Nessa tarde, após ter tomado o jantar na estalagem e ainda com muitas horas livres pela frente até à altura de fazer a sua incursão em território inimigo, Lourenço dirigiu-se ao porto, situado na já nossa conhecida Riva degliSchiavoni, para subir a bordo da Leeuwarden. O molhe de acostagem dos navios estrangeiros ficava logo depois da chamada Piazzeta, começando em frente ao Palácio Ducal e estando ligado a este por uma sólida ponte de madeira, a chamada Ponte della Paglia. Percorrendo, pelo fim da tarde, este curto trajecto a partir da nova estalagem, teve sempre o cuidado em verificar se não estaria a ser seguido, pois era de toda a conveniência que a sua ligação ao barco flamengo não fosse detectada pelos agentes inimigos. Para tal, parava de vez em quando, simulando apreciar as magnificas vistas que, em Veneza, de qualquer ponto onde estejam os olhos dos viandantes, podem ser colhidas. Por vezes, andou mesmo alguns passos em sentido inverso, como se passeasse sem qualquer rumo ou objectivo definidos. Deste modo, ficaria de frente para quem seguisse os seus passos e poderia ver se alguém parava ou tentava ocultar-se. Não viu nada que lhe levantasse suspeitas e, deste modo um pouco errático, chegou ao ponto onde estava ancorada a Leeuwarden.
Quando subiu ao convés, pôde verificar que havia poucos tripulantes no navio, pois a maioria deles encontrava-se em terra, gozando, de licença antes da partida marcada para quarta-feira à noite. Debruçado sobre a amurada, estava a recebê-lo um sorridente Julián, o seu amigo andaluz, que o saudou com entusiasmo e o abraçou efusivamente. Passado esse momento de manifestação de cordialidade e afecto, deu-lhe uma notícia inesperada – era agora, disse-lho com ar muito feliz, o contramestre do navio.
Van der Meer logo o recebeu na sua cabina, manifestando também uma grande cordialidade, mas mantendo sempre o seu ar contido e frio. Perguntou-lhe se queria beber algo, o que Lourenço recusou polidamente. Mandou-o depois sentar na sua frente e pediu-lhe que lhe narrasse tudo o que se tinha passado durante as suas diligências nos dois dias decorridos desde o seu desembarque. Escutou com toda a atenção o relato de tudo o que até então sucedera. Lourenço, estava muito empenhado em fazer uma exposição rigorosa, mas limitada ao essencial, expurgando do informe os pormenores que considerou irrelevantes, pois, como lhe dissera el-rei, «a asneira é sempre faladora.» Assim, contou-lhe a sua primeira ida à judiaria na véspera e as circunstâncias em que, nesse final de tarde, encontrara morto, degolado, assassinado, o livreiro Saul Navarro, bem como das grandes atribulações que passara para escapar aos alabardeiros do doge que, por certo, se o tivessem encontrado, o julgariam implicado na degolação do hebreu. Por lhe parecer um pormenor importante, não deixou Lourenço de referir também o pequeno papel encontrado, oculto sob as mãos do livreiro assassinado, tendo escritas as palavras San Miguel, e da sua presunção de que teria sido uma derradeira advertência que Navarro, antes de ser surpreendido pela morte, lhe deixara. Narrou como pensara tratar-se de uma alusão ao mosteiro de San Michele, onde fora desenhado por Fra Mauro o mapa que servira de matriz ao que os espias tinham roubado em Lisboa e que se procurava agora a todo o custo recuperar.
Falou-lhe da viagem à «ilha dos mortos» e de como, ajudado por um diligente monge do mosteiro beneditino, se inclinara depois muito a pensar que a mensagem do livreiro se referia mais provavelmente, não ao mosteiro em cujo scriptorium Fra Mauro desenhara o seu famoso planisfério, mas à nau castelhana onde viriam, quase seguramente, os compradores do mapa – a nau San Miguel que, como pudera já certificar-se, chegava ao fim dessa tarde a Veneza. Referiu o pequeno volume iluminado, em letras hebraicas, o Talmude de Jerusalém encontrado aos pés do morto, dizendo que, tendo verificado não conter qualquer mensagem, o oferecera ao prestimoso monge – Van der Meer abanou a cabeça, discordando da generosidade, mas não fazendo qualquer comentário. Dentro do espírito de concisão e economia de palavras a que se obrigara, não lhe falou, porém, da belíssima Elisabetta, dizendo apenas que subornara uma das criadas da casa para, sem para tal ter sido convidado, conseguir entrar no baile de máscaras que iria realizar-se essa noite no palácio do mercador e onde, segundo a indicação dada por Saul, a qual não pudera confirmar, iria ter lugar a transacção entre o agente veneziano e os castelhanos. E calou-se, dando por terminado o relatório.
