O MAPA (A saga do anadel/59)- reconhecimento do terreno, por Carlos Loures

 

Veneza, segunda-feira, 30 de Setembro de 1487.

 

Muitas horas faltavam para Lourenço voltar à livraria de Saul Navarro, onde, de acordo com as instruções do hebreu, só deveria chegar ao fim da tarde, duas horas antes do sol se pôr e uma antes de as portas da judiaria serem fechadas. Foi passeando com a despreocupação das gentes ociosas pelas ruas de Veneza, inundadas, naquela manhã de Outono, por uma refulgente luminosidade mediterrânica. Era ainda cedo, mas a temperatura matinal anunciava uma tarde quente, embora soprasse uma fresca brisa vinda de Sul, do mar Adriático. Tinha todo o resto da manhã e boa parte da tarde por sua conta. Percorria com vagar as ruas ao longo dos canais, atravessando pontes, observando, com a ávida curiosidade do forasteiro, o movimento próprio de uma cidade tão viva e próspera, olhando as pessoas que circulavam nas ruas, entrando em igrejas ou nas tendas e buliçosos mercados para fazer as suas orações, compras e negócios. Os Venezianos, ao contrário dos Portugueses, tristes e bisonhos, pareciam desinibidos. Era gente alegre, falando e gesticulando com abundância e sem preocupações sobre o que os outros poderiam pensar, como acontece em Portugal.

Sendo ambas cidades muito belas, Veneza era um burgo muito diferente de Lisboa. Não circulavam as peculiares carroças e liteiras tão comuns, não só na nossa, como na maioria das outras cidades europeias. Gente a cavalo, montando mulas ou asnos, era coisa rara. Transitava-se e transportava-se mercadorias em pequenos barcos movidos a remos que percorriam os numerosos canais que sulcavam Veneza em todos os sentidos. A este tipo de barco chamavam gondola. Lourenço, embora tenha depois tentado apurar a origem o nome apenas soube que tanto pode ter derivado do vocábulo latino para pequeno barco – cymbula, como de cuncula, diminutivo de concha, ou ainda de nomes gregos para barcos – kundy e kuntòhelas. Aparecem referidas pela primeira vez num decreto de 1094 assinado pelo doge Vitale Falier, designadas com gondulam.

Habituado a uma cidade que convivia com o amplo estuário do Tejo, podendo quase dizer-se quase um mar, e que do rio dependia, apesar das diferenças, sentia-se em casa naquele burgo tão belo e luminoso. Aproveitou o tempo que lhe sobrava para comprar roupas – umas calças de perneiras justas e um elegante saio. Abasteceu-se também de alcândoras e bragas. Adquiriu ainda um vistoso e bem forrado manto curto, bem como um capeirão, mas de abas bem largas. Tudo em tecidos leves, tendo em conta o calor que fazia. De armas estava bem servido com as que o capitão lhe dera quando, na noite anterior, lhe concedera a título definitivo as mesmas que Jan Peter lhe entregara durante a refrega com os piratas mouros e às quais já tanto se afeiçoara. Feitas as compras, foi aos banhos públicos onde após uma demorada e repousante imersão em água e vapor, mudou de roupas, vestindo as novas e deitando fora as que trouxera de Lisboa, pois estavam sujas, rotas, quase andrajosas. Foi também a um barbeiro onde lavou e aparou o cabelo que lhe chegava quase aos ombros e mandou rapar cuidadosamente a barba que durante a viagem muito lhe crescera, dando-lhe um ar senão de malfeitor, pelo menos de pessoa desmazelada.

Agora, o seu ar bem cuidado, a espada que só os militares e os nobres usavam, as roupas e o manto de qualidade, as botas de bom cabedal, faziam-no ostentar uma aparência, semelhante à de um filho de qualquer abastado mercador ou até mesmo à de um jovem e altaneiro aristocrata. A tez branca, embora tisnada pelo sol durante a viagem a bordo, o cabelo castanho claro, alourado, que herdara da bela Matilde, cujas douradas tranças tinham, mais de duas décadas atrás, enfeitiçado de amor o jovem Lopo, ajudavam-no a não dar muito nas vistas entre os Venezianos, pois o seu aspecto não diferia muito do apresentado pelos mais comuns europeus do Norte. Falava sempre o menos possível e quando tinha de o fazer, usava os seus escassos conhecimentos de italiano, bem como o francês e o castelhano, idiomas que dominava razoavelmente. Nunca falava português, língua que ali quase apenas se ouvia na boca de marinheiros.

