CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – A DIREITA: SALMO

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5-a

 

A Direita é asquerosa.

Viscosa, intrínseca, perpétua, eminente. Popular, até.

Frontespícia.

A Direita, subreptícia ou inocentemente, aparece sempre. Nas piores ou nas melhores alturas. Para lá da sua existência perene e necessária, já que sempre preocupada com a defesa do satus quo das sociedades, mesmo que (et pour cause) e sobretudo elas não sejam boas nem justas –  algo universalmente generalizado, pelo nosso mundo habitado, sem grandes excepções ou sobressaltos – ela, a Direita, permanece atenta.

Para que tudo sempre continue na mesma. Para que não haja ondas. Para que as classes dominantes continuem a dominar e (sobretudo) as outras, as pobres e cinzentas outras, continuem razoavelmente felizes ou conformadas como convém.

A religião (a catolaica, a beatice, etc.) ajuda muito, ajuda imenso, é verdade. Sempre ajudou, aliás.

A Direita não pode ouvir falar em sindicatos ou sindicalismo, por exemplo. Nem em reivindicações populares, ou em desejos de melhoria de vida e de direitos – por outro exemplo. Muito menos em direitos de professores, funcionários públicos, médicos, canalizadores, operários da construção civil, calceteiros marítimos, bancários, despeja-cinzeiros, rebola-caixotes, bate-estacas, seja o que for.

É o que mais a aborrece e incomoda, é o que mais a preocupa, à Direita.

 

A Direita tem duas importantes vertentes:

a) a Direita autêntica, inteligente, culta, estruturada e maquiavélica, ciente da sua (feliz) condição e de alguns dos seus (infelizes) problemas, ciente da necessidade de se manter alerta, atenta e funcional, apta e exequível, sobretudo se for Poder, ou o mais próxima do Poder que lhe for possível e

b) conseguir convencer, aconchegar, apascentar, aconselhar, apaziguar o povo – aquela mole humana, aquela enorme quantidade de gente, que apesar de se tratar apenas de paisagem (para ela, Direita) lhe é necessária, lhe é essencial, lhe pode trazer benefícios. E votos, naturalmente.

Seja (embora mais difícil) em ásperas ditaduras, onde eventualmente pontifica, encorpada, musculada, apta e feliz – seja em democracias razoavelmente orgânicas, de chacha e pretensamente credíveis, como a nossa.

Inteligente que é e sabendo como sabe da infantilidade e ignorância do povo a que pertence e onde pontifica, aí estará de certo modo à vontade, já que os usos e costumes (leia-se regras, leis, Constituição, essas merdas) e a chamada Justiça são coisas e letras mais ou menos mais que mortas, mais ou menos mais que inoperantes.

E depois (não esquecer, sim, ó meu Deus, não esquecer) há e haverá sempre a Religião, uma ajuda prestável, discreta mas sempre funcional, já que se trata de um valor acrescentado à submissão e ignorância do tal povo, do chamado povo, espécie de inefável, manso e existente gado, para uns e para outros – Direita e Religião.

Alguém alguma vez vos pareceu ou constatou que algum reaccionário da mais pura Direita, algum clássico fascista, fosse ateu ou, enfim, agnóstico?

Disparate.

 

E já agora e só para acabar e como salutar provocação, algo que é sempre importante, que ajuda até à digestão.

Ele há os comunistas, que no passado foram quem mais lutou contra essa tal Direita – há que dizê-lo, é da História. E que no presente não têm nenhum país sob essa égide a funcionar em bom ou em grande – sim, porque a China ou a Coreia do Norte não podem ser exemplos para ninguém, nem sequer para os nossos próprios envergonhados militantes. Eles continuam eternamente à espera de um Messias, como os outros – havendo até a horrível afronta de constatarmos que os mais socialmente felizes e avançados países da Europa são os nórdicos, graças a (imagine-se) um socialismo ou mesmo (pior, muito pior, meu Deus, Mao, Lenine ou outra qualquer santíssima trindade) a uma social democracia, uma incomensurável e obscena social democracia.

É por estas e por outras que não acredito em Deus.

carlos

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