O MAPA (A saga do anadel/71) – Uma festa agitada – por Carlos Loures

 

A entrada do doge transformara o bulício do salão num quase total silêncio. Alguém ordenara que os músicos deixassem de tocar. Escutavam-se sussurros, murmúrios de admiração que se iam produzindo à passagem da personagem por entre as alas de convidados que se abriam, como as águas do Mar Vermelho à passagem do povo de Moisés. Encaminhava-se para o centro da sala, onde os anfitriões o esperavam sorridentes e de braços estendidos num gesto de boas-vindas, de gratidão por tão enobrecedora presença. Caminhava para eles, direito, hierático, com passos curtos e com uma expressão de afabilidade, com sorrisos e leves curvaturas de cabeça distribuídos para a esquerda e para a direita daquele mar de gente poderosa e rica, abençoando uma festa de um profano mundanismo, com a postura solene de um papa consagrando um acto de grande significado espiritual.

De repente, este vazio cerimonial foi interrompido. Ouviram-se gritos estridentes de mulheres e graves exclamações masculinas. Correrias, escanos e cadeiras derrubados, louça partida e muita confusão. A maioria dos convidados não sabia o que se passava, mas nem por isso deixava de gritar e gesticular. O doge ficara no meio do seu percurso triunfal, isolado, imóvel como uma estátua de pedra, não compreendendo o motivo pelo qual deixara de ser o merecido foco de todas as atenções. Ao cabo de momentos, uma notícia voou como negra ave, de uma ponta a outra da sala: escondido num canto, sob uma mesa de iguarias coberta por uma toalha que a cobria até aos pés, alguém, vendo um estranho fio que parecia ser de sangue surgindo por debaixo, tivera a curiosidade de erguer a toalha, encontrando o corpo de um homem, com uma adaga cravada nas costas até ao punho. Um físico presente, acorrera e, curvando-se sobre o homem, confirmara que nada havia a fazer por aquele corpo que fora já abandonado pela alma. Outro sábio, veio apoiar o diagnóstico do primeiro, acrescentando que o cadáver estava ainda quente, pelo que o assassínio não deveria ter tido lugar muito tempo antes.

Quase todos os convidados, movidos por mórbida curiosidade, acorreram ao local, acotovelando-se para poder ver o cadáver estendido. O punhal fora retirado e o corpo voltado para cima. Quando se apercebeu do que se passara, Lourenço, furando entre os curiosos, chegou-se à frente. O morto era um homem idoso, alto e magro. Alguém disse que era um comerciante que revendia mercadorias importadas por Torriani. No ar pairou alguma frustração, pois reinara na sala a esperança de que o assassinado fosse alguém, criando numa festa, luzida mas vulgar, um facto memorável. Lourenço observou com apreensiva surpresa que o homem estava mascarado de sultão otomano, com um disfarce quase igual ao seu. Interrogou-se se não seria ele o alvo do punhal e a resposta que deu à incómoda interrogação, não lhe agradou – provavelmente, teriam sido as suas costas, o alvo escolhido e errado pelo punhal. Desde que chegara a Veneza, houvera já dois assassínios e não podia deixar de pensar que ambos os crimes estavam relacionados, cruzando-se no mesmo ponto – o mapa. Após ter observado o corpo, afastou-se do círculo de pessoas que, comentando o sucedido, se amontoara em torno do cadáver. Alguns convidados foram ao em busca dos guardas, mas a festa ia continuar, tanto mais que, tirada a máscara se viu que o morto não era ninguém importante. Desta vez, pensou Lourenço, não houvera degolação, mas sim uma punhalada desferida por mão firme. Havia, pois, mais do que um assassino.

