EDITORIAL – No aniversário de Carmen Miranda

Imagem2Maria do Carmo Miranda da Cunha – assim se chamava aquela que, sob o nome de Carmen Miranda, foi uma das cantoras e actrizes, portuguesas ou de origem portuguesa, a obter fama mundial. Nasceu numa recôndita aldeia do concelho de Marco de Canaveses em 9 de Fevereiro do 1909 (faria hoje 108 anos – morreu nos Estados Unidos em 1955). Nas décadas de 30 a 50, trabalhou na rádio, na televisão, no cinema. Não sendo particularmente apreciada em Portugal, como aconteceu com Amália, cuja fama mundial se repercutia numa generalizada admiração que os portugueses lhe devotavam, admiração que percorria transversalmente classes sociais e níveis culturais diversos.

Os brasileiros, naturalmente, consideram-na brasileira. Nunca, no Portugal de Salazar em que viveria se a família não tivesse atravessado o Atlântico, como tantos portugueses faziam  por esses tempos, ela teria conseguido chegar a ser uma das mulheres mais ricas do mundo. Portugueses havia que, saídos das suas aldeias, viajavam de camioneta ou comboio até Leixões ou Lisboa, sendo depois metidos na terceira classe de transatlânticos que os levavam em tormentosas viagens até ao Rio,até Santos…

A maioria nunca tinha visitado Lisboa. Porto ou Coimbra. Olhavam deslumbrados as luzes da cidade brasileira onde iam desempenhar funções humildes. E os brasileiros passaram, na sua generalidade, a considerar aquela gente analfabeta, beata e campesina, como «os portugueses» – «português é burro», foi  axioma enquistado na mentalidade brasileira – um dado adquirido. Muitos  brasileiros lamentam que os holandeses tenham sido vencidos e expulsos – entendem  que uma colonização levada a cabo pelas Províncias Unidas, teria produzido um Brasil mais avançado culturalmente – a esses, pedimos que ponham os olhos na Indonésia – rica em recursos, mas com índices de desenvolvimento paupérrimos.

Apesar de burros, os portugueses conseguiram têmelhores resultados no Brasil. E, habituados a insultos como a tonta Maitê Proença, uma atrizeca de novelas, se permitiu vir fazer em Lisboa, é compensador ler um texto de uma Professora universitária brasileira, a Doutora Ruth Banus. Transcrevemos parcialmente: Sou incuravelmente grata e otimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui[…]Não estou dizendo que Portugal seja perfeito. Nenhum lugar é. Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém.[…]Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.[…]o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses. Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém. Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata. Os ingleses aprenderiam tudo do zero. Bacalhau e pastel de nata? Não. Estamos falando de muito mais. Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles.[…]Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam.  Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil.[…]O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e a afeto que têm os portugueses.[…]Os portugueses- de direita ou de esquerda- não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam.Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos. Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afeto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma, inconsciente.[…]O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses -embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse país do que costumam ter. Portugal usa suas melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las.A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.[…]Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal. Essa sorte, pelo menos, nós brasileiros tivemos.

 

1 Comment

  1. Assino tudo que a Doutora Ruth Banus escreveu. E acrescento: temos ainda a noss língua, a bela língua portuguesa. E aqui envio um caloroso abraço aos meus amigos portugueses. E a Portugal!
    Rachel Gutiérrez

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