Muitos dos comerciantes com quem contactara durante a sua peregrinação pela cidade, tinham-no tomado, enquanto não abrira a boca, por um romano, um milanês ou um florentino. Quando, encetadas as negociações, estranhando o seu estranho acento e a clara dificuldade em exprimir-se em italiano fluente, ou seja, no idioma toscano que, imposto pela divulgação e prestígio das obras de Dante, Boccaccio e Petrarca, servia de língua franca na itálica península, intrigados com o seu estranho linguarejar, lhe perguntavam de onde era, dizia-se navarro, resposta que, quase sempre, deixava os interlocutores perplexos, pois este pirenaico domínio da casa de Albret, por enquanto ainda independente do império que os reis Católicos iam criando pela força das armas, da corrupção, da política de casamentos, de complexas teias diplomáticas, era ali quase desconhecido. Fora opção prudente, a de se fazer passar por navarro, pois permitia-lhe fugir a perguntas incómodas e perigosas para o desempenho da missão. A ideia surgira-lhe ao lembrar-se do nome do livreiro.

Uma das medidas que tomara, agora que tinha a bolsa recheada com os ducados que Saul lhe dera, foi a de mudar de albergaria. A recomendada pelo capitão era suja, mal frequentada e exposta a curiosidades. O que motivara a mudança fora um incidente insignificante: nessa manhã, ao voltar da judiaria, encontrara a porta do quarto encostada, mas com a tranqueta aberta. Suspeitou que os seus parcos haveres tivessem sido devassados, embora, passando tudo em revista, não desse por falta de coisa alguma. Talvez fosse apenas curiosidade da criada que fizera a limpeza do aposento. Ou talvez não fosse só isso. De qualquer dos modos, resolveu tomar medidas, pois a importância da missão, não lhe permitia acreditar em coincidências, acasos e acontecimentos insignificantes. Depressa encontrou melhor pouso, pois tal não era difícil. Mudou-se para uma pequena e muito asseada estalagem da Calle Merceria, onde lhe atribuíram um quarto voltado para a fachada da Igreja de San Salvatore. Um pouco mais longe do centro do que a anterior, não ficava demasiado distante da Praça de São Marcos.

Apesar de todas estas ocupações com que fora preenchendo as horas, o tempo continuava a sobrar-lhe. Por isso, embora contrariando as instruções do livreiro, não resistiu à tentação e buscou o caminho para o palácio do comerciante Piero Torriani, que, conforme Navarro lhe dissera, ficava numa via estreita, embora se chamasse Calle Larga San Marco, muito próxima da basílica de São Marcos. Desobedeceu às instruções, primeiro porque, apesar das severas recomendações de el-rei, gostava mais de actuar de acordo com o que lhe ditava a sua cabeça. Queria estudar o local tão bem quanto possível. Essa observação talvez lhe viesse a ser útil se, como o livreiro previra, a transacção viesse a ter lugar naquele palácio depois do anoitecer. Era importante e pareceu-lhe avisado analisar à luz do dia a topografia do terreno e estudar as eventuais vias de fuga Tentou, no entanto, em atenção aos legítimos receios do judeu, ser o mais discreto possível. Era portanto com intenções estratégicas que observava a opulenta casa senhorial, dando, com o ar de quem passeia, uma volta completa ao seu perímetro em terra firme, visto que a fachada deitava para um canal. A residência do mercador era mesmo um palácio, conforme dissera o livreiro. A entrada principal, de aspecto imponente, dava para o Rio di Canonica que, correndo por detrás da abside da basílica vinha desaguar no grande Canale di San Marco. A entrada principal fazia-se por esse estreito canal, estando dotada, como era vulgar nas casas senhoriais venezianas, de um pequeno ancoradouro em madeira onde aportavam as embarcações dos visitantes, e os barcos de fornecedores de alimentos e de outras mercadorias.

Quando, parado junto da parte traseira da grande construção, ainda imerso na observação e anotando mentalmente todos os pormenores, ouviu vozes femininas e viu depois sair uma bela e bem trajada jovem, acompanhada por duas raparigas também jovens, mas com aspecto de camponesas, ambas criadas da casa, por certo. Saíam por uma estreita porta de madeira, única fenda aberta daquele lado no alto muro que circundava a construção, protegendo-a como se fosse a muralha de um castelo. Voltou-se e como um ocasional passante, afastou-se, escutando as risadas das raparigas. Enveredou depois por uma pequena e estreita rua, afluente da Calle Larga, enquanto elas prosseguiam o seu caminho em direcção ao centro da cidade.                                                                       

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