Todas as atenções se voltaram de novo para o doge que ficara imóvel no mesmo lugar, como que suspenso no espaço e no tempo, esperando o desenlace daquela despropositada interrupção e pôde finalmente completar a sua triunfal caminhada até junto do casal Torriani, cujos rostos beijou com unção, sendo por ambos também carinhosamente beijado. Elisabetta abandonara o seu grupo de jovens e viera com passos rápidos e graciosos juntar-se aos pais na recepção. Aproveitando este momento em que todos os rostos estavam de novo voltados para o centro do salão, Lourenço foi de novo até à cozinha em busca da criada Giuliana. Voltou a não a encontrar. Resolveu arriscar e perguntou por ela a uma das cozinheiras, uma matrona idosa. Apesar do seu mau italiano, ajudado pelos sinais que deu e pelo nome que pronunciou repetidamente, a mulher acabou por compreender tratar-se da criada privada da menina. Falando com temor, informou-o de que a serva saíra logo após o começo do baIle, pois um irmão a viera buscar de urgência, devido a doença súbita da mãe. Teriam partido em mulas para uma aldeia próxima de Mestre, pois a senhora estaria às portas da morte. Não acreditou. Suspeitou que a rapariga, talvez, ameaçada, acabara por o denunciar, o que, em todo o caso, não explicava a morte do mercador, pois Giuliana não sabia que máscara escolhera. No salão, o doge retomava a sua condição de protagonista e de alvo de todos os olhares. O morto, imerecido usurpador dessa atenção, fora empurrado para um canto, tapado com uma manta, como coisa susceptível de ferir a sensibilidade dos convidados e até de lhes tirar o apetite. Os sicários de Torriani, talvez os que o tinham assassinado, vieram pouco depois, e, bem enrolado na manta, o corpo fora levado para o jardim das traseiras onde aguardaria que os guardas do doge o viessem buscar. O incidente foi esquecido.

Tinha mais um problema pela frente – precisava de desaparecer, sem deixar de estar presente, pois a sua tarefa não fora sequer iniciada. Na cozinha, nunca deixando de trabalhar, os cozinheiros e criados ainda comentavam a morte do mascarado de turco (Proprio come questo signore! – disse, vendo-o passar, um servo apontando-o). Este comentário assustou-o. Não podia perder tempo. Tinha de começar imediatamente a solucionar o problema, pois atrasar-se, podia estabelecer a diferença entre o continuar vivo ou seguir o exemplo do outro turco, deixando-se apunhalar. Saindo da cozinha, encontrou uma pequena porta à direita do escuro e estreito corredor que a ligava à zona nobre da residência, caminho pelo qual se fazia o intenso trânsito dos criados, abastecendo de vitualhas e de bebidas, o grande salão, cheio de uma multidão de mascarados, faminta e sequiosa. Abrindo a porta, verificou tratar-se de uma arrecadação construída sob o vão da escadaria central que, situada no extremo do salão oposto à entrada principal, conduzia, em dois lances de degraus de mármore ladeados pelas figuras de bronze de guerreiros, aos andares superiores do palacete.

Entrou no reduzido cubículo, fechando a porta atrás de si. Era um compartimento onde se armazenavam grandes quantidades de produtos alimentares, arrumados em filas de prateleiras, estando iluminado por uma candeia de azeite. O sultão tinha de desaparecer. Rapidamente, disfarçou o disfarce. Atirou com a máscara de turco para detrás de uns cestos, retirou da cabeça a faixa verde, enrolando-o à cintura, desfez-se do alfange, dobrando-o, reduzindo-o a um pequeno volume e escondendo-o também. Cobriu-se com a capa e voltou a ocultar o rosto com o capuz. Tomado este cuidado, saiu da arrecadação e, curvado, procurando diminuir a estatura e passar despercebido, foi até a uma salinha contígua ao salão principal. Cruzou-se com criados que transportavam bandejas repletas e não repararam nele. Num canto pouco iluminado da antecâmara, à direita da porta que vinha do corredor da cozinha, perto de uma chaminé apagada, estava um convidado que, estendido sobre um coxim de couro, dormia, ressonando. Aproveitando um momento em que ninguém passava, roubou-lhe o barrete vermelho, com diversas pontas com guizos, o toucado de um bobo que o bêbedo deixara descair sobre a testa, e uma mascarilha, também de seda vermelha, rodeada de folhos que lhe cobriam todo o rosto. Se, tendo entretanto dado pelo engano, os assassinos procuravam um outro turco para abater, já não o iriam localizar. Tinha esperança de antes da meia-noite, quando teria de retirar a mascarilha, estar já longe do palácio.

