A GALIZA COMO TAREFA – desestruturas acríticas- Ernesto V. Souza

Podemos sem dúvida dizer que as condições gerais de vida na Galiza, dos anos 50 até hoje e nomeadamente desde os anos 70, melhoraram em termos quantitativos e qualitativos. Chegaria com dar uma olhadela nas fotos, nas montras das lojas e nos mapas.

O salto à sociedade de consumo, com os seus ritmos novos e mudanças de ciclos, o deslocamento das culturas agrícolas e da “eternidade” da vida camponesa a uns novos modos, a uma Sociedade nova mais unificada e monolítica, a eliminação das culturas e sociedades locais é um fenómeno que aconteceu em toda Europa, seguindo as pautas particulares de evolução das respectivas sociedades depois da Segunda Guerra Mundial. Mas em todas o modelo televisivo norteamericano foi “o modelo”.

A evolução da sociedade espanhola, o salto que nos anos 80 provocou o desenvolvimento do estado autonómico e a incorporação a União Europeia foram importantes reativos numa sociedade que evoluía da Ditadura à Democracia, acompanhada até os começos do século XXI de um decurso paralelo de crescimento económico.

Esta evolução, na Espanha, como na maior parte dos países europeus aconteceu ao mesmo tempo de dous processos que por sua vez definem a contemporaneidade: o deslocamento cara as cidades, com o processo de urbanização das mentalidades ainda camponesas e subproletárias e a incorporação da população aos ritmos e hábitos da Sociedade de consumo capitalista.

Porém, salvo no quadro das nacionalidades catalã e basca este processo não provocou uma narrativa nacional modernizadora. Na Espanha a incorporação plena ao Capitalismo foi assumida de maneira acrítica e confiante. Teve de vir a crise económica, o decrescimento e os recortes para que a identificação entre democracia e progresso económico, indentificados ambos com o capitalismo fosse duplamente questionados, emergindo deste magma um duplo discurso económico, político e também nacionalista. Um de teor ultra-liberal e populista, outro de teor populista e vagamente socializante.

Na Galiza o fenómeno foi mais complexo, não porque se alterasse ou questionasse o quadro geral espanhol, quanto porque o choque causado pela incorporação à Sociedade de Consumo ao vir marcado desde fora foi mais brusco, incompleto e especialmente destrutivo. Acompanhado de um processo de re-estruturação económica e social fortemente negativa para os principais setores produtivos, por enquanto a emigração maciça às cidades e a concentração e redução dos setores produtivos no agro, na pesca e nas indústrias derivadas do mar deslocava fortemente a estrutura social e económica tradicional.

As bolsas subproletárias nas cidades, passadas pela droga, foram alarmes que deram passo em poucos anos a uma sociedade desestruturada,  dependente e carente na sua maior parte de perspetivas e discursos. Nela a emigração continua a ser a única saída.

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