EDITORIAL: O BICHO E A PEÇONHA

logo editorialA I República foi antecedida de um magnicídio. O rei D. Carlos e o príncipe herdeiro foram vítimas de um atentado em 1 de Fevereiro de 1908. Em 14 de Dezembro de 1918, o Presidente Sidónio Pais era assassinado. Aliás, os atentados contra pessoas foram, a partir do fim do século  XIX e primeiras décadas do século XX, a maneira mais usual de procurar solucionar problemas políticos. O atentado de Serajevo insere-se nessa lógica perversa que o nosso povo condensa no aforismo mata-se o bicho, acaba-se com a peçonha. A chamada «sabedoria popular» revela-se, neste caso, profundamente errada. As ideias não morrem com as pessoas. Nem foi a morte de D. Carlos que deu lugar à queda da monarquia, nem o atentado que vitimou Sidónio travou a marcha da política portuguesa para a implantação de um regime de direita, autoritário e afirmando-se intérprete do sentimento popular, não necessitando, portanto, de auscultar a vontade dos cidadãos.

Com a queda da monarquia, a cultura política, baseada na chicana, no tráfico de influências, na demagogia, nada de importante mudou. Todos os aleijões estruturais se mantiveram – a economia baseada na produção agrícola, na exploração intensiva da mão de obra dos indígenas e matérias primas coloniais. Um índice elevado de analfabetismo e de iliteracia, criavam a ausência de uma opinião pública esclarecida e actuante.

O republicanismo,   os valores da democracia, de maneira confusa, eram dominantes – o regresso formal da monarquia estava vedado. Esta ignorância generalizada formava com a desonestidade quase total dos políticos uma mistura explosiva. Sidónio a quem Pessoa chamou «Presidente- Rei», era um regresso demasiado óbvio ao passado.

O 28 de Maio de 1926 surgiu como um travão ao clima de dislate que se agravava (não esqueçamos  a «Noite Sangrenta» de 19 de Outubro de 1921 na qual foram assassinados o chefe do Governo, António Granjo, bem como destacadas figuras da República, tais como José Carlos da Maia e Machado Santos.

Até gente esclarecida, como o chamado «grupo da Biblioteca Nacional», viu a intervenção militar como uma inevitabilidade, como um mal necessário. Hoje, com uma taxa residual de analfabetismo, com uma classe trabalhadora mais bem preparada culturalmente do que a classe empresarial, a corrupção, a desonestidade, continuam.

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