NO CENTENÁRIO DA PUBLICAÇÃO DE HÚMUS, A OBRA-PRIMA DE RAUL BRANDÃO – por MANUEL SIMÕES

Raul Brandão

Manuel Simões“A Viagem dos Argonautas” já publicou, pela mão de Carlos Loures, uma ampla e rigorosa apresentação da obra do grande escritor, nascido na Foz do Douro em 1867, há precisamente cento e cinquenta anos. Curiosamente celebra-se agora também o centenário da sua obra maior, Húmus, e é a esta surpreendente narrativa que estas linhas são dedicadas.

A primeira edição de Húmus é precisamente de 1917, já o Autor tinha publicado História de um Palhaço (1896, mais tarde refundida), a Farsa (1903), Os Pobres (1906), El-Rei Junot (1912) e A Conspiração de Gomes Freire (1914), mas Húmus surge como monumento literário pela modernidade de escrita e pela novidade do discurso na literatura portuguesa, no qual não será ousado vislumbrar a sombra tutelar de Dostoievski ou de Tolstoi. A obra confundiu a crítica pela ausência de indicação de género, impossível de arrumar para uns, romance-ensaio para outros. Talvez se possa considerar, pela organização fragmentada e pela tonalidade do discurso, uma espécie de “livro do desassossego” de Raul Brandão, precursor avant la lettre do existencialismo em Portugal.

Obra singular pelo seu carácter híbrido e pela sua estrutura de romance-diário, regista um universo fragmentário, como se disse, em que as personagens remetem para máscaras-sombras que tendem para o grotesco: por exemplo Restituta, Lambisgóia, D. Fúfia, D. Biblioteca, etc.. Também é evidente um certo hermetismo onírico, apresentando como teatro de acção uma ambígua “Vila” que adquire o valor de símbolo e centro de negatividade. Este aspecto acentua o pessimismo nihilista mas contrapõe o espanto da vida ao absurdo da morte, ao mesmo tempo que  revela o discurso iconoclasta, insuperável na descrição dos vícios da classe burguesa ou da nobreza.

Húmus conheceu três edições em vida do Autor: a 1.ª de 1917, a 2.ª de 1921 e a 3.ª de 1926, a última revista, com a eliminação, já em 1921, de dois capítulos que desapareceram do plano editorial, talvez condicionado por factos históricos, visto que 1921 é o ano da “noite sangrenta” (também conhecida como “noite infame” ou “noite da camioneta fantasma”) e 1926 corresponde à data do golpe de Estado. A dúvida tem a sua razão de ser na medida em que nos capítulos eliminados se faz alusão a uma “revolução dos pobres” e o pessimismo é atenuado com expressões como “a vida persiste, a vida insiste”. Um fio condutor parece unir as várias obras de Raul Brandão, e Húmus não escapa a uma espécie de obsessão, a de revelar sempre uma atenção especial pelos “vencidos”: os miseráveis, os trabalhadores, as prostitutas, os intelectuais caídos, todos derrotados pela História, pela Natureza e pela Vida, todos sujeitos potenciais de uma “história humilde do povo português”. Mas Húmus impõe-se, relativamente aos outros textos, pela modernidade da linguagem, calibrada e precisa, com sequências rítmicas que são outros tantos poemas em prosa. Um livro a ler (ou a reler), com a perspectiva que o tempo histórico-literário acabou por determinar.

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