SINAIS DE FOGO – A CARTA DE CHE NA DESPEDIDA DE FIDEL – por Soares Novais

 sinais de fogo

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Em 2007, ano em que se assinalaram os 40 anos do assassinato de Guevara, editei a “Carta de Despedida de Che a Fidel.” Che foi morto a 9 de Outubro de 1967, no povoado de La Higuera, pelas balas assassinas dos “boinas verdes” – exército boliviano armado pelos Estados Unidos.

Trouxe a carta de Cuba em 1999 e ela passou a fazer parte do meu acervo. Não tinha nenhuma intenção em torná-la pública. Contudo, a participação num debate sobre a Revolução Cubana fez-me mudar de ideias.

A “Carta de Despedida de Che a Fidel”, que foi traduzida pelo escritor José Viale Moutinho e que hoje aqui reedito, constitui a minha homenagem a duas das personalidades mais marcantes do século XX. Um e outros são dos poucos homens que conheceram a glória de entrarem vivos na história e de se tornarem uma lenda. Eles são rebeldes míticos. Tal qual Nelson Mandela, Patrice Lumumba, Ho Chi Minh, Amílcar Cabral, Camilo Torres ou Carlos Marighela.

 

                                                                            “Havana

                                                              Ano da Agricultura

 

Fidel:

      Lembro-me neste instante de muitas coisas, de quando te conheci em casa de Maria Antónia, de quando decidi vir, de toda a tensão dos preparativos.  Um dia perguntaram-me a quem se devia avisar em caso de morte e a possibilidade real do facto sacudiu-nos a todos. Depois soubemos que era assim mesmo, que numa revolução triunfa-se ou morre-se (se é verdadeira). Muitos camaradas ficaram ao longo do caminho para a vitória.

       Hoje tudo tem um tom menos dramático, porque somos mais maduros, porque o facto se repete. Sinto que cumpri a parte do meu dever que me atava à Revolução Cubana no seu território e despeço-me de ti, dos camaradas, do teu povo, que já é meu.

        Faço formal renúncia dos meus cargos na Direcção do Partido, do meu posto de Ministro, do meu grau de Comandante, da minha condição de cubano. Nada legal me prende a Cuba, apenas laços de outra espécie que não se podem cortar com as nomeações.

       Fazendo um resumo da minha vida passada creio ter trabalhado com suficiente honradez e dedicação para consolidar o triunfo revolucionário. A minha única falta de alguma gravidade é não haver confiado mais em ti desde os primeiros momentos da Sierra Maestra e não ter compreendido com suficiente celeridade as tuas qualidades de guia e de revolucionário.

       Vivi dias magníficos e senti a teu lado o orgulho de pertencer ao nosso povo nos dias luminosos e tristes da Crise do Caribe.

       Poucas vezes brilhou mais alto um estadista que nesses dias, orgulho-me também de ter-te seguido sem vacilações, identificando com a tua maneira de pensar e de ver e apreciar os perigos e os princípios.

     Outras terras do mundo reclamam o concurso dos meus modestos esforços. Eu posso fazer o que te está negado pela tua responsabilidade à frente de Cuba e chegou a hora de nos separarmos.

       Saiba-se que o faço com uma mistura de alegria e de dor: aqui deixo o mais puro das minhas esperanças de construtor e o mais querido entre os meus seres queridos… e deixo um povo que me admitiu como um filho; isso lacera uma parte do meu espírito. Nos novos campos de batalha levarei a fé que me inculcaste, o espírito revolucionário onde quer que me encontre; isto conforta e cura com vantagem qualquer separação.

       Digo uma vez mais que liberto Cuba de qualquer responsabilidade, salvo a que emana do seu exemplo. Que se me chega a hora definitiva sob outros céus, o meu último pensamento será para esse povo e especialmente para ti. Agradeço-te os teus ensinamentos e o teu exemplo e que procurarei  ser fiel até às últimas consequências dos meus actos. Que estive sempre identificado com a política exterior da nossa Revolução, e continuo a estar. Que onde quer que me encontre sentirei a responsabilidade de ser revolucionário cubano, e como tal actuarei. Que não deixou aos meus filhos e à minha mulher nada material, e não lamento; alegra-me que assim seja. Que não peço nada para eles, pois o Estado  lhes dará o suficiente para viverem e educarem-se.

       Teria muitas coisas que dizer-te a ti e ao nosso povo, mas acho que são desnecessárias; as palavras não podem expressar o que queria, e não vale a pena sujar folhas de papel.

  ATÉ À VITÓRIA SEMPRE. PÁTRIA OU MORTE!

  Abraça-te com fervor revolucionário.

  Che “

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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