A SAGA DO “ASSALTO A TANCOS” CONTINUA – POR VASCO LOURENÇO

 

Tem juízo! Não te metas nisso!

Já assumiste posição pública, já difundiste a tua opinião, já toda a gente sabe que para ti nunca houve assalto, que tudo não passa de uma farsa com fins políticos!

Porque insistes? Deixa que tudo se esclareça, não arrisques cenários que não podes provar!

Ao fim e ao cabo, vão comentar “lá vem este, com a teoria da conspiração, a defender a Geringonça!

Deixa andar a carruagem, não te metas nisso!

Pois é, como seria mais fácil seguir as opiniões de amigos, seguir os seus conselhos, perante o meu pedido de crítica ao projecto de mais um texto meu sobre o “assalto” aos paióis de Tancos!

Sim, seria mais fácil, seria mais cómodo, por isso tenho hesitado, mas … continuo na mesma, não sei “assobiar para o lado” face a problemas que me tocam …continuo a não ter juízo!

Porquê? Porque, além de tudo o mais – e não é pouco – estou farto, sinto-me enojado com a exploração da farsa!

Então, agora, o interesse e a importância da descoberta do que se passou – isto é, quem planeou, com que objectivos, quem executou, como e com que meios e resultados (?), já não interessa? Saber quem e como fez o “assalto” passou a secundário, substituído por se saber se os mais altos responsáveis do País souberam ou não que só se conseguiu recuperar o material com a colaboração de um informador?

Com a tentativa de envolvimento do próprio Presidente da República, os farsantes mostram que para eles não há limites! Está tudo de pernas para o ar!

A comunicação social dá largas às maiores especulações! Como, aliás, sempre o fez, pois convém ter presente que alguns órgãos da mesma têm sido peça importante desde o início da farsa! Resultado, voluntária ou involuntariamente, a comunicação social vem sendo um extraordinário instrumento para que os farsantes atinjam os seus objectivos!

Atónitos, assistimos às mais inverosímeis teorias, onde os comentadores encartados se digladiam por conseguir o cenário mais estapafúrdio, como o do material recuperado ter sido tirado doutro paiol, só para “resolver” o assunto, acabar com a investigação e dar os louros à PJM! Está claro que os autores desta teoria – a começar num general que está sempre presente e não perde a oportunidade de “dar palpites”-, pouco se importam com a extrema dificuldade de uma operação desta natureza: a sua envergadura, a sua visibilidade, o envolvimento da estrutura do Exército, o encobrimento da falta de material noutro paiol, cujo consumo não poderia ser justificado, tornaria quase impossível a sua ocultação! É preciso é especular!

E, depois eu é que tenho a mania da teoria da conspiração!…

Este fim se semana, até tomámos conhecimento de que a Procuradora Geral da República  há pouco substituída só o terá sido porque se meteu no caminho dos interesses do Governo, no que ao “caso de Tancos” diz respeito (!).

É um “fartar vilanagem”! Pois se Tancos foi produzido para atacar a Geringonça, como estou cada vez mais convencido, agora é o Governo que não está interessado no esclarecimento? Continua tudo de “pernas para o ar”!

Voltando ao essencial da situação, que interesse tem para os farsantes que o MDN, o PM ou o PR – caso tenham sido hipoteticamente informados da operação “recuperação” – tenham sido enganados e induzidos a pensar que o êxito dessa recuperação se teria devido à colaboração de um informador?

Para eles, os farsantes, interessa é aproveitar o facto de eles não terem informado a PGR! Querem lá saber da competência política que cada um deles possui, para decidir, em cada momento, qual o interesse nacional!

Para eles, enquanto a Geringonça não cair, “a luta continua”!…

Por isso, mais que preocuparem-se com as nefastas consequências futuras para o País, o que importa é infringir danos imediatos, a curto prazo, aos adversários (que eles tratam como inimigos…). Aqui, gostaria de imitar Jesus Cristo e clamar “Se alguém de vós tiver autoridade moral, atire a primeira pedra!”

E repito o que venho afirmando, desde as primeiras horas: descubra-se toda a verdade, doa a quem doer! Confio – será que confio mesmo? – que se não repita o desfecho das averiguações aos Submarinos e outros que tal!

Reflitamos um pouco:

O objectivo principal da farsa executada – ataque à Geringonça – já foi parcialmente atingido (O MDN e o CEME já “lá vão”…) mas a direita não desiste, quer mais.

Analisemos o cerne da questão:


A.


Foi executado um “assalto”, com roubo de material de guerra. Foi recuperado esse material, numa acção rocambolesca (a incompetência dos que planearam e executaram a farsa é tal, que ainda não conseguiram definir bem a relação do material roubado, nem esta coincide com a relação do material recuperado…)

O que, como vamos constatando, permite as mais diversas especulações…

Foi descoberto que a recuperação não passou de um negócio, feito entre o ladrão e a PJM.

Foi denunciado que a PJM informara o MDN, posteriormente, da acção de recuperação.

(Com a preocupação de nunca afirmar que a negociação fora feita com o ladrão, afirmando sempre que a mesma fora feita com um informador, estava criado o cenário para que o MDN não levantasse problemas, pois a utilização de informadores é um método consensualmente aceite por todas as Polícias…)

 

B.


