A IDEIA – Textos e escolhas de António Cândido Franco – A CORRESPONDÊNCIA INÉDITA DE PACHECO PARA NATÁLIA

ideia1A correspondência de Luiz Pacheco para Natália Correia hoje conhecida está toda ao que sabemos inédita e encontra-se depositada na biblioteca pública de Ponta Delgada no espólio de Natália Correia. São vinte e oito peças – 15 cartas e 13 postais – que vão de 12 de Agosto de 1956 a Agosto de 1968. É desnecessário fazer aqui a descrição mesmo sumária destas 28 peças, preferindo nós seleccionar apenas três – todas pertinentes para o tema geral desta pasta, o abjeccionismo.

A primeira escolha recai no terceiro envio do conjunto, um bilhete-postal escrito a 8 de Dezembro de 1959 e enviado no dia seguinte. No momento da escrita deste envio anda Luiz Pacheco fugido à polícia no norte e centro do país (Porto, Peso da Régua, Ermesinde, Setúbal). Desde o início do ano tem um processo na polícia judiciária por atentado ao pudor de menor (Maria Eugénia Soares Barbosa), que esteve na origem da sua única saída do país – passou o mês de Março de 59 em Itália, na esperança de partir para o Egipto, o que ficou sem efeito, sendo obrigado a regressar ao país natal, donde não mais saiu durante a longa vida que ainda viveu (faleceu apenas em 2008). Demite-se então da função pública (Julho de 59) – era funcionário da Inspecção dos Espectáculos – e com mandato de captura em cima movimenta-se pelo interior do país à espera de despistar a polícia. Foi capturado num café de Bucelas, terra onde o pai vivia, no final de Dezembro, passando o Natal no Limoeiro. Julgado em Janeiro, foi absolvido no caso da menor. Natália Correia teve um papel crucial como sua testemunha de defesa.

O bilhete-postal dos “Correios de Portugal” tem alusão no verso ao 28 de Maio de 1926 e indica a seguinte morada para a destinatária: Rua Rodrigues Sampaio, 52-5.º, Lisboa 1. O postal foi enviado, como se vê pelo carimbo dos correios, de Peso da Régua. Damos de seguida um extracto do que mais nos importa: Minha Querida Comadre: // Sei que mais uma vez tomou a Estrada da Boa Hora para advogar a m/causa (perdida). Isso basta para lhe testemunhar o m/ reconhecimento e a esperança de que aquilo que nos possa separar não é tão forte como a bela noção (rara) de camaradagem que V. pratica e a que tenho procurado corresponder tanto quanto mo permitem as circunstâncias. // O Patinha escreveu-me duas cartas em que se vê a s/ compunção por estar na Fossa da Orquestra… É V. a pessoa indicada para lhe levantar o moral (digo: o moral!) e atender à permanente solidão dele – cada vez mais concreta. (…) Cumprimentos ao Alfredo Machado e Helena e m/família e para si, do velho editor // Luiz Pacheco

A segunda escolha recai sobre carta que apenas indica dia e mês – 23 de Agosto. O facto de o papel estar timbrado com carimbo da Contraponto e localizar a escrita da carta na Macieira, concelho da Sertã, permite sem discussão identificar a ano de 1962 como o da escrita da missiva, pois 1962 foi o único ano em que Luiz Pacheco passou (de Junho a Novembro) pelo lugar da Macieira, terra das duas irmãs Matias – Maria do Carmo e Maria Irene –, mães de cinco filhos seus, havidos entre 1959 e 1965. É uma carta com indicações sobre a reedição pela Contraponto do livro Cântico do País Emerso de Natália Correia, cuja primeira edição, também Contraponto, é de 1961. Referências ainda aos cadernos de crítica Contraponto, cujo terceiro e último número acabou por sair nessa época na Sertã. Pacheco, depois do 25 de Abril (cf. Diário Remendado), pensou ainda retomar a publicação e chegou mesmo a organizar o sumário dum quarto número com textos de Miller, Tzara e Lawrence, participações de Ricarte-Dácio, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, Grangeio Crespo e António José Forte, que nunca chegou a aparecer. A série da revista Contraponto, “cadernos de crítica e arte”, uma das realizações mais acarinhadas e emblemáticas de Pacheco, ficou pois reduzida a três números – dois números iniciais, um em 1950, muito próximo ainda do neo-realismo mudista dos anos do pós-guerra, outro em 52, mais aberto às colaborações surrealistas (Pacheco era nesse ano editor já de Cesariny), e por fim o terceiro e último número preparado em 62 e impresso na Sertã. Este caderno é todo ele de orientação surrealista. Como se vê pela carta, o editor pensava então dar continuidade aos cadernos, com um imediato sobre Natália Correia, o que não se verificou, até porque em 1966, por causa do processo judicial que se seguiu à publicação da Antologia de Poesia Erótica e Satírica, as relações entre os dois sofreram um abalo forte, não mais se recompondo. Natália era madrinha de Luís José, nascido em 1959, filho de Luiz Pacheco e Maria do Carmo Matias. Daí o tratamento – “comadre” e “boa mana” – usado na correspondência a partir desse ano.

