CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – MONARKIAS

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Vocês desculpem-me, mas eu adoro as monarquias. São giras, são vistosas, são genuína e lapalissemente reais. Coloridas. Folclóricas e sempre cheias de povo à volta (cada vez menos, é assim infelizmente: só minorias são esclarecidas) há um fulgor, há uma dinâmica nelas, nas monarquias, que nenhuma pobre e cinzenta república jamais poderá igualar .

Onde é que uma república tem príncipes e princesas? E infantes e infantas? Infantas que se casam com plebeus, infantes que se casam com plebeias? Ou mesmo uns com os zoutros, sem problemas de maior?

Nada, nem o Walt Disney alguma vez conseguiria jamais igualar tal esplendor, alegria e felicidade realmente reais.

Há no entanto em mim dúvidas, angústias. Uma dor. Como simples e humilde plebeu que sou, ele há certas coisas, certas realidades reais que me escapam, acerca do maravilhoso quotidiano de um reinar.

Já imaginaram? Levantam-se e vão logo reinar, possivelmente das nove às cinco ou coisa no género, com intervalo para almoço enfim, não tenho certezas,  em vez de irem para a repartição encher-se de tédio, ou para os campos encher-se de pó, como o resto do reino.

Mas a minha dúvida (e angústia e dor) prende-se-me mais com o desconhecimento do que é que eles fazem, como se comportam, que hábitos cultivam. A minha ignorância é justa, sabendo embora que não devo aspirar a mais, estou aqui para os adorar, vê-los à janela real ou aplaudi-los na rua uma vez por outra, assistir-lhes à missa um Domingo por outro e por aí fora. Não tenho que me imiscuir, ou perceber para que é que eles servem – a minha condição de servo não mo permite.

É verdade. Mas a minha curiosidade (que me perdoem, tantum como outra, tantum verde como tantum rosa) é enorme, palpável, mesmo insubmissa e ansiosa, ainda que que mansa e vegetal.

Lavar-se-ão eles por baixo, como todos nós? Terão servos competentes e adequados que lhes esfregam o dorso e lhes limpam as costas?

Terão despertador, resmungarão quando são acordados? Ou acordam e levantam-se quando lhes dá jeito?

E o pequeno almoço? Se-lhes-á servido no leito, ou pelo contrário, irão eles à real cozinha fazer reais torradas e aquecer café de véspera?

Darão traques?

Ou libertá-los-ão?

E quando fornicam, estarão eles já a pensar no importante e sucessor herdeiro, ou fazem aquilo como qualquer pessoa, ainda que com evidente maior decoro e púdicia?

E (já agora) porquê o aspecto enjoado e dispéptico do abnegado e abdicado Juan Carlos?

Não sabemos. Só sabemos que nada sabemos. Uma coisa que também me complica com o simpático, que me induz de novo numa dúvida política e perene, é se haverá reis de Esquerda e reis de Direita. Se os reis de Esquerda, aparentemente (a existirem) aplaudirão as justas greves das criadas graves, dos mordomos rígidos e dos restantes lacaios?  Olharão pelos seus horários de trabalho, tomarão nota das suas reivindicações?

Serão os reis de Esquerda mais abandalhados, vestirão a mesma camisa e calçarão as mesmas peúgas dois dias seguidos?

Terão os filhos na escola pública?

E os de Direita? Mandarão prender ou chicotear as sopeiras e os cozinheiros se eles ou elas prevaricarem, se não fizerem bem o dossel, se deixarem queimar o cervo ou a perdiz de fricassé? Usarão papel higiénico de oito folhas e acolchoado?

Tudo isto, todas estas minhas especulações não são mais do que uma simples e espúria curiosidade, eu sei. Curiosidade talvez descabida e malpropícia, mas ainda assim perdoável, só própria de quem realmente ama a monarquia como eu, de quem sem ela não consegue imaginar-se, de quem  dela assume uma saudade imensa.

De quem acredita que um dia virá em que o nosso D. Duarte Pio de Bragança (O Irrigador) se sentará no trono, ora malquistamente ocupado por essa corja de ordinários sevandijas, ateus e filisteus republicanos, assim Deus nos ajude.

Carlos

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