IRÃO 1978/2018, por JOÃO MARQUES

OBRIGADO A JOÃO MARQUES, DIÁRIO DE COIMBRA E JÚLIO MARQUES MOTA


 

Os últimos acontecimentos no Irão não fogem ao arbítrio mediático,  na medida em que a comunicação, mesmo falsa, é privilegiada, em detrimento da informação e da sua investigação, como o comprovam os jornalistas presos, despedidos ou, simplesmente, assassinados.

Entre imagens de acontecimentos ocorridos na América Latina (México/Argentina) até ao cadáver de um jovem assassinado no Cairo, no conflito que opôs a irmandade muçulmana ao atual presidente Sissi, passando pela manifestação de trezentos mil no Bahrein, em 2011, tudo serve para as redes sociais alimentarem a crise que o Irão atravessa, surgindo agora a explicação para as movimentações sociais em várias cidades como “ a revolta dos ovos” ou, seguindo o regime, “grupos terroristas vindos do exterior, apoiados pelo trio habitual (sauditas, americanos e judeus), acrescido dos “mujahidin”, com sede em Paris. Basta de fingimentos. Nada foi dito do impacto social e económico das sanções decretadas pelos americanos, mesmo depois do acordo das principais potências mundiais sobre o nuclear iraniano e, muito menos, sobre as suas consequências no quotidiano persa. Agora, tivemos na rua operários das indústrias base, trabalhadores da petroquímica e do complexo energético, professores, reformados que não são remunerados há meses e simples cidadãos enganados nas transações bancárias. Com uma maioria de população jovem, com universidades de nível europeu na sua formação, com um terço no desemprego e cansados da imposição de regras religiosas, em que poucos já acreditam, só falta mais um pormenor para explosões sociais anunciadas: a corrupção que se estende dos “mullahs” às mais altas esferas religiosas e ao aparelho militar (guardas da revolução), mesmo nos investimentos decorrentes da sua ação no exterior (Síria/Líbano/Iraque).

Neste âmbito e depois de uma longa investigação, a agência Reuters revelou, no início do ano – nada que eu já não soubesse em termos de volume – que o ayatollah Ali Khamenei, 24 anos depois de chegar ao poder, através de uma organização (SETAD – sede para a execução das ordens do imã), está envolvido em quase todos os setores da atividade económica, da finança ao petróleo, da confiscação sistemática de bens imobiliários, de que detém o monopólio, gerindo verbas da ordem dos 95 mil milhões de dólares, apesar da opacidade que a própria Reuters reconhece. Mais uma vez, duas figuras estratégicas do poder iraniano são excluídas do baralho. Trata-se dos irmãos Larijani – Ali como presidente do parlamento tem o poder político que quer e Sadeq faz o mesmo com o que resta do poder judicial, mas ambos intocáveis nas suas decisões e património acumulado.

A última dinastia persa, de Reza Khan (1925) até Pahlévi (1979), quando o ayatollah Khomeini instaurou a República Islâmica, teve momentos de grande evolução, seja quando o Xá iniciou uma reforma agrária, retirando todos os privilégios aos “mullahs” ou quando seu primeiro-ministro Mossadegh – homem de uma cultura ímpar, tendo estudado em Paris na célebre “Sciences Po”, doutorado em direito na Suíça – nacionalizou a indústria petrolífera (1953), pelo que veio a ser afastado pela CIA, na já célebre “Operação Ajax”, então liderada pelo neto do Presidente Roosevelt.

Tudo ficaria melhor esclarecido sobre os conflitos latentes na sociedade iraniana, a perda de vidas humanas, o escárnio com que é deliberadamente atingida a cultura persa, se dados históricos fundamentais para entender o que hoje se passa fossem revelados na suja simplicidade. Exemplo: há 40 anos (5.1.78), realizou-se a denominada “Conferência de Guadalupe”. Aqui, Jimmy Carter, Giscard d’Estaing e outros líderes planetários optaram pelo fim da monarquia, o que veio a acontecer em fevereiro do ano seguinte, apesar de vários contratempos.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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