Na véspera do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, vale a pena lembrar, antes de qualquer outra, Enheduanna, filha do rei Sargão, da Acadia, sacerdotisa da Lua, ou do deus lunar Nana, cujo nome é formado por en , que quer dizer alta sacerdotisa, e heduana – “epíteto poético para Lua”. Enheduanna é considerada “a primeira autora do mundo”. Seus textos em escrita cuneiforme sobre placas de argila (tabletes) datam dos “Antigos Períodos Babilônicos e de Ur III”, isto é, do meio do terceiro milênio Antes de Cristo !
Descobri Enheduanna e algo de sua poesia há mais de trinta anos, quando pesquisava para a minha dissertação de Mestrado em Filosofia, que resultou no livro O Feminismo é um Humanismo. Encontrei seu nome pela primeira vez numa extensa antologia de quase 800 páginas, com poemas de mulheres “da antiguidade até agora”, (A book of Women Poets from Antiquity to Now), em grande parte traduzidos e organizados por Willis e Aliki Barnstone, (pai e filha) admiráveis scholars e pesquisadores norte-americanos. (A antologia é da Schocken Books, New York, 1980).
Na Carta do Rio 47, de 21 de abril de 2015, na qual lamentava o falecimento então recente (em 13 de abril daquele ano) do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, citei um texto/poema de seu livro Los hijos de los días, em homenagem à sumeriana :
a primeira escritora, a primeira mulher que assinou suas palavras,
e foi também a primeira mulher que ditou leis,
e foi astrônoma, sábia das estrelas,
e sofreu pena de exílio,
e escrevendo cantou a deusa Inanna, a lua, sua protetora, e celebrou a felicidade de escrever que é uma festa,
como parir,
dar nascimento,
conceber o mundo.
No último sábado, li o artigo Um silêncio que grita, de Ana Maria Machado, sobre o esquecimento a que foram condenadas, ao longo dos séculos, mulheres escritoras, artistas, poetas… O que me remeteu à antologia dos Barnstone, em cuja introdução lê-se que enquanto poetas japonesas e chinesas eram reconhecidas e respeitadas,
um extraordinário exemplo de perda ocorre em Latim. Sabemos que mulheres educadas (doctae puellae) pintavam e escreviam poesia, no entanto não temos nada além de 6 poemas de Sulpícia ( do primeiro século Antes de Cristo).
E vale sempre lembrar que a grande Sappho, a quem Platão se referia como a Décima Musa, teve quase toda sua obra destruída pela sanha moralista da intolerância misógina da Igreja Católica.
Ana Maria Machado, porém, nos traz um alento com esta notícia:
No ano passado, pela primeira vez o Grand Palais de Paris dedicou seus salões à retrospectiva da obra de uma mulher, Elisabeth Vigée-Lebrun, seguindo o exemplo do Museu Marmottan que revelara a extraordinária qualidade do conjunto da obra da impressionista Berthe Morisot.
Fico muito feliz por Vigée-Lebrun, que encantou a minha infância quando folheava os livros de meu pai sobre os Museus da Europa e podia admirar seus retratos de Maria Antonieta, e seus autorretratos no volume do Museu do Louvre. E igualmente por Berthe Morisot, que sempre cultuei junto com seus parceiros impressionistas.
A escritora Ana Maria Machado fala ainda em outras exposições dedicadas a obras de mulheres : a do Museu do Prado, de Madrid, com Clara Peeters, a dos Uffizzi de Florença, com uma mostra da obra de uma freira renascentista Plautilla Neri além da promessa de expor em breve esculturas de Marietta Robusti. O Palazzo Pitti, por sua vez, “vai abrir uma mostra da austríaca Maria Lassnig, enquanto o Canadá acaba de revelar que a cultuada obra assinada por C.L.Davis, até aqui atribuída a um homem, na verdade é de autoria de Carolina Davis.” (grifo meu).
E tenho agora o prazer de tornar minhas as palavras de Ana Maria Machado que deu aos seus leitores este presente:
Então, neste Dia da Mulher, quero lhe dar um presente. Marcante, rico, inesquecível. Você vai me agradecer pela dica. Há na internet uma janela para essas artistas, de épocas e países diferentes:
@female.artists.in.history
Pessoalmente, estimulada pelo artigo de Machado, encontrei também no site Exame.com, uma bela notícia sobre 10 mulheres que marcaram a Arquitetura no Mundo, que logo fiz questão de postar no facebook. .
Esperemos, portanto, que o século XXI dê mais visibilidade às mulheres e o respeito que todas merecemos. Pois, tentei evitar, mas esta denúncia se impõe:
No Carnaval que se encerrou nesta última quarta-feira, a Polícia do Rio de Janeiro registrou uma mulher vítima de agressão a cada quatro minutos.




Meus parabéns, Rachel. Excelente a sua crônica. Só peca por um certo excesso de modéstia. Eu acho que as mulheres deveriam declarar a REVOLUÇÃO de uma vez, tomarem o poder e passarem a governar. Talvez haja um grande desastre, MAS TALVEZ NÃOOOOOOO!!!!!!!!
Muitíssimo obrigada por tão caloroso comentário, querido Davy. Sim, também acredito que
WE HAVE TO TAKE IT OVER!
bjs,
Rachel, querida amiga
A tua modéstia vai mais longe do que diz -e bem!- Davy Bogomoletz ao não falares das tuas 3 peças em 1 acto: Lou Andreas-Salomé, Palavra de mulher e Solo para computador, as quais, se tivessem a divulgação que merecem, estariam hoje a ilustrar muitas sessões dedicadas à emancipação da mulher.
A terminar, um lamento: em pleno séc. XXI é muito triste termos de falar ainda da necessártia emancipação da mulher, mas é o Mundo que temos!
Obrigada, querido António! Tu e Davy são muito generosos.
Quanto ao mundo que temos, o importante é que permaneçamos atentos e atuantes,
bjs.