CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – RECEITUÁRIO PASCOALENSE

 

 

Bem, eu penso que a Gula é, será (enfim) um pecado razoavelmente horrível. Parece que apenas venial, segundo a liturgia bíblica, vá lá  –  mas certamente para muitos crentes e beatos, uma coisa menos impecável, mesmo do mais pecável e horroroso possível.

Não me levem a mal, os crentes. Ós crentes.

Pois se eles, os vocês, os tais, os crentes, que até, coitados, fazem jejuns em épocas determinadas (quaresmas e assim) quais vegetarianos sem rumo nem percurso – acham que ter vontade de comer alguma coisa de necessário e humano prazer, é pecado – o que é que se lhes há-de fazer? Ou dizer?

Nada. Rien. Impossível.

Porque se eles tal coisa e desejos percebessem, não diriam, como irão dizer, que o facto de eu ter descoberto (hoje, Sábado de Aleluia) uns pequenos e discretos pedacitos de porco há tempos escondidos no congelador e ter pensado, já a salivar, no milagre que dali poderia ser criado Não diriam, ou pensariam (como pensam) que era um pecado ultra-venial, a roçar mesmo o mortal, todo um tipo de pensamentos desses, perto da hora do almoço de uma dia assim aleluiado, assim ressurreirado.

Mas foi o que eu pensei, tenham paciência. E vão ver que a história não só acaba em bem como ninguém saiu prejudicado.

(Indecente filisteu, pecador assumido, infiel degenerado, Deus me perdoe).

Saquei os pequenos, cúbicos e lúbricos pecados carnais do congelador e pu-los a descongelar à minha janela (o meu simples, solar e honesto micro-ondas) num prato já com vinho branco preenchido, alguma flor de sal, uma pitada de vinho do Porto e pimentão, acrescido de alhos picados e pedaços de folhas de louro. Iriam assim acordar de uma já razoavelmente longa hibernação, acolhida e decididamente temperados, um despertar certamente feliz e primaveril.

Mais tarde – e um pouco febrilmente, devo confessá-lo (a hora ia alta e o Sr. nada de se confirmar, vivo, exposto ou ressuscitado) – pus mais alhos a frigir em bom azeite e uma pouca de banha, enquanto cozia levemente umas batatinhas próprias para o efeito e com pele e de seguida despejei (com um garfo para evitar os líquidos remanescentes) os pecados – isto é, os pedaços – de porco para a sertã, que já entretanto estrugia e estrilhava.

Umas voltas, um período de expectativa, mais pacientes voltas, até os pedaços (ou pecados) começarem a adquirir aquela cor saudável, entre o moreno e o tisnado. Por essa altura já as batatas, semi-cozidas, suplicavam que as metesse no forno, entretanto aquecido. Fiz-lhes a vontade, molhando-as com uns fios de azeite, sarapintando-as com sal grosso e fines herbes.

Despejei entretanto aquela anterior liquefacção em que os composto de porco tinha tomado banho para dentro da frigideira, que assobiou de contentamento, sacolejei o pirex das batatas, para não se pegarem ao fundo, salpiquei o composto de porco com exponenciais coentros previamente picados, benzi-me numa rápica e súbita oração (nunca se sabe) levei entretanto pão, azeitonas e tinto para a mesa, de seguida a frigideira e as batatas e finalmente sentei-me, garfo e faca em riste.

Comunguei, portanto.

carlos

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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