à fariseu, quanto mais do topo da pirâmide eclesiástica pior.
A Carta é um foguetório de doutrina completamente desfasada no tempo. A própria linguagem mais parece do tempo de santo Agostinho e de toda a Idade Média. Os grandes media não entendem semelhante escrever-falar. Por isso, limitam-se a dizer que o papa publicou uma Carta apostólica, sem sequer saberem o que esta expressão significa. E quem diz os grandes media, diz os seus leitores e ouvintes. Porque, vai-se a ver e, de carta, o documento não tem nada. E de apostólica, terá, mas para vergonha de quem a assina e acolhe como boa doutrina-bom pão para as mentes-consciências, quando é o seu contrário. Assim as pessoas entendessem o que quer dizer “apostólica”, mas estão impedidas de entender. O adjectivo remete para aqueles que todas as igrejas cristãs e quantos têm sido catequizados por elas chamam de “12 apóstolos”, como se se tratassse de um grupo de gente de bem, quando é um grupo de gente de mal, ou eles não fossem o conjunto dos que, como um só, recusaram Jesus Nazaré e o seu Projecto político e, não contentes com isso, ainda o traíram e entregaram aos sumos-sacerdotes, na pessoa de um deles, Judas de seu nome, e, por fim, o negaram para sempre, na pessoa de Pedro (= pedra de tropeço), o autoritário chefe do grupo-partido. Nada disto nos é dito-ensinado. Nem sequer as universidades laicas se atrevem a ir por esta via, a da Verdade praticada. São todas universidades do Poder, por isso, farinha do mesmo saco. Ideológica e teologicamente modificada, destinada a causar graves lesões cerebrais nas pessoas que comerem o pão-doutrina confeccionado com ela.
Desta “Carta apostólica” saltam duas novidades que estão a ser muito badaladas por uns e muito contestadas por outros. Nem uns nem outros se dão conta do veneno que elas escondem no seu bojo. Primeira novidade: O papa alarga a todos os párocos que ainda confessam-e-absolvem pessoas individuais o “poder” de perdoar o que ele chama “o grave pecado do aborto”. A outra é a criação de “O Dia Mundial dos Pobres”, calendarizado para o fim do “ano litúrgico”, um institucional eclesiástico a gritar ao mundo que a igreja católica romana é uma sociedade paralela à sociedade. Não se mistura. Dá-se até ao luxo de ter um calendário próprio, como no tempo em que as populações viviam à tenebrosa sombra dos campanários e do toque dos sinos. Quando hoje somos e vivemos o tempo das novas tecnologias, num mundo em constante e vertiginosa mudança!!!
São duas iniciativas que parecem revelar misericórdia, mas que só servem para esconder a Crueldade papal e do cristianismo. É sabido que hoje quase ninguém, mesmo entre os que ainda frequentam a missa aos domingos, se confessa aos párocos. E que os párocos tão pouco estão para aí virados. O rito da confissão não passa disso mesmo. E tem condão de tornar mais pequenas as pessoas que ainda vão por ele. Pessoas que realizam abortos e que se confessem disso aos párocos, contam-se pelos dedos de uma mão. A própria Lei civil em vigor em muitos países, como Portugal, já aceita a não-penalização das mulheres que em consciência decidem abortar, dentro das primeiras dez semanas de gravidez. Alargar agora aos párocos o que era tarefa reservada aos bispos, só na aparência é que é de saudar. Na verdade, é uma pirueta papal que faz rir as próprias mulheres que em consciência decidam abortar.
Por sua vez, O Dia Mundial dos Pobres é outra pirueta do papa Francisco, de resto, muito pródigo neste tipo de coisas. Primeiro, fabricam-se os pobres em massa. Depois cria-se “O dia Mundial dos Pobres”. Como um incentivo mais ao poder financeiro e às grandes multinacionais para que fabriquem mais e mais pobres. Só assim, O Dia Mundial dos Pobres continuará a fazer sentido. Que seria desta iniciativa, se se deixasse de fabricar pobres em massa? Vejam como, sob a aparência de um bem, se cria um mal institucional. Ainda se o papa falasse da erradicação da pobreza, mas não. O papa sabe que só falar em erradicar a pobreza e, consequentemente, acabar com a existência de pobres no planeta, já seria politicamente incorrecto, aos ouvidos da própria Cúria romana que é o exemplo máximo da ostentação e do luxo, onde os pobres nem das migalhas que caem das mesas dos cardeais podem beneficiar.
Ai papa Francisco, papa Francisco, para o que te havia de dar!? O mais trágico é que tu sabes bem o que fazes. E sabes bem que o que fazes é mal, é um pecado que brada aos céus. Porque falar dos Pobres e continuar a criar e a abençoar os sistemas que os produzem em série é o pecado dos pecados do mundo. Um dos tais que não têm perdão! Choremos, pois, o papa Francisco e a sua Cúria romana. Como Jesus, em Abril do ano 30, chora, ao ver a cidade de Jerusalém e o seu grandioso templo-covil de ladrões.
Dia Mundial dos Pobres??? Esta nem ao capeta lembrava! Essa gente não tem qualquer interesse em acabar com a pobreza. Se tivessem vergonha na cara acabavam com a pobreza – que fomentam para poderem mostrar a seguir que são caridosos! Quanto ao ano santo da misericórdia, ouvi dizer que o senhor papa fechou a porta. Isso quer dizer que os católicos já não precisam de ser misericordiosos, é? Não sei se ria, se chore…de pena que esta gente me dá. Metem dó!
Dia Mundial dos Pobres??? Esta nem ao capeta lembrava! Essa gente não tem qualquer interesse em acabar com a pobreza. Se tivessem vergonha na cara acabavam com a pobreza – que fomentam para poderem mostrar a seguir que são caridosos! Quanto ao ano santo da misericórdia, ouvi dizer que o senhor papa fechou a porta. Isso quer dizer que os católicos já não precisam de ser misericordiosos, é? Não sei se ria, se chore…de pena que esta gente me dá. Metem dó!