EDITORIAL – Hoje seria um burlão?

logo editorial6 de Dezembro de 1925: Alves dos Reis era preso. O Século de dia 5 trazia a descrição da burla – um esquema eficaz com cúmplices qualificados – o financeiro holandês Karel Marang, um espião alemão, o irmão do embaixador português na Haia… 200 mil notas de 500 escudos (uma fortuna imensa na época) circulavam pelo País. Não se tratava de notas falsas – falsificando assinaturas da administração do banco emissor de moeda, tornou válido um contrato fictício – a encomenda em nome do Banco de Portugal à empresa britânica Waterlow & Sons Limited de 200 mil notas de 500 escudos, usando uma chapa com a efígie de Vasco da Gama. Em Fevereiro de 1925 foi recebida a primeira entrega. E as notas Vasco da Gama começaram a circular – uma emissão falsa de notas verdadeiras. Diz-se que a economia nacional animou…

 

 Artur Virgílio Alves Reis, nasceu em Lisboa em 3 de Setembro de 1898. Morreu na mesma cidadã em 9 de Julho de 1955. Devido aos escassos recursos da família, iniciou o curso de engenharia, mas abandonou-o ainda no primeiro ano. 

Com 18 anos, foi para Angola, levava um diploma de Oxford, atribuído pela Polytechnic School of Engeneering – a qual não existia. O diploma fora primorosamente falsificado por Artur – hoje seria fácil com o software e o hardware disponíveis. Há quase cem anos exigia grande perícia e engenho.

A carta de curso habilitava-o em competências que cobriam quase todas as áreas da Engenharia e não só – Oxford é Oxford! Arranjou colocação no município – rede pública de esgotos – e tornou-se frequentador da boa sociedade luandense. Com um cheque sem cobertura iniciou uma operação de grande monta – comprou a maioria das acções da Companhia de Caminhos de Ferro Transgridamos de Angola. Nem tudo era falsificação – Artur deparou com um parque de locomotivas avariadas e de carruagens inactivas e pôs tudo a funcionar. Ganhou um grande prestígio. Enriqueceu. Em 1922 regressou a Lisboa, rico. Adquire uma empresa representante de uma marca americana de automóveis. Segue-se a operação Ambaca -? – passa cheques sem cobertura e adquirida a empresa usa o activo de tesouraria para cobrir o buraco na sua conta pessoal. 100 mil dólares ganhos através de um estratagema. Com o que ganhou na Ambaca, compra a Companhia Mineira do Sul de Angola. Mas acaba por ser preso.

Em  Agosto de 1924 saiu da Cadeia com uma ideia de uma grande ousadia. Os 54 dias de cárcere tinham-se revelado proveitosos – o plano assentava numa ideia muito simples – o problema dos falsificadores de notas, mesmo o dos mais sofisticados, era conseguir um produto final sem falhas – rigor das chapas de impressão, qualidade do papel e das tintas, numeração sequencial… Mais tarde ou mais cedo as notas falsas eram descobertas por haver falha num ou mais destes items – Porém, as notas falsas eram… verdadeiras. Um jornalista persistente estragou um negócio que parece estava a ser benéfico.

 Um burlão ou um génio? Talvez ambas as coisas – mas não prejudicou gente pobre e crédula como certos empreendedores dos nossos dias…

1 Comment

  1. Se o Banco de Angola e Metrópole não tem sido apanhado pela Justiça nunca o Salazar tinha chegado ao poder. Fez o que faz falta ao Estado fazer nos dias de hoje. Emitir moeda portuguesa e deixar a escravidão do euro. CLV

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