CARTA DO RIO – 162 por Rachel Gutiérrez

No sábado, 29, o arquiteto e urbanista Luiz Fernando Janot escreveu, em seu artigo, no Globo:

A banalização da violência leva a população do Rio a se sentir ameaçada permanentemente. O medo dos bandidos, associado à desconfiança dos policiais, afeta consideravelmente o comportamento das pessoas e a vida na cidade. Em meio ao fogo cruzado, o Estado parece apático e alheio aos interesses maiores da sociedade.

Como relatei aqui, o escritor Zuenir Ventura já havia mencionado os casos trágicos das balas perdidas, que atingiram bebês ainda no útero de suas mães, e os assaltos que atingem em média 15 turistas por dia.

Hoje, Fernando Gabeira pinta este quadro dramático:

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, descreveu a situação de segurança no Rio como o “coração das trevas.”

A cidade tem mais de 800 comunidades, a maioria sob o domínio territorial do tráfico. Este domínio acaba se refletindo na própria política: traficantes elegem aliados em vários níveis.

E as manchetes deste domingo são:

“Militares já planejam atacar arsenais do tráfico”; “Medo, o sentimento que abala a cidade” (com o subtítulo: Violência muda comportamento de quem vive no Rio e provoca cada vez mais transtornos psiquiátricos);”Ruas desertas” (Cariocas decidem ir embora); “Terror diário”(Nas favelas, nervos à flor da pele); “Tensão máxima” (Mulheres de PMs relatam pânico).

Há apenas 24 horas, tropas militares ocupam os calçadões das praias, ruas e pontos estratégicos da cidade e, segundo se propaga, com ênfase na região metropolitana.

Uma foto expressiva de muitas mãos abertas como dizendo Pare! tem, como legenda: “Clamor por paz. Jovens de Acari colecionam histórias em que ficaram de frente para a barbárie.” Em outra foto, que mostra uma rua deserta do bairro tradicionalmente boêmio de Santa Teresa, a legenda é: “Boemia abalada. Rua Almirante Alexandrino às 20h,30m de quinta-feira passada:bares e restaurantes vazios.”

O que Paris sofreu depois dos atentados terroristas parece ser a experiência constante dos cariocas, que já não saem às ruas à noite e, que, mesmo durante o dia têm a sensação de que estamos em guerra, de que a qualquer momento podemos ser atacados ou assaltados.

Reproduzo a triste experiência de um jovem ator recém-chegado à “Cidade Maravilhosa”. (O texto é do jornalista Rafael Galdo):

Aprovado num teste para um musical no Rio, o ator Júlio Ferreira, do Amazonas, desembarcou (aqui) cheio de esperança porque realizara um sonho. A euforia nem tinha passado quando a cidade lhe deu as “boas-vindas”. Ele teve o dinheiro roubado num táxi, ao sair do aeroporto, e, mal deixou as malas na casa de um amigo, no Engenho Novo, teve de correr de um tiroteio entre policiais e traficantes. Abruptamente, foi apresentado à (nossa) violência cotidiana.

Nas favelas, os relatos dos moradores são de estarrecer:

  1. tinha 13 anos quando a polícia invadiu sua casa e apontou um fuzil contra seu peito. V. de 17, perdeu o avô baleado numa operação na favela. M., aos 19, tem sua laje usada como rota de fuga de bandido. E C., de 17, cai no choro toda vez que lembra da amiga que encontrou morta, vítima de um estupro.

Eu, que posso me considerar privilegiada porque moro num bairro dos mais tranquilos, embora próximo de duas favelas, com as quais sempre pareceu existir um acordo tácito de paz, já me senti insegura quando, não longe do quartel militar do forte do Leme, começaram a acontecer assaltos em frente à sede da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana), que fica a uns 300 metros do prédio onde moro. Saio raramente à noite, a não ser para um espetáculo ou concerto, ou para a reunião semanal de um grupo de leitura, que frequento. Pois de uns tempos para cá, adquiri o hábito de telefonar ao meu porteiro, para que ao sair do táxi, que me traz de volta à casa, ele já esteja à minha espera. Nessas horas, sinto saudade de Montevidéu, onde ainda se pode frequentar bares e praças até altas horas da noite despreocupadamente!      

Pobre Rio de Janeiro! Só agora os governantes se dignaram enviar tropas das forças armadas para patrulhar nossas ruas. Mas isso, evidentemente, não basta. Do jeito que está, afundamos, como diz Gabeira.

As pessoas se sentem cada vez mais isoladas e só pensam em se proteger. E como observa o arquiteto Luiz Fernando Janot:

…a insegurança contribuiu para a disseminação de soluções urbanísticas e arquitetônicas baseadas no medo. Vemos grades cercando residências e edifícios, muros encimados por cercas aramadas ou eletrificadas e câmeras sofisticadas transmitindo uma aparência de segurança. (…) Em consequência, abre-se um espaço perigoso para a prática de um individualismo exacerbado que põe a cidadania de lado e reduz os valores da sociedade a uma mera insignificância.  

E chegam à veemência as últimas palavras do artigo do urbanista:

Para não assistirmos à dissolução das relações sociais, será necessário reverter o atual quadro de anomia, através da implementação de políticas públicas que valorizem efetivamente a cidadania e possibilitem a interação social na cidade.

Portanto, para que isso possa ocorrer, o mais urgente é que, aproveitando a atual presença das forças armadas, seja organizado o indispensável combate – efetivo e permanente! –  ao tráfico de armas e de drogas no centro do qual se encontra a bela e triste cidade  de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

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