CARTA DO RIO – 178 por Rachel Gutiérrez

Alongo-me


O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida,
a face
ida.
O rio sempre renasce
A morte é vida.

 Hoje, 19 de novembro, cinquenta anos após a morte de João Guimarães Rosa, uma das grandes glórias da literatura brasileira, lembro perfeitamente aquela manhã ensolarada em que li, mal acreditando, as manchetes sobre a triste notícia, numa banca de jornais do bairro do Leblon, onde morava.  Aos 59 anos, três dias após a cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras, que ele tanto temia e por isso adiara por quatro anos, nosso genial escritor teve o coração fulminado por um infarto.  Extremamente emotivo, tudo dele tinha a ver com o coração, a começar pelo nome da pequena cidade mineira onde nasceu – Cordisburgo.

Ao homenageá-lo agora, começando por citar um de seus poemas de Ave Palavra, de algum modo presto também homenagem a meu pai, a quem dediquei os mesmos versos rosianos, num artigo que publiquei no jornal A Plateia, por ocasião de sua morte, quatro anos mais tarde, lá na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai.

Meu pai, que se chamava Arthur de Mello Gutiérrez, foi um digno serventuário da Justiça – Notário, com cargo conquistado orgulhosamente por concurso. Foi também um leitor voraz e bibliófilo apaixonado. E quem lhe apresentou Guimarães Rosa fui eu, presenteando-o com as Pimeiras Estórias, em 1962, assim que o livro foi publicado.  Depois, leu tudo, inclusive Tutaméia e os poemas de Ave Palavra. Em relação ao grande mineiro, tivemos tempo de ser parceiros.

A propósito das Primeiras Estórias, muitos anos mais tarde, tive uma experiência de grande emoção quando participei de um Congresso promovido pela Universidade de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Eu estava ali para falar sobre um dos contos do livro que, de acordo com a saudosa doutora em Literatura Dirce Riedel, especializada na obra de Rosa, constitui uma paráfrase de um dos clássicos de Machado de Assis : o conto, de mesmo nome, O espelho. Eu não sabia, porém, que entre a pessoa que me antecedeu e a minha vez de expor meu trabalho, fazia parte do programa a apresentação de uma jovem do grupo dos Miguilins.

 E para que entendamos quem são os miguilins, passo a palavra a Carlos Jáuregui e Flávia Ayer, que assim os explicam na internet:

Miguilim, personagem de Guimarães Rosa, transpôs as barreiras da ficção e ganhou as ruas da pequena Cordisburgo, terra natal do escritor. Em 1995, foi fundado o Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, que narra contos da obra de Guimarães Rosa. “O nosso objetivo é facilitar Guimarães Rosa, é mostrar para as pessoas que ele pode ser lido”, afirma Fábio Barbosa, de 25 anos, integrante da primeira turma de Miguilins.  ( …)     Atualmente, o Grupo possui cerca de 40 integrantes, entre 11 e 25 anos. A preparação para contar estórias inclui o estudo da biografia e obra de Guimarães Rosa, a aprendizagem da técnica de “contação” de estórias, além de regras de comportamento. (…) O Grupo possui um repertório bem amplo, que inclui a narração de trechos dos livros Sagarana, Magma, dentre outros. A coordenadora dos Miguilins, Dora Guimarães, explica que são feitos “recortes da obra, de forma a construir uma linearidade, para que o público entenda”. O Grupo se apresenta em eventos culturais e artísticos, universidades, escolas, teatros, residências. Além disso, eles narram estórias na Caminhada Eco-literária, que acontece no sábado da Semana Roseana.

 Cordisburgo realizou a 29ª Semana Roseana em junho de 2017, mês do nascimento, (no dia 27de 1908), de seu ilustre filho.

Pois o que desejo contar é que a jovem miguilim que me antecedeu, no Congresso de Belo Horizonte, disse de cor o conto – de Primeiras Estórias – A menina de lá. Disse-o no seu marcado sotaque mineiro, com simplicidade e convicção extraordinárias, como se ela mesma tivesse ouvido a estória contada por alguém de sua família. E a estranha “menina de lá”, que eu conhecia, reviveu em toda a sua puríssima originalidade, como quando dizia: – “Eeu? To fazendo saudade.” Nhinhinha, a menininha que sabia que ia morrer, mas só segredara a Tiantônia:

 “naquele dia, do arco-íris da chuva, do passarinho. Nhinhinha tinha falado despropositado desatino, por isso com ela ralhara. O que fora: que queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes… A agouraria!”

E a estória, lancinante de tão comovente, me fez chorar as mesmas “bruscas lágrimas” do personagem Pai de Nhinhinha ao ouvir o relato de Tiantônia.

Precisei de muitos minutos para me recompor. E nunca mais pude reler esse conto sem me emocionar.

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