UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (176)

JANTAR LITERÁRIO NA FOZ DO DOURO, PORTO

 

ACONTECEU no DIA 3 de ABRIL, na TASCA DO BAIRRO

 

Por iniciativa da Associação Cultural “O PROGRESSO DA FOZ” e da “FOZ LITERÁRIA”, realizou-se, na passada Segunda-feira, mais um jantar literário excelentemente dirigido, como é seu timbre, pelo nosso Director Dr José Valle de Figueiredo.

Desta vez foi JÚLIO DINIS quem nos fez companhia, o próprio, sendo o primeiro a chegar, pontualíssimo.

Devido aos inúmeros inscritos, aumentamos o número de convivas. Fomos cinquenta e quatro os que tivemos a sorte de poder ali estar e degustar as delícias dos comeres e das palavras.

De entre os presentes permitimo-nos destacar o Sr. Presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, Dr. Nuno Ortigão, o Presidente da Freguesia de Parada de Gonta, Sr. Luís Fernando Pereira, a Sra. Dra. Maria Lacerda, vogal da cultura da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, o Presidente dos Amigos de Parada de Gonta , Sr. Luis Sá, o Prof Dr. José Augusto Maia Marques e o Dr. Paulo Sá Machado que nos trouxe um excelente quadro de Almada Negreiros, sobre Júlio Dinis, que esteve exposto durante todo o tempo na parede do restaurante.

PRESIDENTES

 

PROF. DR. JOSÉ AUGUSTO MAIA MARQUES
DR PAULO SÁ MACHADO

Dr NUNO ORTIGÃO
Sr. LUIS FERNANDO PEREIRA

 

 

QUADRO DE ALMADA NEGREIROS

Dizer do facto de A Tasca do Bairro ser hoje um espaço emblemático que à Foz pertence, será repetir-me. Falar da excelente confecção da refeição e dos dotes, tanto dos elementos da cozinha como dos funcionários que serviram à mesa, Érica (que também ajudou na reportagem fotográfica) e Tiago, ou ainda da excelente direcção do proprietário do espaço, sr. Jorge Costa, é de elementar justiça.

 

Falemos então do nosso Jantar.

“A cozinha de João Semana era de carácter portuguesíssimo, e eu, ainda que me valha a confissão os desagrados de alguma leitora elegante, francamente declaro aqui que, para mim, a cozinha portuguesa é das melhores do mundo.
Dou nisto razão a João Semana

(Júlio Dinis, “As Pupilas do Sr. Reitor”)

Começamos com um excepcional caldo de abóbora. No ponto, tanto na textura como no sabor.

“E se não, vejam-no desta vez, esgotar a tigela avolumada de substancial caldo de abóbora…”

Depois chegou-nos o prato principal, Carne de Porco Assada com Arroz Açafroado, uma vez mais acompanhados do excelente vinho de Tormes. Uma delícia! A carne desfazia-se e o sabor era soberbo. Do arroz, nem se fala, nada sobrou!

“Queria-se ele com a carne de porco bem assada e o arroz açafroado – esses dois importantes elementos de gozo para os paladares portugueses”
“ao descobrir o prato de carne assada, exclamou João Semana em tom de satisfação manifesta:
– Que tentação me desperta este terceiro inimigo da alma!”

Para sobremesa veio o Pão-de-Ló de Ovar, aquele, o dito, o próprio.

E, antes do café e da excelente aguardente bagaceira que de novo nos chegou de Parada de Gonta, enviado por Tomaz Ribeiro que, infelizmente, uma vez mais não pôde estar presente, mas que não quiz deixar de se associar à festa e nos convidou, uma vez mais, a brindar ao nosso “Portugal, jardim da Europa à beira-mar plantado”, chegou o momento mais esperado da noite, ouvirmos o nosso Dr. José Valle de Figueiredo, cujo discurso nos deliciou e o transcrevemos no fim desta crónica.

=texto em itálico retirado do menu do nosso jantar=

 

DR. JOSÉ VALLE DE FIGUEIREDO

 

Tivemos ainda o privilégio de ouvir o Professor Dr. José Augusto Maia Marques – Professor Universitário (ISMAI), Antropólogo, Ensaísta, com numerosos trabalhos publicados, onde avultam os dedicados à História da Alimentação e da Gastronomia, e das relações destas com a Literatura; membro de muitas instituições científicas e de variadíssimas Confrarias Gastronómicas, entre as quais a de Ovar, tendo colaborado numa publicação editada por esta confraria, dedicada especialmente  “À MESA COM JÚLIO DINIS”, em que colaborou também o Dr. Paulo Sá Machado.

E depois acabou a festa, aos poucos, com muita pena dos convivas, desejosos já do próximo Jantar Literário, a acontecer lá para o final da Primavera.

(Jantar Literário do dia 3 de Fevereiro –  PODE VER AQUI)

 

MAIS REPORTAGEM FOTOGRÁFICA

 

PROF. ANTÓNIO CUNHA E SILVA

 

DR JOSÉ VALLE DE FIGUEIREDO
DR. JOAQUIM PINTO DA SILVA

 

 

 

 

 

 

(PALAVRAS DITAS À SOBREMESA DO JANTAR EVOCATIVO DOS 150 ANOS DA PRIMEIRA EDIÇÃO DE “AS PUPILAS DO SR.REITOR”, NO DIA 3 DE ABRIL, NA “TASCA DO BAIRRO”, NA FOZ DO DOURO)