A carta tem ainda alusão à noveleta O Teodolito, que Luiz Pacheco avaliava como o seu texto mais conseguido e que marca o aparecimento do neo-abjeccionismo. A obra foi escrita na primeira metade de 1962, passado em Almoinha (Sesimbra) e Lisboa, e foi enviado já da Sertã a Mário Cesariny, que logo o integrou na colectânea que então organizava, Surreal-Abjeccionismo (1963), onde surgiu pela primeira vez, tendo uma assinalável fortuna editorial depois disso. A Enorme Repulsa, também referida na carta e cujo título recupera uma das expressões marteladas pela imprensa da época sobre os acontecimentos em Angola em 1961, foi romance que se perdeu numa pensão do Porto (em 63/64) e de que O Teodolito seria um dos capítulos.

A carta, em folha timbrada da editora Contraponto, não tem anexo o envelope. Deixamos a seguir trecho ilustrativo da carta: Boa Mana e Comadre: já ontem tive uma 1.ª resposta do Porto, da tipografia. O orçamento pareceu-me razoável: 600 exemplares, a 3$60 cada, o que dá 2.160$00. (…) / (…) Com a Contraponto a fazer publicidade em cheio (penso num n.º especialmente consagrado a si, com estudos focando os vários aspectos ou tendências da sua arte: poesia, teatro, ensaios, etc.) é venda garantida. / Eu fiz muito mal, há dez anos, em ter parado o Contraponto jornal, revista, folheto, isto é, como órgão dum grupo de personalidades afins, de livre determinação interior, sem compromissos ou defendendo-se o mais possível deles, e uma certa folia da alma e do corpo sem as quais me parece não haver possibilidade de criação artística. Ao ver como são bem comportados e alinhavados os nossos artistas e escritores, meros funcionários-usurários dum grãozinho qualquer de talento que lhes deu a Natureza, vêm-me sempre à cabeça os grandes exemplos dos irregulares, dos anti-sociais ou associais, que foram os grandes. E a coisa mais ridícula é ver um poeta menor e escritor vedeta, como é o Vitorino Nemésio (talento e inteligência tem-nos ele, é certo, mas falta-lhe o carácter e a vergonha), censurar ao Camões a sua vida desregrada, a dissipação, a folia dele enfim (isto não é invenção minha: vem no prefácio a uma selecção de Os Lusíadas, editada pela Campanha de Educação de Adultos, com epígrafe (é claro) do Tôtócas ou Manholas ou Atrapuz). Bem sei que nestes 10 anos o Contraponto não esteve parado: atacou com guerrilhas individuais. Mas perderam-se boas oportunidades de crítica e de intervenção directa, principalmente. / (…) / Para breve lhe anuncio a publicação dum texto meu. Receio que V. não goste, pois é bastante impróprio para senhoras. Desde o Bocage, creio eu, a língua portuguesa, aliás com fortes tendências nativas e usuais para tanto, não era tocada no campo da obscenidade com tal força. Chama-se O Teodolito, composição neo-abjeccionista. Agora o que eu gostaria que V. lesse era a minha noveleta A ENORME REPULSA, de objectivos actualistas, e da qual O Teodolito é, mais ou menos, o 1.º capítulo. (Nada disto tem a ver com o novo romance… São só maneiras de eu passar o tempo, e me divertir o mais possível) / Um abraço do mano editor, / Luiz Pacheco

