Vocês desculpem lá, mas este país insiste em ser um país de opereta, tal a confusão (maravilhosa, devo confessá-lo, aguado e a palpitar) em torno daquela coisa a que chamam de TSU. Daquele TSU be or not TSU be.
That’s the question, I presume.
Eu não quero (afinal quem sou eu?) ser destrutivo, assintoso ou ressabiado – como por exemplo um recolhido S. Francisco de Assis, o pobre frade e antigo mendicante e militante socialista (já desde o século XIII, parece) o infeliz franciscano da Ordem dos Socialistanos – não, não quero, mas todos nós sabemos em que partidos militam os empresários (enfim, se responsáveis) em que partidos eles se acolhem e se albergam e como se preocupam, coitados, com a chamada Concertação Social, uma chatice que de vez em quando lhes acontece e os incomoda sobremaneira, evidentemente. Bem como incomoda imenso os partidos de Direita, dos quais fazem parte toda uma caterva deles, dos tais empresários e outros empenhados empreendedores, alguns deles simultaneamente deputados dessa mesma Direita, numa acumulação exaustiva de trabalho próprio e responsabilidades políticas de louvar.
As concertações sociais fazem-me lembrar, com uma evidência histórica, as tão antigas e saudosas Corporações, uma querida salazarice de um bom e outro tempo. Claro, que desde que nós inventámos a Democracia, já não é bem assim. Já não é bem assim, apenas leva mais tempo, há umas discussões, ouvem-se os sindicatos (também ainda não inventados naquele outro tempo) todos cagam as suas postas e no fim, quem manda e quem pode decide, tomem lá dois euros de aumento e viva Portugal.
Vão pra casa que pró ano há mais.
É assim como os saldos, o defeso da caça ou a época de compra de jogadores de futebol, tem um seu prazo e um seu tempo e depois fim. Porque há sempre umas lérias, umas contrapartidas que os patrões exigem e os governos concedem, de modo a que tudo fique mais ou menos na mesma, ou seja, os patrões, os bosses não vão nunca perder nada, continuam a lucrar da mesma e da pior ou melhor maneira, há umas compensaçõezinhas e prontos.
Como esta coisata da TSU. O governo aceita, apoia e vibra de entusiasmo com um aumento de ordenado minimalista, sim senhor, mas em compensação os patrões são beneficiados com menos TSU e desatarão, portanto a melhorar o desemprego nacional, enchendo os seus trabalhadores do tal ordenado mínimo e com a habitual ausência de contratos da praxe. Da praxis.
Claro como água – só não percebe quem não quer perceber.
Mas a opereta inicialmente evocada é que, por um lado, a CGTP e os partidos de Esquerda – da tal Esquerda esquerda – não concordam, como é lógico e põem esta última reunião corporativa em causa. Enquanto o Partido do Governo sai coxo, por mais que disfarce e faça festas a todos, a uns e a outros.
E o PSD – desde sempre a favor dos capitalistas e gajos da massa, desde sempre encantado com o menos TSU possível, desde sempre contra aumentos e melhorias da classe trabalhadora – vai votar contra! Com uma birra política! Ao lado do PCP e do Bloco de Esquerda! Que estão que nem podem, aflitos e encabulado, embora lhes dê jeito. Não é o máximo?
E o CDS ainda não sabe se se abstem ou se coiso. Por outro lado a UGT (suposta Central Sindical defensora da classe dos trabalhadores) e ofendidíssima com aquilo a que chamam extrema esquerda, até tentou, sem êxito, convencer o Passos Coelho a ser coerente, passou-lhe a mão pelo lombo, empenhou-se-lhe num solidário apoio…
Então isto não é uma opereta, ou antes uma verdadeira ópera bufa? Alguma vez as relações Capital/Trabalho assistiram a uma coisa destas? Ou tal inconsequência e insanidade política ocorreria ao Karl Marx? Ou mesmo aos Irmãos Marx?
Conseguirão as hostes do PSD suportar e superar a esquizofrenia do Passos e do Coelho?
Conseguirá o Montenegro continuar a fingir que apoia o outro e a disfarçar a hipocrisia insidiosa de que é detentor?
Conseguirá o Peneda, aquele simpático e desimpedido rapaz, levar a sua (qual?) avante?
Conseguirá o inefável Rui Rio sacar apoios para a sua ascensão política?
Conseguirá o CDS sacar dividendos desta crise pèessdesca e sonhar com um imenso eleitorado a nele votar?
Tão amigos que nós éramos, Direita amiga, leal e coesa na sua elevada ideologia…