CONTOS & CRÓNICAS – DEAMBULAÇÕES EM TORNO DE UMA GRANDE PEÇA DE TEATRO E DE UMA MAGISTRAL REPRESENTAÇÃO, SOBRE A PEÇA “O PAI” EM CENA NO TEATRO ABERTO A PARTIR DE HOJE, por JÚLIO MARQUES MOTA.

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júlio marques mota

Um velho de Coimbra em Lisboa, com uma adolescente de 14 anos a querer relaxar de uma semana e meia de testes escolares intensivos. Um velho que vai a Lisboa para visitar duas amigas apanhadas na curva da vida por envelhecimento precoce e relativamente acelerado e, sobretudo, inesperado para quem durante toda a vida andou num contínuo dispor para os outros, amigos ou não, uma como professora, outra como médica. E com esta última a ter calcorreado todos os patamares da precariedade absoluta no apoio médico gratuito a quem nos bairros onde o sol da vida entrava com dificuldade do seu apoio muito precisava. Uma mulher outrora estudante filiada na JUC e depois, com a idade adulta, um mulher politicamente empenhada na emancipação deste país. Mulheres já passadas dos oitenta anos, a viverem agora em casa sob a atenção cuidada de cuidadoras que diariamente se revezavam. Tudo limpo, tudo certo, tudo asséptico, entrecortado pelas visitas de familiares e amigos. Almoçámos, falámos e revivemos muitos dos nossos tempos difíceis dos anos 60 e 70, sob os quais tentámos dar a cor de terem acontecido ontem. E rimos do que disso já não nos lembrávamos, uma vez que as nossas memórias estavam entre si dessincronizadas. Cada uma delas lembrava-se de coisas que as outras duas já se tinham esquecido. Um jogo agradável capaz de ser   prolongado por uma tarde inteira, mas cortado pela ansiedade da adolescente que queria mergulhar na cidade, no Chiado. Era para isso que veio a Lisboa.

Pergunto a uma amiga minha do Teatro Aberto,  Vera Sampayo, se haveria alguma peça que pudesse ir ver com a minha adolescente de 14 anos.  A Vera falou-me num ensaio que iriam fazer nesse sábado à noite. Disse-me ainda que a peça não era meiga, estava salpicada de um humor corrosivo, mas pelo que eu lhe dizia da minha neta, que viesse, que esperava por nós. Aceitei o convite, um pouco a medo, confesso. Do autor da peça nunca tinha ouvido falar. Tratava-se da peça O Pai  de Florian Zeller, hoje a ser representada em Paris, Londres e Nova Iorque por grandes expoentes do teatro dos  respetivos países.

o-paiFecharmo-nos numa sala podia aqui ser para mim de algum risco, face à minha companhia ainda meio selvagem, para as condescendências que poderia ter de fazer, o que vulgarmente chamamos de politicamente correto, caso não gostasse da peça. Daí os meus receios ao ter aceite o convite.