Em resposta, Van der Meer disse saber quem era o mercador Piero Torriani. Além de ser pessoa ligada ao doge Agostino Barbarigo, dizia-se que mesmo seu sócio em obscuros negócios, e também homem de confiança do Conselho dos Dez, era conhecida, quase pública, a sua condição de agente de ligação entre a República e os reinos de Castela e Aragão. Possivelmente, os espiões que haviam roubado o mapa da Casa da Mina e da Guiné, tinham-no feito por incumbência de Torriani. O mercador veneziano não deveria ser estranho ao assassínio do livreiro. A esta conclusão Lourenço já chegara pela sua própria cabeça. Confirmou-lhe ainda que, segundo as informações de que dispunha, os homens de Castela iriam chegar ao fim da tarde a Veneza e, provavelmente, estariam prestes a receber o mapa, o que se ajustava ao raciocínio de Lourenço sobre a San Miguel, de cuja chegada o capitão disse também ter conhecimento. Concordou com o plano do jovem de ir ao baile dessa noite, pois era muito provável que os agentes dos reis Católicos ali fossem também recebidos. A incursão de Lourenço ao palácio Torriani era uma das poucas possibilidades que lhes restavam, agora que o livreiro judeu fora morto. Se esta arriscada diligência falhasse, pouco mais haveria fazer, concluiu com tom pesaroso.
Apressou-se, no entanto, com uma paternal solicitude, a recomendar a Lourenço que, caso não conseguisse obter resultados, fizesse do mesmo modo todos os possíveis para chegar ao barco antes do momento da partida. Ele o ajudaria em Lisboa a explicar perante el-rei o insucesso da missão. Afinal, bem vistas as coisas, que culpa tinha Lourenço ou ele próprio de que o único contacto que possuíam em Veneza tivesse sido assassinado? Lourenço agradeceu a oferta, esperando não ter de a aceitar. Na verdade, preferia morrer a falhar a sua missão e a regressar derrotado. O capitão perguntou-lhe ainda se precisava de mais dinheiro para comprar o disfarce ou para qualquer outra despesa não prevista. Respondeu que não, que, na entrevista da manhã de sexta-feira, o livreiro o provera de uma considerável quantia em moedas de ducados de ouro. Não referiu também as condições miseráveis da estalagem recomendada pelo flamengo e da mudança a que procedera, transferindo-se para outra albergaria. Se acolheu estas palavras como uma velada censura do jovem pelo pouco dinheiro que lhe dera e pela suja hospedaria que lhe recomendara, o capitão não o demonstrou, limitando-se a esboçar um leve sorriso.
À despedida, num tom de irónica brincadeira, nele tão invulgar, quebrando o seu habitual ar austero, Van der Meer perguntou-lhe que disfarce iria escolher para a sua ida ao baile dessa noite. O rapaz disse que ainda não sabia. Iria a um adelo e logo se veria o que ali iria encontrar. Teria de ser coisa barata, pois, embora com a bolsa mais folgada, não dispunha de dinheiro para desbaratar. Sorrindo, o capitão sugeriu-lhe que comprasse um disfarce de sultão turco, pois era uma máscara vistosa, bonita sem ser demasiado dispendiosa. Lourenço afirmou-lhe que iria muito provavelmente seguir o seu conselho. O flamengo, logo recuperando o seu habitual ar grave e fleumático, recordou-lhe ainda, mais uma vez, que teria de partir na quarta-feira antes da meia-noite e que, portanto, até lá o rapaz deveria resolver o problema. A não ser assim, correria o risco de ficar em Veneza entregue à sua sorte, pois a carraca não poderia atrasar a saída sob pena de levantar suspeitas, para mais se Lourenço tivesse êxito e quando se soubesse que o mapa fora subtraído às mãos dos Venezianos. Repetiu que mais valia regressar ao barco antes da partida e sem o mapa do que recuperá-lo e ficar em Veneza, onde, por certo, lhe dariam impiedosa caça e acabariam por encontrá-lo e voltar a roubar o mapa. E todo o seu esforço seria inútil. Lourenço prometeu ponderar essa possibilidade, caso as coisas não corressem bem. Antes de sair da carraca, ainda comentou com Julián, que veio encontrar junto da amurada, o facto de não ter visto a bordo o «terrível» mouro Muhammad. E perguntou-lhe o que seria feito dele?
Ninguém sabe, desapareceu! – Julián fez um gesto, como se o mouro se tivesse evolado no ar – ninguém pareceu muito preocupado com o desaparecimento. Lourenço lamentou não ter ocasião de, senão falar, coisa que parecia não ser possível, pelo menos ver o muçulmano que tão corajosamente se comportara.
