CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – GUERRA É GUERRA

 

 

Eu estou preocupado, eu estou (digamos que) algo ansioso E angustiado – amargurado mesmo, hélàs – com o que se passa no meu país.

A nível das Forças Armadas, a nível da Defesa Nacional, a nível dos paióis, de que ele é cheio e possuído, um pouco por todo o lado, graças a Deus, prenhes que são, repletos que estão, de munições, de granadas mais ou menos ofendidas, ofensivas e ofensíveis e explosivos de vária índole, susceptíveis mesmo de se exaltarem e explodirem extemporaneamente – ainda que existam (e eu sei-o, de fonte segura, estou bem relacionado) pela sua indiscutível e inapelável utilidade no caso de um qualquer conflito mundial, razoavelmente bíblico ou discretamente nuclear.

O nacional paiol de Tancos terá sempre uma palavra a dizer, em generalizados acontecimentos dessa universal gravidade. Ainda bem que existe, portanto.

Agora, o que verdadeiramente me preocupa, é a dúvida.

Sim, a dúvida. Eu explico, eu exponho. Eu exponho-me. Teriam (terão?) os assaltantes do paiol, licença de porte de arma? Mais: teriam eles licença de porte de bomba? Licença de porte de munições a granel, de bazucas, de canhões sem recuo, de morteiros ou quaisquer outras armas pesadas, incluindo fundas, catapultas ou mesmo azeite a ferver e a derramar por sobre as barbacãs – ao preço a que ele está?

Podem sorrir-se, ou mesmo rir-se – estejam à vontade – todos, ou quase todos vocês, que não sabem, que não imaginam, que nunca estiveram num quartel abaixo do Equador, no meio do nada ou de alguma floresta teimosamente virgem.

E feia, por isso virgem.

É que por lá, por esses ancestrais quarteis de anedota, também chamados de Companhias (más companhias, é evidente) também havia paióis. Cheios de granadas, explosivos, munições, armas variadase um cabo. A tomar conta. Sim, havia sempre um cabo, sossegado e simples, que dormia a maior parte do tempo e a quem tínhamos de acordar de vez em quando, quando algum de nós (oficial e tudo) necessitava de uma arma qualquer.

A bandalheira era, aliás, muito semelhante (talvez melhor ainda) à actual, embora a uma escala diferente: mais íntima, mais familiar, digamos assim.

Eu tenho vergonha – nunca o confessei mas não resisto, afinal já se passaram muitos anos, que se lixe.

Eu tenho vergonha. Porque uma das vezes em que fui de férias, por lá, pela colónia que me calhou em sorte – não ao Puto (Portugal) mas a passear-me através do mapa de Angola (Luanda, Lobito, Gabela, Benguela, etc.) levei comigo uma Walther!

Não sabem o que é, meninas que me lêem? Eu explico. É uma pistola de 9 (nove) milímetros, um calibre capaz de atirar com um gajo para fora do ecran, como nos filmes da Segunda Guerra Mundial, ou em policiais dos anos quarenta, género Humphrey Bogart ou George Raft.

Fui ter com o tal cabo, acordei-o e requisitei-lhe (adoro esta expressão, requisitar) uma pistola e dois carregadores, objectos que juntei à pasta de dentes, cuecas e meias de que me muni para as tais apaziguadoras férias locais. Não só não tinha, nem nunca tive, qualquer licença de porte de arma, como ninguém sabia se eu era algum tarado, algum serial killer desejoso de me estrear. O cabo forneceu-me a Walther, com um bocejo e voltou a adormecer.

Espero que ainda esteja vivo e de saúde, como eu. Nunca a disparei, evidentemente. Aliás tudo o que disparei por lá, por aquela paisagem, foi sempre para o ar. Pelo sim, pelo não.

Mas não digam a ninguém.

Carlos

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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