Entramos na sala, o palco abriu-se, a peça começou. E começou com umas imagens que nos davam a perceber que a peça não iria ser nada meiga, Num tempo agreste, uma criança brincava, enrolava-se, agarrava-se a montes de folhas caídas que o vento movimentava no chão e no ar. A vida, a criança, e a morte, as folhas caídas  e ao sabor dos ventos  que as fazia andar à volta, uma unidade nas imagens que iria ser uma constante na peça. Depois um homem, uma sala, um homem de idade, naquela idade situada entre ou o final da segunda ou no início da terceira idade. Uma sala de muitos sofás, sinal de que por ali teria havido muita gente. Pai, mãe, duas filhas, e mais alguém de passagem. Uma sala por onde claramente se sentia ter passado a vida. Uma discussão entre a filha, Ana, e o pai, André, engenheiro de profissão. Talvez engenheiro mecânico. Sabe-se que o pai está doente, que tem alguém a cuidar dele, uma cuidadora diariamente. O pai que se esquece de tudo, que se esquece de um relógio, que diz à filha que não quer mais a curadora, que diz que esta lhe roubou o SEU relógio, a filha que diz ao pai que a cuidadora não quer vir mais, que foi ameaçada fisicamente com uma varão de um cortinado. Acusação que o pai rejeita. Verdade, mentira, sou levado a considerar que é uma mentira da cuidadora. Nele, naquele pai não parece haver nem sinais de temperamento agressivo nem sequer de restos de forças para a violência. Haverá para outras coisas, não para a violência. Na discussão, fala-se do relógio que o pai não encontra, que acusada de lhe ter sido roubado pela curadora. O relógio estava no sítio onde habitualmente ele o esconde. O relógio, peça central nesta peça, o relógio marcador do tempo, o tempo que tragicamente fugia à personagem central da peça, o Pai, André. Somos convidados a ver o mundo com os olhos de André, através já de uma consciência confusa, onde a noção de tempo exposto pela sucessão de cenas parece ser o de um filme em que se anda de trás para a frente, da frente para trás, sem sabermos qual o sentido exato da movimentação. Sabê-lo-emos nos últimos 5 minutos da peça. A filha, Ana, revela um cuidado extremo pelo pai, mas um cuidado contido, e eu diria mesmo, a contenção de uma educação de classe assumida. Tudo nela é medido, pensado, contido, sem deixar de ser sentido, servido por um relógio mentalmente bem oleado, o da educação de classe, onde se expressa sobretudo o que se deve expressar e não o que nos pode apetecer gritar. Uma mulher que vive algures em França que quer ir ou que vai para Londres trabalhar, seguindo o seu companheiro o homem com quem vive. Nunca sabemos o que faz, podemos inferir e quanto ao pai, o André, sabemos que foi engenheiro e que está doente, com sinais claros de quadro elevado de confusão mental. Será mesmo assim? Um esforço de não localização no espaço e no tempo será o que se pretende nesta peça, um drama que se desenrola nas sociedades desenvolvidas qualquer que sejam desde que desenvolvidas? Poderei eu admitir que se trata da vida de um pai engenheiro e especializado em mecânica de alta precisão, o que nos poderia ser indicado pela paixão dos relógios, que entra em regime de burn-out, engenheiro de profissão, como tantos outros que se suicidaram na Renault ou algures como na France Telecom? Não sabemos. E a filha presente, Ana, vai ou não vai para Londres? Para Londres, cidade onde está sempre a chover, diz André. Por contraponto podemos pensar que André e a filha vivem (terão vivido) em zona de muito sol em França. Côte d’Azur? Vai para a City trabalhar? Nada nos é dito. Nada nos impede de o poder pensar. Fará Ana então parte de uma larga camada de gente batida e destruída pelos ventos da globalização a deambular por essa Europa fora, de uma Europa que é ela já um enorme buraco como é grande o buraco negro na consciência do tempo do Pai, André? De novo, nada sabemos, podemos apenas presumir.

Como assinala GILLES COSTAZ do Le Point, o autor da peça, situa-se na linha de continuidade dos autores que gostam de deixar uma forte percentagem de incerteza nas suas peças tais como outrora Harold Pinter ou agora o norueguês Jon Fosse. Cabe ao público preencher as ausências, [o não dito] que existem na história proposta.

Naquela sala assetizada, toda ela cheia de linhas direitas, onde tudo é linear, exceto a consciência de André, janta-se frango, sempre frango. Curiosamente sempre frango, uma incongruência face ao estatuto de classe, a menos que o comer frango se reporte a um lugar e não à sala. A cuidadora  sai, vai embora. É despedida ou despede-se? Nunca é vista mas não sendo crível que foi ameaçada com um varão, será ela também mais uma desadaptada neste universo de empregos precários? Veio-me à cabeça este problema ao  ver esta cena porque me  lembro  das minhas duas amigas e das suas cuidadoras, diferentes, no dia de sábado e de domingo, onde voltei a almoçar e a sair a seguir. Necessariamente todas estas cuidadoras em situação precária, o que é típico dos tempos que correm  onde não há,  para quem trabalha ou trabalhou, garantias de nada.

