O MAPA (A saga do anadel/64) , O irmão Giovanni -por Carlos Loures

Ao cabo de alguns minutos, voltou com outro frade, este mais velho, mais alto e mais magro. Era um homem de meia-idade e de olhar vivo penetrante, revelando perspicácia. Um fino círculo de cabelo escuro rodeava a grande tonsura própria da ordem. No rosto anguloso e pálido, um pouco inexpressivo, só os olhos brilhavam como dois lumes. Encaminharam-se os três para a biblioteca da abadia, Quando Lourenço e o segundo frade se sentaram junto de uma janela e irmão mais jovem e mais gordo os deixou, disse para o português, num castelhano perfeito:

– O irmão Adalfredo disse-me que lhe perguntastes por um mapa. De que mapa falais?

Lourenço recorreu a uma meia mentira. Seu pai era debuxante de mapas em Sevilha (recordou-se de Julián) e sempre lhe falara num mapa que o famoso cosmógrafo Frate Mauro tinha desenhado naquela abadia. Como estava em Veneza, numa viagem de negócios, tendo a manhã livre, decidira tentar saber mais alguma coisa sobre esse famoso mapa que o irmão camáldulo ali realizara. Ganhando algum fulgor e ousadia, acrescentou – quem sabe até se não disporiam de uma cópia que ele pudesse ver, quem sabe se comprar, deixando um generoso óbulo para o mosteiro. O frade que disse depois chamar-se Giovanni, sorriu, respondendo com uma pergunta:

– Não sois oriundo de Castela, pois não? – e acrescentou – embora a vossa sintaxe seja quase perfeita,   pelo vosso acento e  pela maneira como pronunciais os esses e os erres,  pela mistura e troca que fazeis entre guês e jotas, pela ausência do ceceio,  só podeis ser galego ou português.

Lourenço achou então melhor dizer a verdade. Era português, de Lisboa. De resto não dissera ser castelhano, embora tenha falado em Sevilha, apenas se exprimira naquela língua porque…

– Porque queríeis passar por castelhano? – Atalhou Giovanni:

– Não, porque entendo ser o castelhano língua mais universal e aqui melhor conhecida do que a minha – mas, vendo a expressão trocista do beneditino, percebeu que não estava a ser convincente e, desistindo de mentir, acrescentou que o pai fora, desenhador de mapas, sim, mas em Lisboa. E concluiu – irmão, eu não menti completamente…

O outro voltou a sorrir:

– Pois não. Não mentistes completamente – nem dissestes a verdade completa, ficaste-vos pelas meias-verdades e pelas meias-mentiras – e bondosamente concluiu – mas, embora, segundo me lembro, se diga em Portugal que a mentira não paga sisa, mentir é pecado e não dizer a verdade toda, deixando-a por metade, pode ser considerado uma simples falha de memória – e, vendo o rubor envergonhado do rapaz, mudou de assunto e voltou à questão idiomática – Todos estes falares, francês, provençal, catalão, florentino, castelhano, português, galego, leonês, são idiomas filhos do latim e acontece que também falo um pouco de português.

E não é que falava mesmo a nossa língua? Tinha estado, explicou em seguida, dois anos acolhidos no Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, e visitados os mosteiros de Lorvão e de São Pedro de Arouca. Conhecia Aveiro, Coimbra, Lisboa… As casas da Ordem de São Bento. «Veja-se lá a minha sorte» – cogitou Lourenço – «logo me havia de calhar um filósofo, um sábio linguista e um andarilho, reunidos na mesma pessoa». E o outro num português muito escorreito lá lhe foi contando como Fra Mauro ali desenhara o seu famoso planisfério. A abadia fora construída no final do décimo século em honra de São Romualdo, um amigo do doge Pietro Orseolo I e que fora o fundador da Ordem beneditina dos camalduldenses. E contou-lhe com algum pormenor a interessante história dessa amizade. A esta ordem tinha sido concedida, em 1212, a Igreja e o Convento de San Michele in isola. Quanto ao valioso planisfério de Fra Mauro, não estava este arquivado na biblioteca da Abadia. Estava, sim, bem guardado em Veneza, na Biblioteca Marciana. E depois de uma breve reflexão, completou o seu raciocínio:

– Mas o pai do vosso actual rei, encarregou Fra Mauro de executar uma cópia e deveis poder vê-la em Lisboa – e acrescentou nova ironia – Não era necessário ter vindo tão longe.

