Navegava-se com a pequena Ísola di Ústica por estibordo e com Palermo, na costa Norte da Sicília, quase à vista. Julián recuperava dos ferimentos, graças aos cuidados do físico, ajudado pelo zelo de Lourenço que cumpria as prescrições que este lhe deixava. O flamengo, ao qual explicou, por gestos, o incidente na taverna e o ferimento na cabeça, analisou também a sua cicatriz e pôs-lhe um pouco de unguento, dizendo depois através de abundante gesticulação, pois só falava neerlandês, que tudo estava bem. O andaluz, que entretanto recomeçara a alimentar-se, podia já remar um pouco, embora o amigo ainda lhe desse uma ajuda sempre que o notava exausto. Os outros remadores tinham deixado de lhes bater e de os insultar, por um lado porque Lourenço não gostava de deixar dívidas em aberto e, por outro, porque iam chegando à conclusão de que aqueles dois eram também, tal como eles, vítimas e não carrascos.
O capitão só os libertou três dias depois, quando uma tempestade de Verão desabou sobre eles, tendo a carraca já ultrapassado a base do triângulo formado pelo mar Tirreno, cerca do estreito de Messina. Todos os braços disponíveis se tornaram indispensáveis no convés, pois naquelas condições, os remos pouca utilidade tinham. Um calor opressivo, quase irrespirável e um céu de nuvens negras e espessas que desde a tarde da véspera haviam começado a acumular-se, tinham logo permitido adivinhar a alguns dos mais velhos marinheiros que tripulavam a carraca, a inevitável iminência da borrasca. No entanto a violência com que esta irrompeu, numa infernal girândola de trovões, grossas bátegas de chuva, vento ciclónico e vagas de grande altura, excedeu as piores previsões dos veteranos. O navio era sacudido pelas vigorosas ondas e, ao mesmo tempo, varrido por uma chuva torrencial. Adornava fortemente de bombordo e a água entrava a jorros pelas cobertas, inundando até os porões, as câmaras, o paiol, fazendo correr perigo a segurança das mercadorias e obrigando, por isso, todos a um esforço suplementar. Havia que dar vazão com a maior celeridade possível à entrada da água que, sem dar tréguas, continuava a inundar todos os compartimentos da carraca. Lourenço, munido de um balde, tal como os companheiros, ia escoando água, enquanto mestres e marinheiros experientes procediam a trabalhos mais complicados, desferrando as velas, reforçando também com escoras solidamente atadas em seu redor a segurança dos três mastros que, raivosamente fustigados pela fúria do mar, corriam o risco de se partir. Os carpinteiros e calafates e os seus ajudantes, faziam o que podiam para remediar os estragos e rombos que a fúria da tormenta ia produzindo, ameaçando a segurança do sólido cavername.
Por seu turno, o andaluz, quase recomposto dos ferimentos, foi chamado pelo capitão, que apurara entretanto as razões da primeira briga e depressa concluíra que as sugestões do jovem eram sensatas, embora talvez extemporâneas, revelando bons e úteis conhecimentos de náutica. Contra a vontade de Jan Peter, o capitão desdobrou e estendeu uma carta geográfica sobre a mesa da sua câmara e perguntou a Julián qual deveria ser, na sua opinião, a melhor maneira de pôr a salvo a carraca, que continuava a ser varrida por enormes vagas que não permitiam que nada nem ninguém se aguentasse firme sobre o convés. Julián, ainda amedrontado perante o ameaçador rosnar de Jan Peter, que estava presente, sugeriu ao capitão que, segundo a sua humílima opinião, a melhor maneira de ultrapassar a dificuldade, disse ele, era arreando todas as velas e afastando, tão depressa quanto possível, o navio da costa e do perigo dos arrecifes à força de remos.
O irascível Jan Peter parecia querer bater-lhe de novo, mas o capitão, que embora soubesse bem o que fazer apenas quisera colocar à prova os conhecimentos do jovem, reconhecendo-lhe sensatez, mandou Jan Peter, com uma ordem fechada a quaisquer novas sugestões, pôr as medidas sugeridas pelo andaluz em prática. Fingiu estar a seguir quase à risca os «conselhos» de Julián, embora a sua decisão, grosso modo coincidente com as óbvias opiniões do rapaz, já estivesse tomada de antemão. No fundo, apenas pretendeu dar uma lição ao intratável Jan Peter. A carraca, que nunca estivera verdadeiramente em grande perigo, reganhou, ao afastar-se duas ou três léguas da linha da costa, uma navegação mais normal, ainda que algo agitada. Lourenço que, por ordem do capitão interrompera a sua faina no convés, assistira também à parte final desta reunião ficara, no entanto, um pouco surpreendido pelo facto de Jan Peter, tão rancoroso perante Julián, não lhe manifestar qualquer espécie de inimizade, apesar de ainda trazer um braço ao peito e o seu rosto apresentar hematomas e feias escoriações devido ao correctivo que o português lhe aplicara dias antes. Não compreendeu por que estranho motivo Jan, no intervalo de uma das suas rosnadelas, lhe terá enviado um sorriso tenebroso, mas um sorriso, apesar de tudo. Seria uma ameaça? Que outra coisa poderia ser um sorriso vindo de tal personagem? Em todo o caso, pensou, o flamengo devia ser o agente português a bordo e, de algum modo, sabia que Lourenço ia desempenhar uma missão. Só assim se podia explicar a relativa simpatia com que o tratava. Nesse caso, como se justificava a intenção que manifestara de o mandar enforcar?
A tempestade não foi de muita duração. Na manhã seguinte, uma sexta-feira, navegando à vista de Cefalú, o céu apresentava-se limpo, azul e bonançoso o vento, como era natural e próprio de Setembro. Ante a raiva do contramestre, o andaluz passou a estar quase sempre junto do capitão e a dormir num local menos insalubre. Van der Meer jogava amiúde com Julián longas partidas de xadrez que o andaluz quase sempre perdia. Lourenço beneficiou de um semelhante tratamento, sendo entregue ao seu cuidado sem má vontade, pelo contramestre, uma espada, um arcabuz e um punhal e ficando, de certo modo, encarregado da defesa militar da embarcação. Quatro homens escolhidos pelo português, para o acompanharem (o mouro, entre eles) foram providos de armamento. Outros tripulantes, embora no dia-a-dia desempenhassem tarefas de bordo, foram seleccionados por Lourenço para, em caso de necessidade acorrerem aos seus postos, colhendo armas ou tratando de pôr as bocas-de-fogo em condições de ser rapidamente utilizadas. Escolheu alguns dos remadores, que lhe pareceram de maior confiança, libertando-os assim da condição de escravos. Esta missão, depois do assalto dos piratas, apresentava-se como útil. Até mesmo como indispensável.