RONALDO WERNECK – HÁ CONTROVÉRSIAS – MAIO EM PARIS: CENDRARS, DOS PASSOS: 50 ANOS DE 68

 

Maio em Paris: Cendrars, dos Passos: 50 anos de 68

Posted: 03 Jul 2018 12:51 PM PDT

Logo após o fim de semana em que assistimos ao show de Caetano com seus filhos em Juiz de Fora e ao Rei da Vela no Rio, Patrícia e eu voamos pra Londres, na segunda-feira, 23 de abril, início de um giro pelas Oropas. Passamos alguns dias em Florença, onde jantamos com meu amigo, o jornalista Alberto Villas (não nos víamos há quase 30 anos: a última vez foi em Paris, 1979), que estava “em trânsito pela Europa” pra escrever um livro, se é que me explico bem. De Florença, alugamos um carro, a bravíssima Giulietta (Masina!) – e giramos Toscana afora por uns bons e belos quatro dias. Em meados de maio, deixamos a Toscana para traz e durante uma semana e uma vez mais flanamos por Paris.

Não, desta vez não fomos ao Café de Flore – e por isso novamente, como sempre, me desencontrei do Chico Buarque. Com quem, aliás, nunca me encontrei em Paris. Parece que ele e seu show “Caravanas” andavam por Lisboa na época.  Soube que há poucos dias, já em Paris, Chico e sua nova namorada foram mais uma vez molestados por aquele bando de brasileiros babacas que vivem enchendo o seu saco. Mas Chico é maior que isso.

Sim, passamos pelo Flore (é “de lei” quando em Paris), passamos batido: o Café estava cheio. Mas perambulamos novamente por Saint Germain-des-Près, pelas proximidades do Flore e do Deux Magots, rumo ao Museu Delacroix, agora para “cumprir a missão” comandada por minha filha Ulla: comprar uma daquelas gravuras dos tigres do grande pintor francês. Aqueles tigres que ficaram como assinatura do mesmo Delacroix  que dizia nem sempre necessitar a pintura de um tema – o que de certa forma abriu caminho para a arte de vanguarda que viria na virada do século XIX.

Depois de Delacroix, parada estratégica nas vizinhanças, no Café de Paris: um bordeaux e um filé à tartare, que ninguém é de ferro. Fomos fazer “o quilo” às margens do Sena, em meio à floresta de estampas e livros dos buquinistas. Encontrei um Fellini que desconhecia “Les propos de Fellini” (Éditions Buchet/Chastel/Paris, 1980), escrito pelo próprio; e o “Les Mots” de Sartre, na edição francesa de 1964 da Galimard. É o meu Sartre preferido, mais um que sumiu de minhas estantes, lido em português na Bahia de 1964 quando de sua primeira publicação no Brasil pela Difusão Europeia do Livro.

Cendrars & John dos Passos

Sartre me leva ao poeta e romancista norte-americano John dos Passos (1896-1970), de quem ele dizia ser, simplesmente, “le plus grand écrivain de notre époque”. E John dos Passos me leva ao poeta franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961): de outra feita em Paris, há coisa de uns dois anos, encontrei na Shakespeare Library uma tradução para o inglês feita em 1931 por Dos Passos para “Le Panama ou les Aventures de mes sept oncles”, que foi acrescida de novos poemas de Cendrars em 1959. Publicado em 1994, o livro traz ainda belas ilustrações a cores do próprio John dos Passos. São histórias mirabolantes das aventuras dos sete tios de Cendrars, contadas pela mãe do poeta, e que povoaram sua infância, como quando ela recebia, devidamente deslumbrada, as cartas de seus irmãos, com selos “exotiques” e envelopes com versos de Rimbaud: “ces lettres avec les beaux timbres exotiques que portent les vers de Rimbaud em exergue”.

Poeta influenciado e influenciador do cubismo, romancista, eterno globe-trotter (quase tudo que escreveu girou em torno de suas constantes viagens pelo mundo), malabarista de palavras e até de music-hall (num deles conheceu em Londres um “promissor palhaço” chamado Charlie Chaplin), Blaise Cendrars foi mesmo uma pessoa fascinante. No prefácio de sua tradução, escreve John dos Passos: “Poetas como Cendrars e Apollinaire (os dois eram grandes amigos) formam a linha de frente, bandeiras das barricadas cubistas num grupo onde despontavam Picasso, Modigliani, Marinetti, Chagall (que tinha Cendrars como seu melhor amigo) e que influenciou profundamente Maiakovski, Meyerhol, Eisenstein e as ideias que continuaram com Joyce, Gertrude Stein e T.S. Eliot”.

Aux jeunes gens de Catacazes

Araras, São Paulo, 1924: Cendrars entre  Olívia Penteado e Tarsila do Amaral. Ao lado, Oswald de Andrade.

