

Querido Diário
Quanto ao Natal, lá estive eu, naquela noite mágica, nas palhinhas, a nascer mais uma vez e a balbuciar iniquidades. A vaca cheirava mal, o burro mandava uns traques desconfortáveis, o José olhava-me e à Virgem com um ar suspeitoso e a Virgem só falava de compras de Natal, pra disfarçar o mau estar e o mau cheiro. Os Reis Magos nunca mais chegavam, tinham tido que resolver pequenas chatices por lá, pelos seus países (problemas de petróleo, pequenas execuções sumárias ou talvez sumérias, discutíveis tratados de paz com os americanos, enfim, chatices várias) e as prendas afinal, para grande indignação da Virgem, eram todas da loja dos chineses e dos trezentos.
(Mas isto afinal não mudou nada ao fim de dois mil anos?)
