CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – MEMÓRIAS DE UM REFORMADO – QUERIDO DIÁRIO

 

 

Há Bancos que vêm por bem. E caixas gerais de depósitos gerais, também. Nem tudo é mau, na decorrente vida da Banca portuguesa. E há vida para além da morte ou seja, como quem quer dizer, para além da reforma, que se pretende uma espécie de pré-morte, como todos sabemos.

A verdade é que sou (também) reformado pelos cinco anos que trabalhei no extinto Banco Nacional Ultramarino, mais tarde transformado, reproduzido e absorvido pela dita Caixa de gerais depósitos do pagode de quem faço ainda parte. A qual, com pena de mim e após penosos, burocráticos e porfiados esforços que envidei nesse sentido, se permitiu providenciar-me a tal reforma, consubstanciada em 67,20 euros mensais –  ou serão 62,70 euros mensais? Bem, também não interessa, afinal o dinheiro não dá felicidade.

Todos os anos me obrigam sempre a lá ir, à Caixa, fazer uma “Prova de vida”, chamam-lhe eles. Vêem-me, observam-me detalhadamente, apalpam-me, batem-me com um martelinho no joelho, põem-me um espelho à frente da boca e finalmente dão-me um papiro a assinar, libertando-me até ao ano seguinte, concluindo assim que estou vivo e ainda sou merecedor daquela inigualável quantia com que continuam a contemplar-me.

Mas então não é que há dias e de repente, me enviam uma comunicação, um ofício e eis-me liberto daquela sequela de estar vivo. No referido diploma informam que com a “intenção de simplificar este processo, foram criadas as condições que nos permitem certificar informaticamente a prova de vida” (sic).

Fico portanto suspenso daquela apresentação, sou dado como efectivo sobrevivente, existo e continuo a ser merecedor da sublime reforma por anos de trabalhos forçados em prol da Banca nacional.

Uma única coisa me preocupa. O que será essa coisa de “certificar informaticamente a prova de vida” ? Serei vigiado electronicamente, cada vez que saio ou entro em casa? Haverá por aqui algum dispositivo desses secretamente instalado nalguma minha ausência, no fundo da sanita ou à entrada da banheira? Já andei a investigar mas não consegui descobrir nada.

Ou pagam afinal a uns tipos quaisquer, ociosos ou desempregados, para me vigiarem, saberem se ainda respiro ou se mantenho o metabolismo nasal assegurado e em dia. Apesar do descanso de não ter de lá me deslocar, a verdade é que desde então me sinto perseguido e vigiado, como uma personagem do “1984” do Orwell.

Mais valia estar morto, se calhar.

Carlos

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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