ORA, ENTÃO, VAMOS JANTAR COM JÚLIO DINIS

Acabei de saber pelo próprio Júlio Dinis, através de uma mensagem da “Família Inglesa”, que, afinal, com muita pena delas, a Jenny e a Cecília vieram à Foz, sim, mas não puderam jantar connosco, pois tinham muito que conversar lá das suas atribuladas vidas sentimentais, que tanto as têm trazido inquietas…

Ficará para a próxima, em que até poderá vir o Carlos, quem sabe?…

Por outro lado, o Major Clemente Samora – comunicou-nos, também, Júlio Dinis – terá de remeter a sua louvadíssima e magnífica açorda – a tal que, além do pão, naturalmente, leva sal, azeite, vinagre, pimenta, alho, cravo, cebola, salsa, salpicão e toucinho…- para o nosso próximo encontro, pois teve de ficar lá por Braga com o José Urbano e a Maria Clementina, a dar vida a um dos “Serões da Província”…

Paciência…

Cá nos houvemos com a “medicação” do Dr. Silveira – quer dizer, do Dr. João Semana -, a que acrescentámos os “remédios” do Dr. José Maria Eça de Queirós (o Vinho de Tormes) e do Dr. Tomás Ribeiro, o qual achou que o seu tão conhecido e repetido verso “Portugal, jardim da Europa à beira-mar plantado” ganharia mais viço se viesse bafejado com uma bagaceira da lavra da sua Parada natal…

O que todos nós, aliás, achámos muito bem…

PELA FOZ CÁ NOS VAMOS ENCONTRANDO

Outro dia – há quase uma semana, mais concretamente, quando nos reunimos no Castelo para saudar os 150 anos de nascimento do nosso Raul Brandão – dei por mim a fazer contas, e conclui rapidamente, que já vai quase para quatro anos que andamos desassossegados às voltas a reclamar-nos como “FOZ LITERÁRIA”…

Têm vindo Escritores à nossa beira, quer por que tenham aqui nascido ou vivido, ou sobre este aro tão grato ao mar que trazemos nos olhos, tenham escrito.

Com o pretexto, muitas vezes, de uma data de nascimento, de um centenário, de um falecimento, de uma obra que valesse lembrar quando foi escrita, ou, ainda, que tenha páginas alentadas pela frequência e passagem pelos lugares que nos são próximos, o certo é que fomos entretecendo uma galeria que vai quase a chegar aos trinta retratos, todos eles com boa figura e com as respectivas molduras bem ataviadas…

Quer dizer: parece que nos está a ficar o jeito de abrir caminho para, afinal, nos irmos encontrando…

(Só jantares e almoços com Camilo, Eça, Ramalho Ortigão e Júlio Dinis já vão na conta dos cinco…)

Desta vez, achámos que ficaria bem trazer as “PUPILAS DO SR.REITOR” até nós, nos 150 anos da primeira edição que Júlio Dinis as trouxe à vida (como em 2018,estaremos,certamente, a convidar a “Família Inglesa” para celebrar connosco, também, os seus 150 anos).

Nem a Jenny nem a Cecília escaparão dessa vez…

VAMOS,ENTÃO, RELER JÚLIO DINIS?

É o que nos aconselha João de Araújo Correia:

“Quem relê Júlio Dinis, recorda-o tal e qual como lhe apareceu em tempos idos. Mas também lhe acrescenta ou acrescenta a si próprio, alguma coisa. Eu, que estou relendo o Autor das “PUPILAS”, vou reconhecendo o que lhe devo como homem abalado por mil desilusões e com o canastro mais que perdido, porque já não há cesteiros. Não há nenhum capaz de lhe deitar um vergo para remediar. Júlio Dinis faz criar a quem o lê, sem pedra no sapato, novas ilusões. Dá-lhe saúde vê-lo com saúde.

Ninguém dirá, ao lê-lo, que oculta a tuberculose debaixo do optimismo. Júlio Dinis é vassoura que não perdeu um piassá contra os miasmas.

Nestes nossos dias de poluição, física e moral, varre-os para longe. Depois, é um consolo encontrar autor que não enverga a farda de palhaço, nem se põe em pêlo, nem escreve mal de propósito para se salientar. Dentro da sua estilização, própria de artista, é natural e puro como as antigas fontes de uma serra”.

Bem, é altura de ficarmos por aqui. Não o fazemos, sem, no entanto, deixar de meter breve juízo de nossa lavra.

Como escrevemos no programa deste jantar, tenho para mim, que ler e saber também é saborear. As palavras alentam-se com o sabor com que as acompanhamos. São testemunho para nos levar mais além, porque recusamos a frieza que afasta o espírito das coisas saborosas desta vida. Precisamos do calor que recende, do sopro que ganhamos, quando à mesa, sabemos que ficámos melhor com os sabores que nos couberam em sorte.

Sabendo o que se saboreia e saboreando o que se sabe, confessamos que estamos mais vivos.

Porque é assim, aqui na Foz, vamos lendo. E, sempre que pudermos e tivermos boa companhia, também vamos saboreando…

Não será disto mesmo, que andamos todos a precisar?

                                                                                                      José Valle de Figueiredo

 

 

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

7 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (176) | joanvergall

  2. Inácio Marques de Sousa

    Meu caro amigo Zé Magalhães. Conheço-o há tão pouco tempo e parece-me que já lá vão longos anos. As pessoas quando são boas notam-se no olhar, na fala, na postura, no relacionamento e o Zé é assim mesmo. Obrigado pela partilha e um forte abraço.

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  3. Parabéns pela Carta de hoje !

    Um abraço.

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  4. maria filomena couto soares

    Muito bem descrito nesta Carta do Zé Magalhães o jantar literário de que tanto gostei! Parabéns.

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