CARTA DO RIO – 145 por Rachel Gutiérrez

Viajar, viajar sempre. A viagem intensifica a vida e a faz desabrochar. Como a própria vida, mas exaltadamente, a viagem é feita de revelações, descobertas, epifanias, encontros e emoções inesquecíveis. E também de desencontros, de pequenas frustrações, perdas e ganhos. Tenho saudade, por exemplo, de um anjinho barroco de Florença, que nunca cheguei a ver. Explico: na primeira viagem à Europa, que fiz com a família de meu Professor Guilherme Fontainha, a filha dele, Vera Fontainha, recebera de sua amiga Ione Saldanha, artista plástica que havíamos encontrado na passagem por Paris, a recomendação enfática de procurarmos admirar num pátio do Palácio Vecchio um chafariz com um anjinho no centro – segundo a pintora, o mais belo e puro exemplo da arte barroca ! Por falta de sorte, quando lá chegamos, o tal anjinho havia sido retirado, temporariamente, para restauração.  Voltei várias vezes a Florença, mas nunca pude encontrá-lo. Felizmente, os ganhos são muito mais importantes do que as perdas. Já naquela descoberta de Florença, pude me deslumbrar com um pequeno museu consagrado à obra de Caravaggio; com a ponte Santa Trinità, onde Dante teria encontrado a sua amada Beatriz; com a impressionante Madalena de Donatello, no Battistero ;   com o David de Miguel Angelo, na Galleria degli Uffizi ; com a Cantoria de Luca della Robbia, no Museo dell’Opera del Duomo ; e com a Anunciação de Fra Angelico, no Museo San Marco.

Depois, vivi algum tempo em Viena e me encharquei de música. Foi lá que aprendi a apreciar tanto as óperas de Wagner quanto as de Mozart, e as divertidas operetas, assim como as sofisticadas valsas de Johann Strauss; ah! ter frequentado a Musikvereinsaal  e ter assistido toda A Paixão segundo São Mateus, de Bach, em pé – no stehplatz dos estudantes e dos pobres! E, quase no final daquela estada, ter perdido, por displicência, a mais importante retrospectiva de Oskar Kokoschka, um dos apaixonados de Alma Mahler; pude, no entanto, frequentar os jardins do Schoenbrun e visitar o Palácio, perto do qual morei; e conheci bem  o Belvedere, onde se encontra grande parte da obra de Gustav Klimt.  Ter visitado a Casa de Freud, no número 19 da Berggasse foi muito comovente. Assim como algumas das casas onde morou Beethoven, além da de Schubert, na Nussdorfer Strasse, número 54, é claro. Lembro também, com saudade, duas idas a Dublin, onde- glória das glórias! – assisti a maravilhosa Pigmalion, de George Bernard Shaw na terceira fila do Abbey Theatre;  e foi encantador ter podido olhar de perto, na Galeria dos Retratos, os rostos do próprio Shaw, o de Oscar Wilde e o da famosa Lady Gregory, perto de seu grande amigo, o genial poeta  William Butler Yeats. E lá tive a alegria de  ter feito bons amigos.

 Na Alemanha, em Munique, pude me deslumbrar com o museu Lenbachhaus, onde se encontram as obras do grupo Der Blaue Reiter (O cavaleiro azul), os maravilhosos pintores expressionistas; e frequentei em Hannover, onde passei alguns meses, o magnífico Sprengel Museum, que contém um belíssimo acervo de arte moderna. Também na Alemanha, visitei a pequenina cidade de Worpswede, onde Rilke viveu algum tempo numa comunidade de artistas e onde conheceu a escultora Clara Westhoff, com quem se casou. Ó, lá ter entrado no quarto onde o poeta dormia, no segundo andar da casa do pintor Heinrich Vogeler! Lembro até hoje aquela intensa emoção. De outra ordem, mas igualmente forte foi a experiência de ter pisado no local onde de 1961 a 1989 estivera o triste e cruel muro que tanto sofrimento causou aos berlinenses.

