CARTA DO RIO – 179 por Rachel Gutiérrez

Sábado, 25 de novembro, foi um dia muito importante na História da luta das mulheres de todo o mundo. Protestos, manifestações, passeatas e até discursos oficiais denunciaram o que desde a década de 1970, do século passado, nós feministas jamais deixamos de denunciar: A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES.

Eis a notícia da França:

         “O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou neste sábado, medidas para educar a população em geral, principalmente os alunos, sobre feminismo e violência contra as mulheres, e para melhorar o atendimento policial às vítimas.”

Destaco o que muito me agradou no discurso, que corrobora o que escrevi em Mulheres/A violência continua, em 2013, porque “as medidas anunciadas incluem a educação de estudantes do ensino médio sobre pornografia, além de simplificação do sistema policial para vítimas de estupros e assaltos, incentivando a denúncia.”

Pois eu havia escrito:

O mundo da competição é violento, o mundo do mercado financeiro é violento, na mídia, a violência é o espetáculo; e no mundo da pornografia, o erotismo é violento, além de enganoso: homens falsamente superpotentes abusam de mulheres passivas e submissas. Se um adolescente receber como “educação sexual” apenas o que vê nos programas ou canais de televisão pornográficos, é bem provável que venha a ser um parceiro sexual frustrado e violento. E, além disso, estará sendo “educado” para a dominação e o autoritarismo.

A notícia da França lembra que Macron, “que ganhou as eleições presidenciais em maio, prometeu repensar a política sobre sexualidade e igualdade de gênero e tornar o tema uma causa nacional ao longo dos seus cinco anos de mandato.” E informa: “A França debateu o assédio sexual diversas vezes na última década, sempre após escândalos envolvendo políticos franceses.

Há seis anos, um escândalo sexual forçou o ex-ministro das Finanças, Dominique Strauss-Kahn,  a se demitir do cargo de chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), provocando uma série de pesquisas no país sobre assédio e agressão sexual nos altos escalões do poder.”

Na ocasião, Dominique Strauss-Kahn era considerado o mais forte candidato à presidência da República pelo Partido Socialista. Após o escândalo, quem o substituiu e venceu as eleições, todos lembramos, foi François Hollande.

Recentemente, o escândalo de Harvey Weinstein, nos Estados Unidos acelerou o processo de mudança de atitude do governo francês em relação ao assédio sexual e levou o atual presidente a declarar: “Vamos selar um pacto de igualdade entre homens e mulheres”, no discurso que marcou o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher. Durante seu discurso, Emmanuel Macron pediu um minuto de silêncio em respeito às 123 mulheres mortas por seus parceiros ou ex parceiros, em 2016.

Já o Brasil tem 12 assassinatos de mulheres e 135 estupros por dia, como mostra balanço recente.

            “O feminicídio é só o desfecho fatal de uma série de violências que a mulher sofre. O altíssimo número de estupros mostra o contexto onde vai se dando a violência, que acaba com esse desfecho fatal”, explica Olaya Hanashiro, conselheira do Forum Brasileiro de Segurança Pública.   “Ainda mais no Brasil, em que a maioria desses feminicídios são íntimos, se desenvolvem na violência doméstica.”

 

Voltemos, contudo, às manifestações do último sábado, que aconteceram também em Madri: milhares de pessoas se reuniram na capital espanhola, em protesto pela violência contra as mulheres. Aos gritos de “Não, não, não temos medo”, na que se chamou Jornada Internacional para a Eliminação da Violência contra as mulheres. Os manifestantes exibiam cartazes com dizeres como Quantas mais devem morrer?           e  Não são mortes, são assassinatos. Segundo cifras do governo, 45 mulheres foram assassinadas na Espanha desde o início do ano, pelo companheiro ou ex companheiro.

Do lado de cá do Oceano, houve também  inúmeras manifestações:

A mobilização de milhares de pessoas em protestos pelo continente mostra que a América Latina “despertou para a violência contra a mulher”, afirma uma das organizadoras das manifestações conhecidas como Ni Una Menos (Nenhuma a menos), nascidas em Buenos Aires e replicadas em outros países da região.   A  América Latina despertou para esta violência que antes parecia normal, parecia ser parte do nosso cotidiano”, diz à BBC Brasil a jornalista e escritora Hinde Pomeraniec, parte de um grupo de dez mulheres que convocou os protestos. 

E recentemente, a marcha Ni Una Menos ocorreu em outros países. Foram realizadas, por exemplo,  manifestações no México e na Colômbia,  como acrescentou a ativista, que acompanhou os protestos ocorridos há pouco tempo no Brasil, após o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio.

 E é preciso acentuar que enquanto em todo o mundo movimentos sociais e feministas buscam reduzir o quadro alarmante da violência doméstica, entre nós, de acordo com o Ministério da Saúde, 47 mil brasileiras foram vítimas de feminicídio nos últimos dez anos. Dentre estas, 74% são pretas ou pardas.

Como evitar essa tragédia? Escrevi também em Mulheres/A violência continua :

Uma educação sexual e social verdadeira se faz urgente em todas as escolas, desde o jardim da infância, desde antes, talvez, desde as creches. (…) Acrescentemos, então, o que diz Riane Eisler: Educadores progressistas começam, pela primeira vez na história da educação moderna, a abordar a educação para amar – ou, como às vezes é chamada, a educação para a alfabetização emocional… para que os estudantes ( de qualquer idade) aprendam a viver em parceria e não em competição ou submetidos a qualquer tipo de dominação. “Elevar o nível da competência emocional e social das crianças” precisa fazer parte da nova formação.

(…) Assim, será criada uma nova moral afetiva, que evitará comportamentos sexualmente abusivos e promoverá o respeito e a descoberta do outro, do diferente, como alguém que nos ajuda a crescer e a compreendermos melhor a nós mesmos. E a sexualidade reprimida como pecaminosa durante tantos séculos, pelos puritanos, ou promovida e explorada como escabrosa, pelos libertinos, poderá, enfim, desabrochar como fonte de alegria e prazer que saberemos, sem medo e sem culpa, proporcionar uns aos outros.

 

 

 

 

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