

A Direita é asquerosa.
Viscosa, intrínseca, perpétua, eminente. Popular, até.
Frontespícia.
A Direita, subreptícia ou inocentemente, aparece sempre. Nas piores ou nas melhores alturas. Para lá da sua existência perene e necessária, já que sempre preocupada com a defesa do satus quo das sociedades, mesmo que (et pour cause) e sobretudo elas não sejam boas nem justas – algo universalmente generalizado, pelo nosso mundo habitado, sem grandes excepções ou sobressaltos – ela, a Direita, permanece atenta.
Para que tudo sempre continue na mesma. Para que não haja ondas. Para que as classes dominantes continuem a dominar e (sobretudo) as outras, as pobres e cinzentas outras, continuem razoavelmente felizes ou conformadas como convém.
A religião (a catolaica, a beatice, etc.) ajuda muito, ajuda imenso, é verdade. Sempre ajudou, aliás.
A Direita não pode ouvir falar em sindicatos ou sindicalismo, por exemplo. Nem em reivindicações populares, ou em desejos de melhoria de vida e de direitos – por outro exemplo. Muito menos em direitos de professores, funcionários públicos, médicos, canalizadores, operários da construção civil, calceteiros marítimos, bancários, despeja-cinzeiros, rebola-caixotes, bate-estacas, seja o que for.
É o que mais a aborrece e incomoda, é o que mais a preocupa, à Direita.
A Direita tem duas importantes vertentes:
a) a Direita autêntica, inteligente, culta, estruturada e maquiavélica, ciente da sua (feliz) condição e de alguns dos seus (infelizes) problemas, ciente da necessidade de se manter alerta, atenta e funcional, apta e exequível, sobretudo se for Poder, ou o mais próxima do Poder que lhe for possível e
b) conseguir convencer, aconchegar, apascentar, aconselhar, apaziguar o povo – aquela mole humana, aquela enorme quantidade de gente, que apesar de se tratar apenas de paisagem (para ela, Direita) lhe é necessária, lhe é essencial, lhe pode trazer benefícios. E votos, naturalmente.
Seja (embora mais difícil) em ásperas ditaduras, onde eventualmente pontifica, encorpada, musculada, apta e feliz – seja em democracias razoavelmente orgânicas, de chacha e pretensamente credíveis, como a nossa.
Inteligente que é e sabendo como sabe da infantilidade e ignorância do povo a que pertence e onde pontifica, aí estará de certo modo à vontade, já que os usos e costumes (leia-se regras, leis, Constituição, essas merdas) e a chamada Justiça são coisas e letras mais ou menos mais que mortas, mais ou menos mais que inoperantes.
E depois (não esquecer, sim, ó meu Deus, não esquecer) há e haverá sempre a Religião, uma ajuda prestável, discreta mas sempre funcional, já que se trata de um valor acrescentado à submissão e ignorância do tal povo, do chamado povo, espécie de inefável, manso e existente gado, para uns e para outros – Direita e Religião.
Alguém alguma vez vos pareceu ou constatou que algum reaccionário da mais pura Direita, algum clássico fascista, fosse ateu ou, enfim, agnóstico?
Disparate.