Nessa tarde, após ter tomado o jantar na estalagem e ainda com muitas horas livres pela frente até à altura de fazer a sua incursão em território inimigo, Lourenço dirigiu-se ao porto, situado na já nossa conhecida Riva degliSchiavoni, para subir a bordo da Leeuwarden. O molhe de acostagem dos navios estrangeiros ficava logo depois da chamada Piazzeta, começando em frente ao Palácio Ducal e estando ligado a este por uma sólida ponte de madeira, a chamada Ponte della Paglia. Percorrendo, pelo fim da tarde, este curto trajecto a partir da nova estalagem, teve sempre o cuidado em verificar se não estaria a ser seguido, pois era de toda a conveniência que a sua ligação ao barco flamengo não fosse detectada pelos agentes inimigos. Para tal, parava de vez em quando, simulando apreciar as magnificas vistas que, em Veneza, de qualquer ponto onde estejam os olhos dos viandantes, podem ser colhidas. Por vezes, andou mesmo alguns passos em sentido inverso, como se passeasse sem qualquer rumo ou objectivo definidos. Deste modo, ficaria de frente para quem seguisse os seus passos e poderia ver se alguém parava ou tentava ocultar-se. Não viu nada que lhe levantasse suspeitas e, deste modo um pouco errático, chegou ao ponto onde estava ancorada a Leeuwarden.
Quando subiu ao convés, pôde verificar que havia poucos tripulantes no navio, pois a maioria deles encontrava-se em terra, gozando, de licença antes da partida marcada para quarta-feira à noite. Debruçado sobre a amurada, estava a recebê-lo um sorridente Julián, o seu amigo andaluz, que o saudou com entusiasmo e o abraçou efusivamente. Passado esse momento de manifestação de cordialidade e afecto, deu-lhe uma notícia inesperada – era agora, disse-lho com ar muito feliz, o contramestre do navio.
Van der Meer logo o recebeu na sua cabina, manifestando também uma grande cordialidade, mas mantendo sempre o seu ar contido e frio. Perguntou-lhe se queria beber algo, o que Lourenço recusou polidamente. Mandou-o depois sentar na sua frente e pediu-lhe que lhe narrasse tudo o que se tinha passado durante as suas diligências nos dois dias decorridos desde o seu desembarque. Escutou com toda a atenção o relato de tudo o que até então sucedera. Lourenço, estava muito empenhado em fazer uma exposição rigorosa, mas limitada ao essencial, expurgando do informe os pormenores que considerou irrelevantes, pois, como lhe dissera el-rei, «a asneira é sempre faladora.» Assim, contou-lhe a sua primeira ida à judiaria na véspera e as circunstâncias em que, nesse final de tarde, encontrara morto, degolado, assassinado, o livreiro Saul Navarro, bem como das grandes atribulações que passara para escapar aos alabardeiros do doge que, por certo, se o tivessem encontrado, o julgariam implicado na degolação do hebreu. Por lhe parecer um pormenor importante, não deixou Lourenço de referir também o pequeno papel encontrado, oculto sob as mãos do livreiro assassinado, tendo escritas as palavras San Miguel, e da sua presunção de que teria sido uma derradeira advertência que Navarro, antes de ser surpreendido pela morte, lhe deixara. Narrou como pensara tratar-se de uma alusão ao mosteiro de San Michele, onde fora desenhado por Fra Mauro o mapa que servira de matriz ao que os espias tinham roubado em Lisboa e que se procurava agora a todo o custo recuperar.
Falou-lhe da viagem à «ilha dos mortos» e de como, ajudado por um diligente monge do mosteiro beneditino, se inclinara depois muito a pensar que a mensagem do livreiro se referia mais provavelmente, não ao mosteiro em cujo scriptorium Fra Mauro desenhara o seu famoso planisfério, mas à nau castelhana onde viriam, quase seguramente, os compradores do mapa – a nau San Miguel que, como pudera já certificar-se, chegava ao fim dessa tarde a Veneza. Referiu o pequeno volume iluminado, em letras hebraicas, o Talmude de Jerusalém encontrado aos pés do morto, dizendo que, tendo verificado não conter qualquer mensagem, o oferecera ao prestimoso monge – Van der Meer abanou a cabeça, discordando da generosidade, mas não fazendo qualquer comentário. Dentro do espírito de concisão e economia de palavras a que se obrigara, não lhe falou, porém, da belíssima Elisabetta, dizendo apenas que subornara uma das criadas da casa para, sem para tal ter sido convidado, conseguir entrar no baile de máscaras que iria realizar-se essa noite no palácio do mercador e onde, segundo a indicação dada por Saul, a qual não pudera confirmar, iria ter lugar a transacção entre o agente veneziano e os castelhanos. E calou-se, dando por terminado o relatório.
