Passa hoje o 30º aniversário da morte de José Afonso. Não terá havido na história da música popular portuguesa do século XX figura comparável à do Zeca. Talvez, no plano estritamente musical, possamos dizer que Amália Rodrigues atingiu um patamar de excelência igualmente notável, quer pelo virtuosismo da sua capacidade interpretativa, quer pelo eco internacional que provocou. Mas José Afonso transcendeu o plano musical e a sua obra eleva-o à dimensão de personagem histórica. Não será necessário explicar porquê – basta que se diga que no complexo xadrez, na confluência de factores que permitiram derrubar uma ditadura que se preparava para se perpetuar sob a forma de uma «transição pacífica» para uma «democracia moderada», como aconteceu no Estado vizinho, o Zeca, a sua música, o seu exemplo, «avisaram a malta» e trinta anos depois de emudecida a sua voz, ela continua a ser um catalisador do nosso descontentamento. Porque, por outras portas, a «democracia moderada», ou seja, o capitalismo selvagem, acabaram por aqui entrar. E, por isso, mais do que nunca, a voz do Zeca permanece como um despertador de consciências e como o aviso de que a democracia não é moderada nem imoderada, mas o simples cumprimento daquilo que diz ser – governo do povo.
Não vamos referir-nos à questão a que temos dedicado a nossa atenção – a da autoria a letra de Cantar alentejano. Reafirmamos que, quer o Zeca, quer o António Vicente Campinas, seriam incapazes de se apoderar de um trabalho alheio. Seria importante esclarecer se estamos perante uma teia de equívocos ou em face de uma acção premeditada para denegrir o Zeca. Tarefa que a Associação José Afonso, a que preside Francisco Fanhais, cantautor de grande valor e amigo do Zeca, e a SPA, dirigida por gente honesta, tirarão a limpo.
Hoje lembramos que continua a ser necessário avisar a malta,