CRÓNICA DE DOMINGO: A viagem do eléctrico chamado socialismo continua – por Carlos Loures

cronicadomingo3Numa revista coordenada por argonautas  nos anos 80 (Questões & Alternativas), publiquei um texto a que chamei «Um Eléctrico chamado socialismo». Há meia dúzia de anos, no blogue Aventar, saiu uma versão actualizada; repeti-o no Estrolabio e agora é A Viagem dos Argonautas o apeadeiro deste eléctrico que não se chama desejo, como o de Tennessee Williams, mas que continua a circular prometendo levar-nos até ao socialismo. O texto nestas  diversas versões vai sendo modificado – o “socialismo” é que não muda.

Socialismo?, o que dizem dois grandes dicionários na entrada socialismo: o de José Pedro Machado é sucinto: Sistema daqueles que querem transformar a sociedade pela incorporação dos meios de produção na comunidade (…) pela repartição, entre todos, do trabalho comum e dos objectos de consumo. A definição de Houaiss é muito  extensa, pelo que ficamos pela primeira acepção – conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco das suas desigualdades. A definição de Machado reflecte a matriz marxista do termo e o seu longevo lugar na genealogia do socialismo utópico, enquanto a de Houaiss  se aproxima mais da realidade, da praxis dos partidos socialistas actuais – gosto sobretudo da expressão «doutrinas de fundo humanitário», que lembra as senhoras da Caritas a distribuir leite condensado pelos pobrezinhos. Houaiss avisa que o socialismo pretende diminuir um pouco as desigualdades do capitalismo.  Um pouco -nada de abusos…

As Questões & Alternativas são de 1984. Na primeira metade da década de 80, a avançada socialista na Europa era impressionante: em 1981, François Miterrand vencia as eleições em França; Em 1983, Andreas Papandreu, Felipe González e Mário Soares ganhavam também nos seus países. Em Itália, o Partido Socialista Italiano ganhava posições. No que se refere a França, enquanto a União Soviética manifestava preocupação pela derrota de Giscard d’Estaing, Reagan endereçava calorosas felicitações a Miterrand… Três décadas depois, o eléctrico chamado socialismo, percorreu alguma da distância que ainda lhe faltava para se assumir como força do centro-direita e como campeão do neo-liberalismo económico. Os socialistas ficam  irritados quando os acusamos de, com o PSD, terem tecido uma sólida teia de interesses. Há pessoas que, quer o seu partido esteja no Governo ou na Oposição, têm os interesses, os cargos garantidos (os «tachos», como diz, simplificando, o nosso bom povo). Será isto uma calúnia?

