CARTA DE VENEZA – “IN MEMORIAM” – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Custa esta carta mais que outras. A passagem de ano ficou marcada pelo desaparecimento de grandes nomes, numa sequência aparentemente interminável de lutos globais no mundo das artes, da cultura e da política que têm dado muito que falar à imprensa e às redes sociais. Já no panorama italiano, os primeiros dias do novo ano registaram o falecimento de Tullio De Mauro, provavelmente o maior linguista italiano do século XX, Ministro da Educação entre 2000 e 2001, autor, entre inúmeras obras notáveis, de Storia linguistica dell’Italia unita (1963).

Por outro lado, há perdas que nos tocam de perto e que não chegam aos alaridos mediáticos, mas abalam comunidades vivas e reais. Foi com uma perda assim que se encerrou 2016 e carregou de tristeza, incredulidade e revolta a entrada no novo ano para muitos. Alessia Pugliatti, natural de Messina mas veneziana por adoção há cerca de duas décadas, tinha apenas 41 anos, uma vida repleta de iniciativas e caracterizada pelo empenho em tudo o que fazia, com timidez e com coragem, e pela inata capacidade de criar constantemente novas pontes entre povos e culturas.

Era criadora de bijutaria, excelente cozinheira e promotora de eventos de cozinha coletiva. Ealessia ainda tradutora, professora de italiano para estrangeiros pela associação Libera la parola, ativista pela igualdade de género e pelos direitos dos refugiados. Mas provavelmente alguns dos leitores desta carta lhe reconhecerão o rosto nesta linda fotografia de Dolores Viero – disponibilizada na página Facebook dedicada à sua figura pública – por tê-la encontrado no Pavilhão português da Biennale de Veneza, onde durante muitos anos foi a referência concreta para a presença lusa no prestigiado evento. Das suas muitas paixões, constavam com efeito a língua portuguesa e as culturas de que esta é expressão, sendo uma leitora apaixonada em especial de Clarice Lispector.

Nos muitos artigos da imprensa local que a homenageiam, destacam-se algumas das suas facetas de mulher, profissional e artista, principalmente os seus dotes canoros, pois Alessia Pugliatti cantava em vários grupos e em várias línguas, tendo integrado o conjunto feminino Women back from Hollywood, o siciliano Tutti i cosi e o ítalo-senegalês Bandanera. O amor pelo continente africano expressava-se, também, na escolha do nome artístico Mama Africa. Muitas das suas atuações encontram-se online e vale a pena ouvir a sua voz poderosa, capaz de vencer qualquer insegurança (veja-se, por exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=zVHHPBfsIm4).

Vão fazer falta o seu idealismo enérgico mas delicado, o entusiasmo sempre nutrido de respeito e todos os gestos em que autenticamente essas atitudes se manifestavam: “Difícil é saber de frente a tua morte / E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma” (Sophia de Mello Breyner Andresen, Navegações, VII).

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