Carta do Rio – 129 por Rachel Gutiérrez

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                                                                                          E se nunca pudermos sair de 2016?

                                                         Esta pergunta me impressionou, embora

                                                        fosse apenas uma piada.

                                                                 FERNANDO GABEIRA

 No Brasil, como sabe o mundo inteiro, vivemos tempos absurdos, ou do absurdo. Nada melhor, portanto, como leitura, do que os romances de um mineiro, ora redescoberto e altamente reavaliado pela crítica e pela mídia. Trata-se de Campos de Carvalho, que nasceu em Uberaba, em 1916, e morreu em São Paulo, em 1998. Exímio escritor, difícil de qualificar e durante muito tempo considerado um simples humorista um tanto marginal, Campos de Carvalho é, na verdade, um digno representante da literatura do absurdo. É o Eugène Ionesco da nossa ficção.

Resolvi lê-lo não apenas pela curiosidade despertada, mas especialmente para homenagear um grande amigo que tive, pessoa boníssima, que muito o admirava e recomendava.

Meu amigo, um paraibano com quase 2 metros de altura, chamava-se Allan Caçador Vianna e morou muito tempo na Rua Senador Vergueiro, no bairro do Flamengo. Allan, penso agora, era também uma figura um tanto absurda, ou, no mínimo, extravagante, pois aliava a uma refinada  sensibilidade, uma vida modestíssima. Como pouco havia estudado e não tinha profissão, limitou-se a trabalhar na loja de tecidos de um parente, como simples vendedor. À parte isso, como diria Fernando Pessoa, carregava consigo “todos os sonhos do mundo”.  Como a maioria dos homens muito altos, meu amigo possuía uma poderosa voz de Baixo, que cultivava estudando canto, e além disso pintava e tocava cravo, tendo construído seu próprio instrumento, cuja parte interna da tampa, foi decorada com uma paisagem que ele mesmo  pintou no estilo de Watteau.

Muitas vezes pude escutá-lo tocando Bach, Scarlatti e os mestres franceses Couperin e Rameau. E era comovente a delicadeza daquele homem enorme  inclinado sobre seu belo e  pequeno cravo.

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Grande amante também da pintura dos renascentistas holandeses, Allan contou-me que na única visita que fez ao Museu de Arte de São Paulo, ao deparar-se com As tentações de Santo Antão, de Hyeronimus Bosch, permaneceu diante do quadro em êxtase estético por longos minutos. Depois, cuidadosamente, olhou para um lado e para o outro e, vendo que não havia ninguém por perto, inclinou-se, esticou o pescoço e lambeu o quadro! Não sei qual foi a extensão da lambida, mas até hoje me espanta que o meu amigo tenha encontrado nela a melhor forma de externar sua emoção. E penso que Campos de Carvalho teria acrescentado às extravagâncias de seus personagens, o gesto inusitado de Allan Vianna, se tivesse tido notícia de uma tal façanha.

Por enquanto, tenho apenas diante de mim A Lua vem da Ásia e O Púcaro Búlgaro, já curiosa por títulos como Vaca de Nariz Sutil e A Chuva Imóvel. A primeira parte do primeiro que comprei – A Lua vem da Ásia – intitula-se Vida sexual dos perus, porém, ao que tudo indica, nada disso será tratado nessa parte. Depois do Capítulo Primeiro, vem o Capítulo 18º e, logo a seguir, o Capítulo Doze. Depois, vem o (Sem Capítulo), literalmente assim. Há um “Capítulo sem sexo”. Desse modo, desde os meros títulos dos capítulos, Campos de Carvalho provoca e instiga o leitor.

Vale a pena mostrar o primeiro parágrafo do chamado Capítulo Primeiro:

Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – , logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

Guimarães Rosa fez do Sertão um universo ao nos revelar o Brasil e a nós mesmos, e criou neologismos incontornáveis; Clarice Lispector escreveu a vida e pontilhou-a de epifanias, revelações e in-sights incontestáveis; antes, Machado de Assis havia pintado o nosso século XIX com todas as suas ambiguidades e hipocrisias, no claro-escuro de uma escrita cheia de mistérios e malícias.

Campos de Carvalho, por sua vez, apresenta-nos a liberdade da loucura. E, significativamente, o narrador de A Lua vem da Ásia, por exemplo, descreve um requintado hotel onde se relaciona com figuras de diplomatas, de generais, de aristocratas que, vamos percebendo ao longo da leitura, nada mais são do que seus companheiros do Hospício. Sua narrativa é tão envolvente que após as primeiras páginas, não conseguimos parar de ler. Sabemos que é tudo loucura, mas a vida, afinal, não é também absurda e totalmente sem sentido?

O Púcaro Búlgaro tem como epígrafe palavras de um professor de cinema, Henri Agel: Puisque l’impossible acced à la catégorie du vrai, le vrai à son tour peut accéder à la catégorie de l’impossible. ( Traduzo livremente: Já que o impossível tem acesso à categoria do verdadeiro, o verdadeiro, por sua vez, pode aceder à categoria do impossível).

O livro começa com uma Explicação Necessária; seguem-se Os Prolegômenos; vem depois uma Explicação Desnecessária. Aparece ainda outra página de rosto com o título: Livro de Horas e Desoras /ou / Diário da Famosa Expedição Tohu-Bohu ao Fabuloso Reino da

 BULGÁRIA

( MCMLXI -…)

O narrador é um morador do bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. E, daí em diante, o livro toma a forma de um diário, cuja primeira entrada é de:

Outubro, 31

(…)

Aqui em cima, no alto da Gávea, as estrelas cintilam mais perto: houvesse Lua e eu talvez nela pudesse banhar as mãos de luz, no seu bacio de cristal – não como Pilatos, mas como um cirurgião que se apresta para um parto difícil, o mais difícil da história, arrancando das entranhas do Desconhecido todo um mito e a sua verdade, séculos e séculos de mal-assombrados equívocos.

E assim vai, numa língua cristalina e aliciante, desenrolando uma narrativa labiríntica, cheia de paradoxos e absurdos, que às vezes nos levam a frouxos de riso incontroláveis, esse outro fenômeno das Minas Gerais, terra de Drummond, de Guimarães Rosa e de Marco Aurélio Matos, nada famoso, mas de cujo humor sui-generis falei aqui, ao lembrar sua amizade com o poeta Paulo Mendes Campos, mineiro igualmente excepcional.

Minas Gerais é, pois, para os outros brasileiros, uma fonte inesgotável de sonhos e de riquezas. E foi pelo inesquecível amigo paraibano, Allan Caçador Vianna, que eu, do extremo Sul, ouvi falar pela primeira vez no originalíssimo Campos de Carvalho, que finalmente vim a descobrir.

 

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