Quando publiquei o texto no Aventar, circulava na rede uma mensagem muito interessante escrita por José Ricardo Costa. «A Idade das Trevas», foi o título dado. Com a devida vénia, transcrevo excertos, resumindo o restante. Ao ajudar o filho a preparar um teste de História e ao estudar a Idade Média, em que «a nobreza vivia fechada sobre si própria», usufruindo dos privilégios que criava, recordou que os nobres «relacionavam-se entre si, casavam-se entre si, frequentavam os mesmos castelos, participavam nas mesmas festas e banquetes». E José Ricardo Costa chega à conclusão de que em Portugal, dominado pelo PS e pelo PSD, se formou uma feudalização da sociedade, bem como uma organização cada vez mais endogâmica. E passa a explicar que um bom exemplo dessa endogamia «é o casamento entre a filha de Dias Loureiro, amigo íntimo de Jorge Coelho, e o filho de Ferro Rodrigues, amigo íntimo de Paulo Pedroso, irmão do advogado que realizou a estúpida investigação para o Ministério da Educação e amigo de Edite Estrela que é prima direita de António José Morais, o professor de José Sócrates na Independente, cuja biografia foi apresentada por Dias Loureiro, e que foi assessor de Armando Vara, «licenciado» pela Independente, administrador da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, que é amigo íntimo de José Sócrates, líder do partido a que está ligada a magistrada Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que está a investigar o caso Freeport, caso onde se tem evidenciado um presidente da Eurojust de seu nome Lopes Mota que, por um acaso da vida, auxiliou essa democrata e defensora do poder local chamada Fátima Felgueiras. Felizmente que este país tem como ministro da Justiça um Alberto Costa que, a não ser aquela questão das pressões sobre um juiz em Macau, há cerca de 20 anos, pouco ou nada tem feito.» (…) «Talvez isto ajude a explicar o que se passa com a Justiça, a Economia, a Educação» …(e com a Saúde, e com a Cultura, etc.). José Ricardo Costa termina perguntando «se haverá gente em Portugal a beneficiar com a degradação da escola pública?» Uma pergunta retórica, claro. Depois deste texto, que muitos consideraram fantasioso, muita coisa ocorreu – o caso BES e um cortejo de outras afrontas à democracia, confirmaram a  cadeia de acasos da vida apontada por José Ricardo Costa que, por certo, não é exaustiva e se queda pela superfície, pela nata dos nomes conhecidos, este sistema endogâmico, como muito bem diz, a política de casamentos como a nobreza feudal praticava, faz que a elite governante, seja quais forem os resultados eleitorais, nunca mude no que é essencial – mudam e trocam-se alguns nomes, mas a nova aristocracia vai cimentando o seu poder,  faz operações de engenharia financeira (trafulhices, simplifica o nosso bom povo); por exemplo quando um membro da tribo administra um banco vende acções a baixos preços, sabendo que o seu valor vai subir no dia seguinte, fazendo-o ganhar legalmente centenas de milhares de euros de um dia para o outro (favor que o beneficiado não deixará de pagar na primeira ocasião que se apresente, pois uma das regras do jogo é não haver almoços grátis); os membros da tribo arranjam cargos e bons empregos uns aos outros, na vida académica amparam-se mutuamente, e quando algum deles ou um familiar tem problemas com a Justiça, logo aparecem os amigos a dar uma mão. É gentinha medíocre, de ideais rasteiros e patrimónios elevados, mas está aí para ficar. Governa, sobe aos mais altos lugares do Estado e desce às mais baixas alfurjas das negociatas obscuras. Não se chamam Bourbons, Habsburgos ou Braganças, têm nomes vulgares, iguais aos de toda a gente, são filhos, não de condes ou de duques, mas de gente comum, com profissões ou negócios comuns, mas usam as mesmas artimanhas dos condes e dos duques, incluindo a política de casamentos. Tráfico de influências? Nepotismo? Não, que ideia, apenas boas relações entre familiares e amigos, mesmo que pertençam a partidos rivais.

A crise na União Europeia tem escondido e feito esquecer a realidade da política nacional, tal como uma constipação pode ocultar uma doença muito mais grave. A nossa democracia está muito doente, a bem dizer nem merece essa designação herdada dos gregos – que agora vivem uma situação dramática, açodados pela «democracia alemã», por uma Alemanha que devia ter sido dissolvida em Nuremberga – desde que existe provocou guerras, milhões de mortos e se reconstruiu graças à generosidade de outros europeus e à protecção ianque. Mas esta é outra história…

A endogamia, termo que significa casamento dentro da própria família, tribo, classe ou entre habitantes dum povoado ou região, foi amplamente praticada entre as famílias nobres não só na Idade Média, como na Idade Moderna, chegando mesmo até aos nossos dias nas relativamente numerosas monarquias que subsistem em nações europeias. Sem cair no pormenor, pode dizer-se que em várias épocas e situações, famílias, irmãos, primos, filhos e pais, ocuparam tronos, guerrearam-se entre si, provocaram milhares de mortos, terríveis devastações entre os súbditos. Muitas vezes, depois destas hecatombes horrorosas, passando por cima dos cadáveres e das ruínas, selavam a paz com beijos e abraços, tratando-se por «querido irmão», «amado primo», «meu bondoso pai». Bem sei que aqui em Portugal não estamos a falar de Bourbons ou de Habsburgos, mas sim de gente com linhagens menos ilustres. O que importa salientar é a técnica e a táctica, tão semelhantes. Perguntarão? E só em Portugal é assim? Claro que não. E, por isso, estamos, nós, os «esquerdalhos», a dar o benefício da dúvida à «geringonça»- os náufragos agarram-se a uma palha.

Ontem, morreu um homem que, sob muitos aspectos, era digno de ser admirado – lutador intransigente contra a ditadura salazarista, após o 25 de Abril liderou a descolonização possível e combateu a hegemonia que o PCP procurava implantar, baseado num modelo moribundo. Mas Mário Soares, ergueu barricadas contra uma nova tirania, escancarou as portas à corrupção que o seu «socialismo» transportava no ventre.

Merece ser lembrado como corajoso lutador contra a injustiça, mas não deve ser esquecido como porteiro da iniquidade.

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