MARCHAS, BRASÕES E O NEO-COLONIALISMO – POR MANUEL SIMÕES

 

Nunca concordei com o espectáculo das crianças a macaquear os adultos, quase sempre “empurradas” pelos pais para uma competição em que estes se vêem projectados. Já no tempo do “Zecchino d’oro/Sequim d’ouro”, um projecto nascido em Itália (Bolonha), logo em 1970 objecto de muita contestação por parte de psicólogos e pedagogos e com ramificação também em Portugal, era notória a componente negativa de tais manifestações pela pressão exercida no processo formativo dos prematuros “artistas”. Em Itália, as críticas acusavam o projecto de incentivar o “divismo infantil”, os mentores do programa foram fazendo orelhas moucas mas o mesmo foi perdendo gradualmente audiência.

Vem isto a propósito da notícia, veiculada pela imprensa, de que as marchas infantis de 14 freguesias de Lisboa desfilaram em frente dos Jerónimos, na Praça do Império, no domingo, dia 18 de Junho. Diga-se, desde já, que não se percebe como esta designação permanece ainda na toponímia da cidade: ou é por inércia ou por vontade política de lembrar a publicidade do tempo da “outra senhora”, de que “Portugal não é um país pequeno”, etc., etc..

O certo é que a evocação do império serviu à marcha infantil de Belém para promover politicamente a manutenção das controversas composições vegetais com a forma dos brasões das ex-colónias, que a Câmara de Lisboa decidiu fazer desaparecer já desde 2014, com a não concordância da junta de freguesia, que deseja manter visível esta forma de neo-colonialismo. E, deste modo, o tema da marchinha de Belém foi precisamente “Brasõezinhos de Belém”,  contou com a colaboração (pasme-se!) da Escola Básica Moinhos do Restelo, que ensaiou os pequenos marchantes, e da associação de pais daquela escola, que se encarregou da letra, respeitando obviamente o tema. Diz assim a primeira quadra:

            Belém dos nossos encantos

            Freguesia dos Brasões

            Tens o Tejo a palpitar

            Monumentos de pasmar

            Belém, terra de paixões.

 

O presidente da junta achou que o tema era «adequado à circunstância», instrumentalizando a escola (terá esta explicado aos alunos o significado dos brasões coloniais?) e com a conivência da associação de pais, ainda de acordo com a declaração do presidente: «Os pais acharam que podia ter piada por causa de as marchas serem na Praça do Império» (da imprensa diária do dia 17 de Junho), piada que é bem esclarecedora da leviandade como se programam certas manifestações folclóricas deformantes e que, por serem públicas, se transformam em actos políticos reveladores de certa nostalgia,  no mínimo anacrónica.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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