Depois na cena seguinte um dado mais   e muito importante  na história que nos está a ser contada. Existe, existiu, uma segunda filha, a filha de que ele mais gostou. Elisa. Uma cena de espanto, entre ele e esta nova cuidadora, uma cena  de sedução, de uma sedução levada a um nível de nos estarrecer quando ele nos diz alto e bom som que ela parece a sua mais querida e mais amada filha. Sedução, sedutor, é a classificação que é dada pela cuidadora à filha, Ana. Uma sedução expressa pela dança e sobretudo por uma cena em que ela quase que a quer beijar, com a cuidadora sentada no sofá também consciente do jogo que estava a ser jogado. Da parte dela seria jogo e da parte dele? Uma confusão, o desejo de a abraçar como fazia com Elisa, ou o desejo de algo mais, de uma sexualidade que brotava ali naquele instante em que os rostos quase se tocam. Uma cena equivalente com a magia das cartas em que o velho André parecia um jovem sedutor, dominador pelo encanto, com um sorriso de felicidade nos lábios. Felicidade por ele, pela cuidadora presente ou pelo sentimento de que estava ali também a filha Elisa, a filha que nunca se vê?  Mas com eles eram só tangentes, porque tangentes apenas era o que ele podia fazer, passar ao lado da vida de agora porque desta ele já estava socialmente excluído. Mas tangentes que de novo marcavam ali a situação de classe, a educação de classe, a contenção dos sentimentos, o politicamente correto. E reaparece-se então na complicação quando um dia a cuidadora chega, a reprodução da sua filha Elisa, e ele está de pijama às riscas, sóbrio, mas às riscas, e não quer, não quer ser visto de pijama pela sua cuidadora. Tem vergonha de se apresentar assim!

E Elisa, o que foi feito dela? Terá tido um acidente, andava também ela por essa Europa fora?

E o jantar repete-se, frango, como sempre. Pelo meio passam os companheiros supostos de Ana, em representações que nos dão ideia da confusão mental do relator, o pai André.  Uma vez um companheiro, outra vez outro, outra vez o primeiro deles como sendo um terceiro, como se André tenha perdido o sentido do tempo, um tempo mental para o qual o SEU relógio nada servia, porque era simplesmente um relógio, uma peça mecânica.  Pedro ou um outro com quem a história de Ana ir para Londres se repete, é o que ele nos conta. O que se repete aqui, penso é um universo em que se perdem raízes,  com uma Ana que parece também ter  perdido as suas. André não as tem já e possivelmente Ana também já não. A irmã Elisa desapareceu, a mãe,  mulher de André,  há muito tempo que morreu.

Os companheiros “pensados” por André discutem as alternativas a tomar para tratar do pai, discutem com a filha Ana, que agora parece dividida entre uma mulher de vida inteira que não tem, e uma cuidadora bem especial que é, ao tratar daquela maneira do doente, o seu  pai. E as alternativas eram ficar André na sua própria casa, ir para casa do casal ou para uma casa especializada em tratar doentes com o seu quadro clínico. E o pai pensa, relata-nos, que a casa vale dinheiro, em  que curiosamente não parece atribuir grande valor ao dinheiro. Não sabemos se é porque teve uma vida de bem instalado na vida ou porque  sente que está no fim da vida e da compreensão sobre ela, onde o dinheiro já não conta.  Somos forçados a imaginar e é a este esforça que nos convida o dramaturgo quando nos afirma:

“Esta peça é um puzzle ao qual falta sempre uma peça, sem que se saiba exatamente qual é peça.”  

Em todas estas discussões “imaginadas” e relatadas por André, imaginamos nós então o corpo de Ana a ser percorrido por uma tensão enorme, uma tensão tão grande que o transforma num corpo assexuado quase e com aquela voz contida e sempre igual, como se esta assumisse  apenas ser uma  cuidadora bem especial.  De novo as classes sociais. Ela e o companheiro, qualquer que ele seja, bebem sempre vinho mesmo sem comerem, com um relaxamento que se obtém não num  abraço ou num beijo sensual entre homem e mulher, mas com uma garrafa de bom vinho. O vinho é bom, muito bom, afirma-se. Mostra-se a marca da garrafa e com um sorriso de satisfação. Estamos no país dos grandes crus.