 Conseguiu, passando despercebido, o que já tentara um pouco antes da confusão provocada pelo macabro achado se ter instalado no salão – chegar junto da filha do anfitrião que tendo dado as boas-vindas ao doge, se afastou dos pais, deixando-os com Barbarigo e com os convidados estrangeiros que eram agora apresentados ao magistrado. Acercou-se e interpelou-a, tocando-lhe um braço com a ponta dos dedos. A jovem estacou, olhando espantada para aquele mascarado não se percebia bem de quê, tal a mistura das suas coloridas roupas. Decidiu correr o risco de se dar a conhecer e de trocar com ela breves palavras. Ao cabo de algumas frases balbuciadas no seu deficiente italiano, naquele mascarado talvez de bufão, a jovem logrou então identificar o galante estrangeiro da véspera. Aflita, respondendo-lhe em francês, rogou-lhe que fugisse, pois, por conversas escutadas, sabia que os sicários do pai o queriam eliminar. Giuliana fora forçada a denunciá-lo, sob ameaça. Vindo não sabia de onde, Torriani, chegara ao palácio pouco antes da festa começar, Vinha nervoso e agitado, mandando reunir na cozinha as criadas mais novas. Declarou-lhes saber que uma delas iria introduzir secretamente um jovem estrangeiro, provavelmente mascarado de turco. Disse saber qual delas era, mas que lhe dava uma oportunidade para confessar. Se o fizesse de motu proprio, seria perdoada. Se não, todas seriam punidas. As raparigas ficaram em pânico, pois, naquela casa, por punição muitas coisas podiam ser entendidas. A própria morte era hipótese a colocar. Perante as jovens alinhadas, Torriani desfilara olhando o rosto de cada uma com expressão aterradora, prenhe de ameaças. Quando chegara a vez de Giuliana enfrentar o patrão, a pobre rapariga não aguentara a pressão do seu terror e caíra de joelhos, pedindo perdão. Dizia-se que, após a confissão, fora esbofeteada. Elisabetta tentara interceder pela sua criada preferida, mas o pai garantindo que, além de ser despedida, nada de mal sucederia à rapariga, impedira-a de prosseguir. Porém, conhecedora dos métodos habituais, temia que tivesse acontecido coisa pior à pobre serva do que um par de bofetadas e o despedimento. Elisabetta estava aterrorizada e convencida de que o jovem estrangeiro estava a correr aqueles riscos por estar enamorado dela. Por sua mãe soubera que o plano de Torriani, seria o de deixar entrar o turco pela porta do jardim e, caído na rede, eliminá-lo e atirá-lo depois às águas do canal. Quando o cadáver fora encontrado ficara horrorizada, sentindo-se aliviada quando descobriram o rosto do morto e pôde verificar que não se tratava de Lourenço. Tentara encontrar outro turco para o avisar, mas não conseguira.

No centro da sala, Torriani, conversando com o doge e com os três estrangeiros, a esposa, e mais alguns convidados importantes que se tinham juntado ao grupo, vendo a filha a falar com um mascarado que não identificou, não conseguindo escutar aquilo que diziam, embora continuasse a rir a contar histórias, provocando gargalhadas aos ouvintes, entre os quais se incluía agora Barbarigo, olhava com um ar interrogativo. Dera mesmo uma discreta cotovelada à esposa tentando que ela lhe esclarecesse o mistério do desconhecido que falava com a filha. Torriani gostava de saber tudo o que se passava em sua casa. Lourenço apercebeu-se desses interrogativos olhares que significavam perigo. O diálogo com Elisabetta tinha de terminar. Fazendo uma vénia de despedida, prometeu à jovem que sairia do palácio tão depressa quanto possível. Promessa que tencionava cumprir, pois não estaria naquele lugar nem mais um minuto além do necessário. Tão depressa quanto possível não significava imediatamente.