A terceira escolha recai em missiva, escrita das Caldas Rainha – Luiz Pacheco viveu entre o final de 1964 e o Verão de 1968 nas Caldas –, no momento da edição da tradução portuguesa de La Philosophie dans le Boudoir por Fernando Ribeiro de Mello, chancela Afrodite, que trouxe prefácio seu, “O Sade aqui entre nós”, dedicado a Natália Correia, “uma presença europeia entre nós”. A edição foi de imediato (Março/Abril de 66) apreendida e todos os implicados (editor, prefaciador, ilustrador e tradutores) processados, acabando condenados no Tribunal Plenário (1968). Luiz Pacheco é preso nas Caldas da Rainha em Junho de 68 em virtude deste processo. Aguardava julgamento – que só acontecerá em 1970 – dum outro processo, o da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, onde Pacheco colabora com umas coplas de pé quebrado, também apreendido e processado – Luiz Pacheco foi um dos autores incriminados. O livro da Ulisseia que na carta se refere é Crítica de Circunstância, primeira grande colectânea comercial de Pacheco, que aparece em 1966 (Abril), com prefácio de Virgílio Martinho, e logo apreendida e destruída. O “Arelo” do final da carta é o juiz Arelo Manso, que julgou Luiz Pacheco na Boa-Hora em 1960 (Natália Correia foi testemunha de defesa) por atentado ao pudor de menor (Maria Eugénia Soares Barbosa, 13 anos), acabando por ser absolvido e libertado do Limoeiro onde estava preventivamente encarcerado. O “careca nosso conhecido”, apontado no final da carta, é Manuel de Lima, indicado no postal de 59 como o “Patinha” e com quem Natália teve um caso forte de paixão na segunda metade da década de 50. Já depois do falecimento dos dois, em 1995 (revista Ler, n.º 31), Pacheco publicou uma admirável nota de memória sobre Lima (“O Careca evidente retratado pelo Caixa-de-Óculos”), de que aqui deixo um curto passo referente à grande Natália: […] Como crítico musical do Diário Popular, o Lima tinha sempre 2 bilhetes para o S. Carlos. Às vezes […] levava a Natália. Com o seu espírito contestatário e para se divertir com os tons arco-íris que a careca do Lima ia suando. Aquilo e só aquilo a divertia. Criança no meio de adultos compenetrados, absortos na música, sonolentos e calados, achava uma brincadeira clandestina […]. Não sei como fazia que ninguém reparasse, mas ou com o manto de peles sobre os joelhos e as pernas do Manuel, deslizava a manita, fincava-lhe a sarda que ele procurava sumir (sem o conseguir, aliás) para dentro da bexiga, do umbigo, onde ela achasse lura, impossível, os desditos da magana desabotoavam a braguilha das calças do smoking, iam remexendo em panos de cueca e puxavam para fora o balão de borracha. Encher a tripa de sangue, pô-la a direito numa bruta pívea, debruçando-se para a frente como quem escutasse uma ária enlevada (para tapar as vistas), estimular num frenesim acelerado o movimento de vaivém com a mão, torcendo-se o Lima de dores e pavores, até ao desenlace e deixá-lo, que se compusesse, uma atrapalhação, peles (de vison) pingadas, talvez as calças, o terno negro. Por sua vez, Mário Cesariny, em carta a Luiz Pacheco, de 4 de Agosto de 1965, recolhida em Pacheco versus Cesariny, diz destes calores do S. Carlos (1974: 184): a vez, diz-se que única, em que o Manuel conseguiu vir-se com a Natália, tocavam o Parsifal, em S. Carlos.

A carta, dactilografada, tem a data de 3 de Março de 1966. Segue um extracto ilustrativo: Comadre / Talvez já tenha já lido a nova, quase igual, versão do prefácio. Conforme verificará, respeitei, concordando e agradecendo, todas as suas sugestões: cortes da importância e dos dois parágrafos, emenda para mais modesto no título. (…) Aliás, não tinha nem tenho ilusões sobre o valor literário do texto, nem na sua qualidade de prefácio ao Sade ou à Filosofia. O Sade está morto e bem morto, a Filosofia fala por si. O que me importou, creio que se percebe, foi aproveitar a oportunidade para dizer algumas das minhas. Não foram todas – ainda, bem entendido. Mas para aquele piratinha que você viu lá na Boa-Hora a tentar achincalhar a gente, talvez já, e para o futuro, chegue. / Outro assunto bem mais grave: o da dedicatória. Neste meu livro da Ulisseia, vão dedicados vários textos (ao Cesariny, ao Lima, etc.). Confesso que não achei coisa que valesse uma dedicatória para si, coisa digna de si. O prefácio é que já me pareceu suficientemente afirmativo para lhe pôr o seu nome à frente, pedindo uma dedicatória “emprestada” e em riscos de ficar sepultada naquela malvadona tipografia do Bairro Alto.(…) Simplesmente, pode não ser agora o mais conveniente. Nesse caso, a dedicatória continua, mas suspensa, só aqui entre nós. / Na minha ida a Lisboa não me foi possível nem visitá-la nem ir à PJ. Terá se ser na próxima, embora o R. de Mello me tivesse dito que não fosse. E tivesse depois falado com um antigo agente de lá, meu amigo, que me repetiu o mesmo. Mas disto falaremos. / Sabe o mais curioso de toda esta história? Os inimigos não nos poupam, os amigos não nos acautelam, leio no filosofante Guerreiro Murta, a propósito do próprio Bocage. Traduzido em miúdos: daquelas mesmas pessoas que se proclamam mais avançadas (em política, em religião, em costumes) é que tenho ouvido as censuras mais ásperas à Antologia. Percebe-se: cautelosos por espírito de conservação, ficam cheios de raiva perante qualquer gesto mais ousado. Confirma-se o que lá digo agora no Prefácio: quanto mais progressistas, mais sacripantas em questões que bulam com o Sexo. Um tipo daqui (…) diz que V. deve ser presa! E eu a seguir, claro. O que nos vale é ele ser alfaiate, por enquanto, apenas. (…) E como este progressivo, mais gente vi em Lx., incluindo um careca nosso conhecido, que estão desejosos que sejamos todos fulminados pela Santa Inquisição! (…) também aqui o m/ prefácio previu isto: lá sugiro que o Arelo pode continuar no mesmo lugar a condenar a libertinage…/ um abraço do / Luiz Pacheco.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: