EDITORIAL – Estados artificiais

O Romantismo que dominou o século XIX, sobretudo no campo da arte e da literatura, teve reflexos na política – o modelo de organização. Não temos feito segredo de que uma das causas que defendemos é a da extinção do estados plurinacionais, com as excepções que a realidade de cada caso determine. Porque, embora correspondendo a um modelo mais ou menos padronizado, nem todos os estados que se constituíram por essa época, pressupuseram violência exercida por uma nacionalidade sobre outra ou outras. Enquanto o Império Austro-Húngaro, formado em 1867, significou a sujeição dos húngaros aos ditames de Viena, tal como o Império Alemão (1871), colocou grande parte dos povos germânicos sob a tutela da Prússia, a unificação de Itália (1861) correspondeu a uma ambição de muitos intelectuais e mesmo de uma grande parte dos povos – a unificação fez-se em sintonia com a grande identificação cultural que, desde há muito, existia entre os diferentes povos ítalos.

O caso que mais nos interessa é o do Estado espanhol – formado de jure em 1812, nas Cortes de  Cádis, existia de facto desde que o casamento de Isabel, herdeira do trono de Castela, casou com Fernando, monarca de Aragão (1469) e constituíram uma unidade dinástica, uma coroa dual, que se tem mantido até aos dias de hoje. O topónimo “Espanha”, mais não é do que o resultado de uma evolução ortográfica que a partir da toponímia fenício-cartaginesa, na transliteração para o latim, deu Hispania, España, Espanya em catalão, Espanha, em português (aqui ainda durou bastante tempo  a grafia Hespanha a que o Acordo Ortográfico de 1911 pós termo.

Não queremos irritar o argonauta Leça da Veiga, mas a afirmação sustentada por Camões e Almeida Garrett (e por Menéndez Pidal) é correcta – os portugueses são espanhóis. E isso não pressupõe qualquer acto de submissão a Madrid   – a designação  de Espanha para Castela e para as regiões governadas pelo centralismo castelhano é que é abusiva. O Estado espanhol, ao contrário do que aconteceu em Itália, que se unificou em torno do  dialecto florentino e de uma herança comum . Dante, Petrarca, Da Vinci, Verdi,  a unidade «espanhola» foi constituída com base na prepotência castelhana – impôs o seu idioma como «oficial», tentou destruir o galego, transformando-o num dialecto do castelhano e procura amalgamar identidades, culturas, idiomas, espanhóis, no sentido lato, mas não na acepção que o centralismo de Madrid pretende.

Temos a convicção de que a Catalunha optará pela separação. Pensa-se que 80% dos catalães a desejam. Oxalá a dignidade  de um povo pese mais do que os cálculos de uma minoria que faz contas ao mercado que irá perder.

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