Nessa altura, Lourenço, sentindo que o outro se dera conta do seu embaraço e antes de se enredar em novas mentiras, decidiu-se a contar a verdade. O irmão Giovanni pareceu-lhe um homem honrado no qual se podia confiar. E era-o. Mas a vida ensinou-lhe depois duas coisas: nem sempre os homens que parecem honrados o são e nem sempre os homens honrados se podem dar ao luxo de proceder honradamente. Todavia, por muita sorte sua, a impulsiva decisão de contar o objectivo da sua viagem não teve, neste caso, quaisquer más consequências. Giovanni ficou durante muito tempo meditando em silêncio. Depois falou:

– Jovem, muito arriscastes em me terdes aberto o vosso coração. Agradeço-vos a confiança, mas dou-vos por conselho que, futuramente, sejais mais cuidadoso nas vossas confidências – mas logo, após breve pausa, acrescentou – mas compreendo, assassinado o vosso amigo judeu, estais na mais total escuridão. Lamento não vos poder ajudar de outro modo que não seja a de convosco cogitar, partindo dos poucos elementos de que dispondes. Permitis que veja o papel que esse livreiro vos deixou?

Tirou o papel da bolsa e entregou-o ao frade. Giovanni leu:

San Miguel. Igual em português e em castelhano, diferente em italiano e em francês. San Miguel – ficou pensativo – Uma igreja? -Depois, subitamente, o rosto esguio e pálido iluminou-se – e se não fosse uma igreja? Pode muito bem ser outra coisa, um barco, por exemplo – ficou em silêncio durante momentos – Lembro-me agora de que há uma nau comercial de Castela com esse nome. Sei-o porque vem com frequência a Veneza. Já tenho enviado e recebido livros e correspondência por ela transportados – e, acrescentou – a propósito de livros: haveis falado num livro que encontrastes junto do corpo. Dais licença que o veja?

O jovem tirou da bolsa o pequeno mas compacto códice. O beneditino pegou-lhe e, dado que o hebraico se escreve da direita para a esquerda, começou a consultá-lo, segundo pareceu a Lourenço, a partir da última folha. Ao cabo de ter folheado algumas páginas comentou:

– É uma súmula ou breviário, uma versão iluminada do Talmude de Jerusalém, uma espécie de código de conduta moral e religiosa para os hebreus, onde se recolhe também tudo aquilo que do saber tradicional das suas gentes eles não devem ignorar. A menos que haja algumas linhas ou páginas sublinhadas ou marcadas que vos possam fornecer qualquer ideia, não vejo como vos serão úteis estes textos, todos eles com mais de mil anos. Mas é um exemplar muito belo – o irmão Giovanni mirava o códice com o olhar brilhante e cobiçoso dos bibliófilos, que Lourenço tão bem conhecia, pois seu pai e seu avô sofriam da mesma enfermidade, a tal que Brant consagrara no seu poema O Louco dos Livros. Aquela ideia das palavras ou linhas marcadas fora uma das primeiras que lhe tinham ocorrido e, por isso, na folheara já minuciosamente o livrinho encontrado junto do corpo do livreiro (embora de forma incorrecta, da esquerda para a direita, como se de um texto escrito em caracteres latinos se tratasse), buscando-lhe algum sublinhado, marca ou anotação à margem, qualquer outro papel escondido entre as folhas, nada tendo encontrado. Por isso logo o ofereceu ao beneditino que muito grato, mas ainda mais receoso, lhe lembrou que o livro pertencia aos herdeiros de Saul, caso os tivesse. Afastou-lhe tais pruridos. O livreiro afirmara-lhe não ter família a não ser em Lisboa.

Agarrara-se à ideia do frade como um náufrago se agarra a uma palha. E se San Miguel fosse um barco, a tal nau comercial de Castela? Tinha de voltar a Veneza. Por isso e porque o esperava o receoso barqueiro, recusou o convite de Giovanni para jantar no convento e agradeceu-lhe muito as informações e, sobretudo, a boa sugestão que lhe dera. Giovanni agradeceu-lhe o códice que apertava contra o coração, como coisa preciosa. Voltou à gôndola, onde o esperava um impaciente Caronte que, aliviado com o seu aparecimento, depressa o levou de regresso à Praça de São Marcos.

*

A história que o irmão Giovanni contara a sobre a amizade entre São Romualdo e o doge Pietro I Orseolo era interessante. Não a contei atrás para não quebrar o fio da narrativa (tendes apreciado bem como começo já a ganhar as manhas de um experimentado narrador?). Falei-vos já do grande incêndio que devastou Veneza em 976, durante o dogado de Pietro Candiano IV, um déspota cuja tirania levou o povo a revoltar-se e a incendiar o Palácio Ducal, assassinando o doge e um filho seu. Para suceder a Candiano, uma assembleia popular atrabiliariamente reunida elegeu Pietro Orseolo. Os motivos para essa eleição prender-se-iam com o facto de ter autorizado que incendiassem uma casa de sua propriedade para que dali o fogo chegasse ao Palácio Ducal, obrigando Candiano a sair do seu refúgio e a cair desse modo nas mãos dos seus executores. Terá sido, segundo a lenda que depois se foi compondo, a voz de San Pier Damiani, São Pedro Damião, que escutou a exortá-lo para que cedesse a casa aos revoltosos.

Orseolo era um homem de 48 anos, oriundo de uma família antiga e prestigiada e que se esforçou por restabelecer na República a paz interna e por reconstruir a parte central da cidade, destruída pelo incêndio. No anseio de manter a paz entre o povo e as famílias poderosas, terá negligenciado o processo judicial contra os assassinos de Candiano, nomeadamente contra Giovanni Gradenigo que se julgava ter sido um dos chefes da conjura contra o anterior doge. Na verdade, morto o tirano, persistiam como pessoas importantes muita gente do seu partido e que exigia que se fizesse justiça, insinuando que o novo doge sabia muita coisa sobre o assassínio, mas que se recusava a actuar porque Gradenigo era seu íntimo amigo.

A vida de Orseolo corria perigo, pois dizia-se por toda a cidade que os amigos de Candiano não tardariam a fazer justiça por suas mãos, matando-o a e a Gradenigo. Por isso, uma noite do princípio de Setembro de 978, levava dois anos de dogado, acompanhado por alguns amigos – o abade Guarino, o camaldulense Romualdo, Gradenigo e o seu general Giovanni Morosini, fugiram, dirigindo-se primeiro, pelo mar, na direcção de Santo Hilário e depois, montando cavalos, a caminho de Cuxa, na solidão dos Pirenéus. O doge, abandonou tudo – a mulher, os filhos e o poder, levando consigo um tesouro para o mosteiro de San Michele de Cuxa, mas deixando uma avultada importância de mil libras de ouro, destinada aos pobres e para fazer face a algumas obras públicas em curso.

Orseolo não saiu mais do mosteiro, professando e envergando o hábito de São Benedito. Apesar da sua cobardia, a lenda nunca deixou de crescer em torno da sua figura. Terá morrido no exílio entre 982 e 997 já em cheiro de santidade. A mesma Veneza de que fugiu para não ser morto, reclama agora as suas relíquias e chama-lhe San Pietro Orseolo, antecipando-se à sua beatificação. Para justificar este desiderato, o povo não se cansa nunca de referir os seus muitos milagres.

Um dos filhos, Pietro como ele, viria, em 991, a ser eleito doge. Fora ao mosteiro de San Michelle de Cuxa visitar seu pai e este dissera-lhe, sempre inspirado por São Pedro Damião: «Tenho como certo, meu filho, que sereis doge e que vos ireis cobrir de glória», acrescentando um conselho – «governai com simplicidade e tende fé na Igreja de Cristo. Deveis ser sempre justo relativamente aos vossos súbditos, nunca agindo por ódio ou amor.» E a profecia cumpriu-se, – com cerca de trinta anos, Pietro Orseolo II foi eleito doge, vindo a presidir aos destinos da República durante dezoito anos.

– O estranho em toda esta lendária história – acrescentou travessamente o irmão Giovanni – é que São Pedro Damião nasceu em Ravena em 1007 e, portanto, seria pouco provável que a sua voz se tenha feito ouvir em Veneza quase quarenta anos antes de ter nascido. Em todo o caso, nestas coisas de santos, nunca se sabe…

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