CARTA DO RIO – 134 por Rachel Gutiérrez

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Morreu um dos maiores pensadores da atualidade: o sociólogo e filósofo polonês Zigmunt Bauman (1925-2017) que nos legou uma vasta obra indispensável para a compreensão dos sentimentos de insegurança e medo que a modernidade nos provoca.

Tenho dele apenas três livros: Cegueira Moral, sobre a perda da sensibilidade na modernidade líquida, (como indica o subtítulo), que se apresenta como uma longa discussão com Leonidas Donskis, também filósofo, teórico da Política  e analista social, cujo capítulo sobre Spengler e A Decadência do Ocidente é de uma impressionante lucidez;  o segundo livro é O Mal-Estar da Pós-Modenidade, que discute o consumismo, os heróis e as vítimas da pós-modernidade, o comunitarismo e a liberdade, a sexualidade pós-moderna, a verdade, a ficção e a incerteza etc.; e o mais curto, mas não menos denso Tempos Líquidos, que começa Entrando corajosamente no viveiro das incertezas e  cujo capítulo final é sobre A Utopia na era da incerteza.

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Em sua última visita ao Brasil, na entrevista que concedeu ao programa Milênio, do canal Globo News, no ano de 2015, pouco após ter completado 90 anos, Zigmunt Bauman disse que “revisando expectativas e esperanças, diria que estamos num estado de interregno” quando “ não somos uma coisa nem outra, (…) as formas que aprendemos para  lidar com os desafios da realidade não funcionam mais.” E, evidentemente, “as novas formas que substituiriam as antigas ainda estão engatinhando.” E ao referir-se às crises que enfrentamos hoje em dia disse que também são líquidas porque as próprias manchetes dos jornais tornam-se logo caducas e apagam as anteriores da memória. E quando o entrevistador perguntou se não estamos recebendo informações em demasia, que não somos mais capazes de processar, Bauman disse que o jornalista havia tocado na parte mais dolorosa da nossa ferida e citou o biólogo E.O. Wilson que “se  expressou de forma  muito sucinta e correta: Estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria”. Depois, ainda citou o filósofo Wittgenstein que dizia “compreender é saber como seguir adiante.”

Bauman citava muitos filósofos, cientistas, artistas, poetas. Ouvindo-o ou lendo seus livros percebemos o quanto ele soube se alimentar e enriquecer com o pensamento dos outros. O Mal-Estar da Pós-Modernidade , por exemplo, foi nitidamente inspirado em O Mal-Estar na Civilização, de Freud. E nesse, há uma reflexão absolutamente antológica sobre a imortalidade e sobre o medo que temos da morte e da velhice.  Em algum deles, não sei qual, há uma longa reflexão à luz do pensamento de Emmanuel Lévinas e em Tempos Líquidos, no capítulo em que trata da Utopia, buscou estas belas palavras de Oscar Wilde:

Um mapa-mundi que não inclua a utopia não vale nem a pena olhar, pois deixa de fora o único país em que a humanidade está sempre desembarcando. E quando a humanidade lá desembarca, olha em volta e, vendo um país melhor, iça as velas. O progresso é a realização das utopias.

E também as de um francês injustamente esquecido, Anatole France:

Sem as utopias de  outras épocas, os homens ainda viveriam em cavernas, miseráveis e nus. Foram os utopistas que traçaram as linhas da primeira cidade… Sonhos generosos geram realidades benéficas. A utopia é o princípio de todo progresso, o ensaio de um futuro melhor.

E acredito que, se o tivesse conhecido, teria acrescentado o que Eduardo Galeano repetiu tantas vezes:

Ela está no horizonte – diz Fernando Birri – Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos mais adiante. Por mais que eu caminhe, nunca a alcançarei. Pra que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar.

Ao encerrar aquela entrevista de 2015 para a Globo News, Zigmunt Bauman, apesar da severidade de suas análises sobre o mundo contemporâneo, declarou considerar-se não totalmente pessimista em relação ao futuro da humanidade porque, segundo ele,  já tivemos períodos em nossa História mais cruéis e muito mórbidos. E a humanidade sempre teria dado um jeito de superá-los. Contudo, o velho sociólogo admitiu que só se sentia  preocupado  com o tempo que desta vez a humanidade vai levar para encontrar a solução de seus problemas.

 

1 Comment

  1. “Claro que sou dos que quero. Sabendo que aquilo que hoje é utopia, pode amanhã transformar-se em realidade. Enquanto tantos milhares de casos que a História da Humanidade nos oferece, recordemos sempre aquele que está ainda tão próximo, o 25 de abril de 1974, um dos felizes acontecimentos protagonista desta sua obra…..” Otelo Saraiva de Carvalho na prefácio do meu livro “Outro Caminho; outra Constituição, Outra Democracia, a Terceira República.CLV

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