Mas, ah! viajar é acima de tudo uma festa. Quando penso na alegria  de ter visitado, na França,  a casa de George Sand em Nohant, no Bérry,  onde um de seus hóspedes, o pintor Delacroix costumava se deliciar passeando pelos jardins ao som do  piano de  Chopin; quando lembro de ter visto  a exposição Les Lautrecs de Lautrec  (dos quadros prediletos do próprio pintor) na velha Biblioteca Nacional, de Paris… sem esquecer que, como escreveu Gilberto Amado, uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia…

Ter almoçado na Brasserie Lipp, que Proust frequentava e ter ido comprar madeleines em Illiers-Combray, como já contei aqui; ter assistido a ópera São Francisco, de Olivier Messiaen, na Opéra Bastille; e ter assistido a uma peça de Sacha Guitry com o grande Pierre Arditi; e a um show de Jazz, com uma querida amiga e minha irmã, perto do Centro Georges Pompidou. Também ali, naquelas redondezas, ter ido algumas vezes ao IRCAM, o Instituto de Pesquisas Acústicas e Musicais para ouvir o que há de mais ousado em música contemporânea, na praça Strawinski. Tudo é enriquecimento e maravilhamento.  Inesquecíveis são o ateliê de Cézanne, em Aix-em-Provence, e o de Claude Monet, em Giverny, na Normandia; e ter visto a Catedral de Rouen, a que ele pintou  dezenas de vezes;  a de Chartres , a de Amiens e  a  de Reims, na Champagne, onde Joana D’Arc fez coroar o Rei Carlos VII.

Ter atravessado o Canal da Mancha num trem que entrava num navio e, décadas mais tarde, fazê-lo com o Eurostar por baixo do oceano…

Em Londres, ter tomado mais de uma vez o chá da tarde no Russell Hotel, ponto predileto de Virginia Woolf. Ter visitado longamente a Casa de Keats, onde fomos a pé do nosso hotel no bairro de Hampstead, que também abriga a última casa onde morou Sigmund Freud. Visitar a National Gallery, a Portrait Gallery, a Dulwich Picture Gallery, o Museu Britânico e o Victoria and Albert Museum. Ter estado mais de uma vez em Bath, ter conhecido Stratford-upon Avon, Cambridge… Ter ido ao teatro para assistir peças de Oscar Wilde e de Noel Coward.

E voar para Lisboa, onde me esperavam a Casa de Fernando Pessoa e a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva na última vez que lá estive. Além dos queridos amigos da Viagem dos Argonautas.

Desta vez, vamos à Itália, que também muito amamos. Nossa última experiência na Sicília e na Calábria foi magnífica. Agora, voltaremos ao Norte: a Milão, Veneza, e à Toscana: Florença, Bolonha e finalmente Roma. E eu, que já tive, há alguns anos, a oportunidade de ver e ouvir O Rouxinol, de Strawinski , no Teatro La Fenice de Veneza, pretendo agora ver e ouvir uma ópera de Rossini, no Alla Scala de Milão.

Para os amigos e leitores das minhas Cartas do Rio, deixo alguns textos sobre grandes mulheres e a tradução do Testamento de Maria Helena Vieira da Silva. A todos digo um caloroso Até a Volta! – no próximo mês de maio.

 

4 comments

  1. Davy Bogomoletz

    Rachel, desta vez não li a carta toda, que era pra não morrer de inveja. Mas li o suficiente para desejar a você que desta vez você complete a sua magnífica coleção de maravilhas visitadas. Que seja uma viagem tão esplendorosa quanto as anteriores, senão mais. Muitos beijos, e volte para nós quando concluir o passeio.

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  2. Rachel Gutiérrez

    Eu já estava sentindo falta do seu comentário, querido Davy!
    Até a volta! um grande abraço e bjs desejando
    Saúde e Alegrias!
    Rachel

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  3. Compartilhar algumas destas experiências com Rachel, rememorando-as agora em seu texto sobre viagens, foi e tem sido uma experiência de encantamento.

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  4. Até à volta, querida Amiga.
    Boa viagem e excelentes férias.
    JFM

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