Em resposta, Van der Meer disse saber quem era o mercador Piero Torriani. Além de ser pessoa ligada ao doge Agostino Barbarigo, dizia-se que mesmo seu sócio em obscuros negócios, e também homem de confiança do Conselho dos Dez, era conhecida, quase pública, a sua condição de agente de ligação entre a República e os reinos de Castela e Aragão. Possivelmente, os espiões que haviam roubado o mapa da Casa da Mina e da Guiné, tinham-no feito por incumbência de Torriani. O mercador veneziano não deveria ser estranho ao assassínio do livreiro. A esta conclusão Lourenço já chegara pela sua própria cabeça. Confirmou-lhe ainda que, segundo as informações de que dispunha, os homens de Castela iriam chegar ao fim da tarde a Veneza e, provavelmente, estariam prestes a receber o mapa, o que se ajustava ao raciocínio de Lourenço sobre a San Miguel, de cuja chegada o capitão disse também ter conhecimento. Concordou com o plano do jovem de ir ao baile dessa noite, pois era muito provável que os agentes dos reis Católicos ali fossem também recebidos. A incursão de Lourenço ao palácio Torriani era uma das poucas possibilidades que lhes restavam, agora que o livreiro judeu fora morto. Se esta arriscada diligência falhasse, pouco mais haveria fazer, concluiu com tom pesaroso.
Apressou-se, no entanto, com uma paternal solicitude, a recomendar a Lourenço que, caso não conseguisse obter resultados, fizesse do mesmo modo todos os possíveis para chegar ao barco antes do momento da partida. Ele o ajudaria em Lisboa a explicar perante el-rei o insucesso da missão. Afinal, bem vistas as coisas, que culpa tinha Lourenço ou ele próprio de que o único contacto que possuíam em Veneza tivesse sido assassinado? Lourenço agradeceu a oferta, esperando não ter de a aceitar. Na verdade, preferia morrer a falhar a sua missão e a regressar derrotado. O capitão perguntou-lhe ainda se precisava de mais dinheiro para comprar o disfarce ou para qualquer outra despesa não prevista. Respondeu que não, que, na entrevista da manhã de sexta-feira, o livreiro o provera de uma considerável quantia em moedas de ducados de ouro. Não referiu também as condições miseráveis da estalagem recomendada pelo flamengo e da mudança a que procedera, transferindo-se para outra albergaria. Se acolheu estas palavras como uma velada censura do jovem pelo pouco dinheiro que lhe dera e pela suja hospedaria que lhe recomendara, o capitão não o demonstrou, limitando-se a esboçar um leve sorriso.
À despedida, num tom de irónica brincadeira, nele tão invulgar, quebrando o seu habitual ar austero, Van der Meer perguntou-lhe que disfarce iria escolher para a sua ida ao baile dessa noite. O rapaz disse que ainda não sabia. Iria a um adelo e logo se veria o que ali iria encontrar. Teria de ser coisa barata, pois, embora com a bolsa mais folgada, não dispunha de dinheiro para desbaratar. Sorrindo, o capitão sugeriu-lhe que comprasse um disfarce de sultão turco, pois era uma máscara vistosa, bonita sem ser demasiado dispendiosa. Lourenço afirmou-lhe que iria muito provavelmente seguir o seu conselho. O flamengo, logo recuperando o seu habitual ar grave e fleumático, recordou-lhe ainda, mais uma vez, que teria de partir na quarta-feira antes da meia-noite e que, portanto, até lá o rapaz deveria resolver o problema. A não ser assim, correria o risco de ficar em Veneza entregue à sua sorte, pois a carraca não poderia atrasar a saída sob pena de levantar suspeitas, para mais se Lourenço tivesse êxito e quando se soubesse que o mapa fora subtraído às mãos dos Venezianos. Repetiu que mais valia regressar ao barco antes da partida e sem o mapa do que recuperá-lo e ficar em Veneza, onde, por certo, lhe dariam impiedosa caça e acabariam por encontrá-lo e voltar a roubar o mapa. E todo o seu esforço seria inútil. Lourenço prometeu ponderar essa possibilidade, caso as coisas não corressem bem. Antes de sair da carraca, ainda comentou com Julián, que veio encontrar junto da amurada, o facto de não ter visto a bordo o «terrível» mouro Muhammad. E perguntou-lhe o que seria feito dele?
-Ninguém sabe, desapareceu! – Julián fez um gesto, como se o mouro se tivesse evolado no ar – ninguém pareceu muito preocupado com o desaparecimento. Lourenço lamentou não ter ocasião de, senão falar, coisa que parecia não ser possível, pelo menos ver o muçulmano que tão corajosamente se comportara.