*

Rex in purpura, senator in curia, in urbe captivus, extra urbem privatus – assim se caracterizava numa sentença veneziana a posição institucional dos doges. Agostino Barbarigo enquadrava-se de forma perfeita na definição, usando os trajes ducais com solene majestade e, dizia-se em segredo, utilizando o poder que lhe era conferido para aumentar a imensa fortuna pessoal. A morte do seu único filho, que ocorrera há pouco tempo – ao qual constou estar Elisabetta Torriani destinada como esposa, selando com laços familiares as relações entre os dois homens – e, em sinal de desgosto, a longa barba encanecida que desde então usava, ajudavam a manter essa imagem de impoluta seriedade que convinha à função, mas que a bem poucos convencia, pois não passaria, sempre segundo as tais más-línguas, de um bonito cesto para podrida fruta. Dizia-se por toda a parte, nunca perdia uma oportunidade para usar a púrpura ducal em benefício do interesse privado. Não seria, portanto, tão cativo da urbe quanto a sentença ditava. Por outro lado, o anátema lançado pelo, anterior doge, o seu irmão, que o acusara em pleno Senado de ter realizado torpes manobras para lhe suceder na cátedra, estava presente nas memórias dos Venezianos.

Em Veneza, por um lado condenava-se a corrupção, mas por outro louvava-se a agilidade e a astúcia comerciais. Uma coisa e outra estavam divididas por uma ténue fronteira, sendo uma oscilante balança com dois pratos a que regulava a opinião pública. O prestígio de Agostino, abalado pela má reputação de que vinha precedido e pela luta surda que as velhas famílias lhe moviam, aumentou quando, em 1489, Caterina Cornaro, ex-rainha da ilha de Chipre, mas «filha da República», pois ali nascera, dama que perdera o filho e depois o marido, viera para a sua Veneza natal. Comentava-se que, fragilizada pelas perdas, fora manipulada por enviados de Agostino e por eles convencida a ceder o governo da sua ilha à Republica. Em um de Junho desse ano, Caterina chegou à cidade a bordo de uma galé veneziana, Barbarigo foi recebê-la, à frente de todo o Senado, a San Nicolo di Lido, acompanhando-a ao Palácio Ducal, num vistoso cortejo de numerosas e engalanadas embarcações. Em troca da cedência, a ex-rainha cipriota recebeu uma pensão anual de oito mil ducados, um palácio no Canal Grande, além do feudo de Asolo. Em Veneza tudo se vendia, tudo se comprava e quase tudo se pagava. E a transacção transformou-se num triunfo pessoal do doge, pois a forma espectacular como recebera a «ilustre filha da República», ajudara o engrandecimento da sua imagem.

Este, em retrato de corpo inteiro, era o homem que em vez do disfarce imposto por Torriani aos convidados entrara ali com os solenes trajes dogais e rodeado da pompa inerente à sua dignidade de supremo magistrado do Estado. Chegara ao salão do Palácio Torriani, causando a sua entrada um murmúrio de veneração, misturado com um ou outro comentário mais mordaz sobre as ligações pouco claras existentes entre o doge e o rico comerciante, estando este último tão ligado aos interesses dos reis de Castela e Aragão. Alguém ciciara também, em voz muito baixa, mas provocando sorrisos aos poucos que o escutaram, que afinal Agostino Barbarigo também não quisera deixar de vir mascarado. E perante os olhares interrogativos dos que o cercavam, acrescentou: «Vem mascarado de doge». O gracioso, não era, por certo, homem em que a prudência fosse a maior qualidade, pois corria riscos pelo prémio dos discretos sorrisos que o seu comentário arrancou àqueles que o ouviam. Os olhos e os ouvidos do doge estavam por toda a parte; por vezes onde menos se esperava.

Entretanto, junto do grupo presidido pelo doge e por Torriani, um homem jovem, alto e também mascarado, acercou-se e, pedindo desculpa por interromper, veio sussurrar uma mensagem aos ouvidos do anfitrião. Este, fazendo uma vénia de despedida a Agostino e aos outros membros do reduzido grupo, afastou-se, subindo a escada de mármore que conduzia ao andar superior e arrastando pelos degraus o veludo púrpura da sua longa capa de centurião. Os três estrangeiros seguiram-no bem como o esguio «pescador» que o viera chamar, provavelmente um secretário. Havia, por certo, negócios mui importantes a resolver. Seria a venda do mapa? Lourenço, que tudo observara, preparou-se para seguir o mercador. Segundo tudo o indicava, chegara o momento decisivo.

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