“BURGUESES SOMOS NÓS TODOS OU AINDA MENOS”, DE MÁRIO DE CARVALHO, por Clara Castilho

Falemos sobre o novo livro do escritor Mário de CarvalhoBurgueses somos nós todos ou ainda menos, com título retirado de um poema de Mário Cesariny.

São 11 contos, revelando o olhar do autor sobre a sociedade que o rodeia. Nele a sociedade em Portugal é retratada de uma forma aparentemente irónica, mas desencantada com a vida. O envelhecimento, a viuvez, traições e amantes, as crises económicas.

Mário de Carvalho, de 73 anos, licenciou-se em Direito, na Universidade de Lisboa, e durante serviço militar obrigatório foi preso, acusado de oposição ao regime ditatorial que vigorava em Portugal antes do 25 de Abril de 1974.

Após a Revolução dos Cravos exerceu advocacia em Lisboa, sua cidade natal, e estreou-se literariamente, em 1981, com “Contos da Sétima Esfera”.

Desde então publicou cerca de 30 títulos, entre eles “A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho”, “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, “A Sala Magenta”, e “Ronda das Mil Belas em Frol”.

Ao longo da sua carreira literária foi distinguido por várias vezes, nomeadamente com dois Prémios Fernando Namora, Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, os prémios Pégaso de Literatura e Literário Giuseppe Acerbi, um Prémio de Ficção do P.E.N. Clube Português, o Grande Prémio de Teatro, da Associação Portuguesa de Escritores, e, em 2008, pelo conjunto da sua obra com o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora.

Com um léxico variado e, por vezes já quase esquecido (cafarnaum, hissopadas, argueirices, ventrudo, tasquinhar, cambulhada, perlenga, gaifonas, vezos, ancho, hausto, rifoneiro, etc). Tudo sopesado, escorreito, sem necessidade de uma palavra mais.

Em entrevista a Nuno Ramos de Almeida, ao “Ionline” (7.5.18), pode ler-se:

Neste seu último livro, os vários narradores estão sempre na mesma posição...

De Burguês?

Do burguês, mas mais do que isso, do desencantado.

Fim de época, talvez. Há algum luto. Eu pertenço a uma geração – aliás orgulhosamente, porque contribuímos para que estejamos melhor agora do que vivíamos na época – , mas depois envelhecemos. As desilusões acumulam-se e as grandes bandeiras da juventude vão fenecendo. Isso é natural. Não se pode conservar até ao fim da vida o mesmo entusiasmo juvenil. Até porque o físico não permite. Eu não poderia andar agora todos os dias a fazer o que fiz. Passei a minha juventude numa correria: ia do Técnico para Direito, depois para Letras. Distribuições de comunicados. Manifestações a seguir. Vinha a polícia e tínhamos que fugir. Como é que aguentei isso? Aguentei porque tinha 17 anos.

Envelhecer cabe a todos, mas nem todas as gerações têm um momento em que tiveram as histórias nas mãos.

Era bom que eu escapasse ao envelhecimento, mas não me parece (risos). A minha geração tem mais uma coisa, vivemos o fascismo ao qual nós reagíamos desta maneira alegre e dando o peito. Apesar disso , acho que vivemos os tempos mais felizes da história de Portugal até agora. Por mais que se diga e por mais críticas e reservas que tenhamos, nunca se viveu tão bem em Portugal e isto não dura sempre.

[…]

Em relação ao comum dos contos, o que significa ser burguês?

Significa a velha aceção de burguês. Não do ponto de vista marxista. Mas de alguém que tem uma vida razoável. Não tem preocupações económicas e tem um vida razoável. Relaciona-se com certo tipo de pessoa e tem o seu estatuto. Não tem o estatuto pejorativo que lhe deu, por exemplo, o Mário Cesariny, eu aproveitei para o título uma frase dele, porque a tinha de ouvido.

É uma certa burguesia que está um bocadinho suspensa no tempo 

À espera. Não é por acaso que surgem cemitérios. Estamos confrontados com alguns fins de vida. E confrontados, às vezes, com o passado. Perante problemas em que em certas idades aparecem sempre: mulheres, filhos, heranças. Mas o que predomina no livro é a relação entre homem e mulher.

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