Não é pouco. Mas, como eu já disse certa vez, “todo mundo é de Cataguases. Inclusive quem não é”. Cendrars, como todo mundo, acabou virando cataguasense. Amigo de Oswald de Andrade, de Tarsila, de Paulo Prado, Cendrars veio várias vezes ao Brasil e numa delas acabou escrevendo em 1927 um poema para os rapazes da revista Verde: “Aux jeunes gens de Catacazes” Poema possivelmente influenciado por conversas com Oswald, um dos entusiastas da revista de Cataguases – onde Cendrars acabou trocando as bolas ao citar a modernista Klaxon em lugar de Verde –, publicado com orgulho pelos cataguAses, repeitando os “erros” do poeta: “: Tango vient de tanguer/  Et jazz vient de jaser/  Qui importe l´etymologie/ Si ce petit klaxon m´amuse?”. Blaise saudava com entusiasmo a “buzina dos catacazes” – não importando se vinda de um soturno, triste tango, ou do brilho, da alegre algaravia do jazz.

 

Blaise & Miriam Cendrars

Então, se de outra feita em Paris encontrei o livro de Dos Passos/Cendrars na Shakespeare, desta feita encontro-me novamente com Cendrars num dos buquinistas do Sena. Ali dou de cara com a alentada (750 páginas) e ilustradíssima segunda edição da biografia de Cendrars escrita por sua filha Miriam: “Blaise Cendrars – La Vie, le Verbe, l´Écriture”(Éditions Denoel, Paris, 2006). Como introdução, Miriam Cendrars colocou um texto do próprio Blaise escrito no Brasil, datado do Guarujá em 15 de março de 1926, onde o poeta reafirma não gostar lá muito da paz de espírito: “Je me reserve le droit de tout réveiller”. Acordar, despertar para a aventura foi mesmo um dos emblemas seguidos à risca por Cendrars.

Miriam transcreve parte da intensa troca de cartas de Cendrars com escritores brasileiros, particularmente Paulo Prado. E naturalmente refere-se ao excelente estudo de Alexandre Eulálio “A aventura brasileira de Blaise Cendrars”, de 1978 (há uma edição mais recente, de 2001, da Edusp). Por intermédio de nosso amigo em comum, o poeta Francisco Marcelo Cabral, eu encontrei-me algumas vezes com Alexandre Eulálio (primo de meu amigo, o saudoso cineasta David Neves) no Rio – e estive inclusive com ele quando do lançamento desse seu livro numa livraria do Shopping da Gávea.

Como ressalta Miriam, citando o livro de Eulálio, “as viagens de Cendrars ao Brasil entre 1924 a 1929 foram em número de cinco, com estadas mais ou menos longas dependendo das circunstâncias. Duas outras, em 1934 (à Amazônia) e em 1935 (por Buenos Aires), como correspondente da imprensa parisiense, foram completadas por uma última, em 1953, seu adeus ao país amado”. Desde Paris, estou lendo aos poucos e gostando aos muitos do livro de Miriam sobre seu pai Blaise Cendrars.

Apollinaire e Maio de 68

 

Como no diálogo do filme Casablanca, “nós sempre teremos Paris”.  Então mais uma vez “tivemos Paris” – e era mais uma vez uma primavera de clima ameno e azul intenso. Havíamos por coincidência tomado um café na Rue Apollinaire quando descemos para o Sena, o Sena sempre a correr sob a Ponte Mirabeau, onde encontra-se incrustado o  decassílabo famoso do poeta: Sous le pont Mirabeau coule la Seine E, trazida pelas águas, a voz de Apollinaire (quem sabe refletida na de Cendrars) mesclava-se numa velha gravação à de Léo Ferré: Sous le pont Mirabeau coule la Seine/ Et nous  amours/ Faut-il qu´il m´en souvienne/ La joie venait toujours après la peine// Passent les jours et passent les semaines/ Ni temps passé/ Ni les amours reviennent/ Sous les pont Mirabeau coule la Seine// Vienne la nuit sonne l´heure/ Les jours s´en vont je demeure.

Ou na precisa tradução de Décio Pignatari: Que venha a noite e soe a hora/Os dias se vão não vou embora/ Os dias passam passam mas que pena/ Passado amor/ Nenhuma volta acena/ Na ponte Mirabeau se vai o Sena/ A noite venha sem demora/ Eu fico e o tempo vai embora”. Pois é, eu fico, nós ficamos, afinal era, é ainda, primavera em Paris, toda aquela claridade, aquela luz intensa de não se acabar.Ficamos, fiquemos então com Cole Porter: I love Paris in the spring time/ I love Paris every moment/Every moment of the year/ I love Paris, why oh why do I love Paris/Because my love is here.

Era então maio em Paris e livros, jornais, revistas, todos, todos eles, toda a mídia, toda Paris – só se falava naquele maio de 50 anos atrás. Aquele maio de 68, daquela “desordem”, daquele chienlit segundo De Gaulle, à força da palavra de (des)ordem de Daniel Cohn-Bendit. A Paris de maio de 1968, com os estudantes e operários tomando as ruas, as ruas que repercutiam com toda a força aquele “é proibido proibir”: a imaginação no poder. Não havia como não me lembrar da voz do Caetano ecoando desde 1968, renovada desde dias atrás em Juiz de Fora: “É proibido proibir! Marielle Presente! Lula Livre!”.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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