Entretanto a peça foi aumentando de intensidade. Aquele Pai enchia a sala, dava alma a todas as suas palavras, prendia-nos com as suas tensões, à medida que a peça se ia despindo de sofás, de tudo, do micro-ondas até.  Sinto-me sem nada, como se esteja a ficar nu, sinto-me como uma árvore a ficar sem folhas, diz-nos dramaticamente André, não percebendo nada do que o rodeia. E a sala vai-se transformando, a sala reproduzida pela visão de André, vai-se parecendo cada vez mais com uma espécie de cela ou com um túnel. Numa magistral mudança de planos, de imagens difusas, com projeções que nos fazem lembrar o grito de Munch, com  uma música de sons incómodos a lembrar um Mahler ou um Schoenberg, percebemos que André nos dá o espaço real onde afinal vive e de onde nos terá estado a relatar o que lhe ia na alma. Minutos magistrais da encenação que nos lançam a nós próprios para o inferno de André.  Um quarto de luxo, uma cama, uma mesa de cabeceira, nada mais,  um enorme espaço para ele sem vida, sem sentido, uma clínica psiquiátrica de luxo, onde trabalham  profissionais ultracompetentes, mas sem alma. É o  que se exige nestes casos, onde se paga bem. Veja-se a cena dos comprimidos atirados ao chão.  E reencontramos no hospital, estamos já no fim da peça, como quadros técnicos, os homens que nos foram apresentados  como supostos companheiros de Ana. Ficamos a saber que a peça está-nos a contar os sentimentos de André no momento presente sobre factos passados ou imaginados como se tendo passado. E o pai André grita pela mãe, chora, chora com uma convicção que nos prende, que nos torna solidário com o seu sofrimento, um sofrimento que nos sufoca e que nos leva a sentir como ele, a não sermos capazes de  perceber o seu mundo. Mas será esse seu mundo percetível? E o nosso, fabricado sobre as mentiras das Instituições Internacionais e da alta finança, não será ele tão ininteligível como o dele?

Quando chora e grita pela mãe, quando grita dizendo que está a ser como uma árvore já sem folhas, a enfermeira ainda lhe pergunta se ele não está enganado porque estará a querer a filha Ana e não a mãe há muitíssimo tempo falecida. Não, não, é a minha mãe que eu quero, responde com uma enorme convicção. No fundo, é a necessidade desse outro calor, o calor do ventre materno, o da paixão de se estar a fazer mundo e de se ter estado a fazer dele um homem, neste caso um engenheiro, que ele agora, cheio de frio e de falta de humanidade pretende. É esse calor que ele quer, esse calor que ninguém lhe pode dar. Um calor que nada tem de mecânico. E de repente o seu relógio cai. O relógio que o ajuda a preparar a sua última viagem, diz-nos, ou seja a viagem que é a saída da vida, a morte.

E cai o pano

Uma peça magistral só possível de ser representada por um ator de grande, muito grande, vulto.  E foi assim com João Perry que conseguiu o quase impossível. Uma representação de tal forma intensa que conseguiu fazer com que nos sentíssemos como André, que fizéssemos nossos os seus sentimentos de confusão, de ternura que também havia, e sobretudo que ficássemos solidários com esse terrível sofrimento face a uma vida que não se entende. A dele, a de André, e. quem sabe,  se a nossa num futuro que esperamos seja longínquo.

E a representação é tanto de sublinhar tanto se trata de uma peça de difícil apreensão ao nível do plano lógico mas não ao nível do plano emocional, em  que a minha neta esteve tão agarrada à peça como eu e foi capaz de a entender na sua quase totalidade. A inteligência emocional de que nos fala Damásio, levada assim pela qualidade da representação a uma adesão total à peça e à sua compreensão.

Uma peça de exceção e deixo apenas o meu profundo reconhecimento pelo trabalho apresentado por toda a equipa que o concebeu, o realizou e o levou á cena.

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