Pois bem, a que assistimos, por parte da oposição, naturalmente interessada no ataque à Geringonça?

A um conjunto de reacções que tornam legítima a conclusão de que ela não será alheia à montagem da farsa “assalto”…

Em vez de gritarem pela descoberta da verdade total – a começar na do “assalto”, isto é, quem planeou, quem executou, como e com que resultados – continuam a “berrar” (com mais ou menos ruído, com maior ou menor sofisticação) pela necessidade de se saber se o Primeiro-Ministro António Costa e agora também o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sabiam ou não da manobra de recuperação do material.

Chegam ao cúmulo de “exigirem” uma comissão parlamentar de inquérito, para averiguar o que se passou. Mas, convém acentuar, o que se passou quanto à recuperação do material, com possível encobrimento dos assaltantes, não o que se passou quanto ao roubo, propriamente dito! O resto, dizem, compete à justiça. Mas, não vá o diabo tecê-las, há que criar obstáculos à descoberta de toda a trama. Outra conclusão não posso tirar, face às diversas nebulosas que criam à investigação, sempre que a mesma parece avançar. Como diria alguém, há que prevenir, garantir que a investigação “não chegue a lado nenhum”, pois, se chegar, arriscam-se a que “a castanha lhes rebente na boca” ou, mais apropriado nesta situação, “que a bomba lhes rebente nas mãos”…

“Às vezes até parece que é de propósito…” afirmou o Presidente da República.

Não parece, é! Afirmo eu, que não tenho o dever de contenção do Presidente. Acredite, Senhor Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, é mesmo de propósito! E quem cria essas nebulosas está interessado é em impedir a descoberta da verdade!

Voltando à questão de os responsáveis políticos terem hipoteticamente sabido, posteriormente, da operação de recuperação do material, questiono:

Mas, isso tem algum interesse?

Sim, pergunto eu, que interesse há em saber se o Primeiro-Ministro, e até o Presidente da República, hipoteticamente souberam (posteriormente) que o material fora recuperado pela PJM, através da ligação a um informador que, além da não revelação da sua identidade (o que é mais que natural, para qualquer Polícia do mundo, incluindo naturalmente as portuguesas) apenas impusera como condição que o assunto ficasse no âmbito da PJM e não transitasse para a PJ?

Naturalmente, nenhum interesse, afirmo convictamente! A não ser o servir para desviar a atenção do essencial…!

O material fora recuperado, havia que tirar as devidas consequências para que o roubo se não repetisse…! A investigação continuava, agora no âmbito da PJ, para que se descobrisse tudo. Nomeadamente, quem roubara…

Tudo estava a decorrer normalmente, a investigação prosseguia, a caminho da verdade.

Não, não! Para a oposição não está nada resolvido: a Geringonça não caiu, há que continuar a  farsa, até às últimas consequências!
O facto de entretanto se ter descoberto que afinal a recuperação não se fizera em ligação com um informador, mas sim com o próprio ladrão até vinha a calhar.

Havia que despistar – desde logo as possíveis ligações do “recuperador” com o ladrão, portanto com o próprio “assalto” – não dar importância ao facto do ladrão poder ser “apertado” e ajudar a esclarecer o “assalto”, interessava era explorar o facto de esse “recuperador”, pressionado por saber que a PJ estava no encalce da verdadeira operação de recuperação, ter conseguido um “guarda-chuva”, com a cobertura do chefe do seu serviço (PJM) que tudo aponta ter sido enganado para aprovar a operação de recuperação. Como é evidente, refiro-me ao hipotético conhecimento (ainda que incompleto e deturpado) da operação/recuperação dado ao Ministro da Defesa.

É caso para afirmar que “se o ‘recuperador’ estivesse na origem da farsa do assalto, isto é, se fosse o autor da execução da conspiração contra a Geringonça, não teria feito melhor…”

Por tudo isto, acrescento uma afirmação clara e dura: deixem-se de teatro, deixem-se de manipulações, assumam-se! Não nos tentem enganar, fazer-nos de parvos!

O facto do primeiro-ministro ter hipoteticamente sabido de alguns pormenores da operação de recuperação do material não tem qualquer importância! E se o Presidente da República também hipoteticamente soube, é igualmente irrelevante.

O essencial é saber-se: quem planeou, com que finalidade, quem executou, como e com que resultados o famoso “assalto”?

Ah, e não tentem atirar-nos areia apara os olhos, comportando-se como se o móbil do crime fosse o tráfico de material de guerra, isto é, fosse o de ganhar algum dinheiro (se o ladrão ganhou algum, não foi certamente por vender o material roubado, para além da venda das munições, que provavelmente nem fizeram parte deste “assalto”…).

Gostaria de estar na cabeça do ladrão, quando, porque o comprador prometido não apareceu, terá percebido que fora enganado, que nunca existira qualquer comprador…

Sim, porque não passa pela cabeça de ninguém que um roubo desta envergadura tivesse sido realizado sem a garantia prévia de um comprador.

Até quando continuará a farsa?

Do que depender dos seus autores/responsáveis, certamente até que o objectivo da queda da Geringonça se verifique…! Confesso que, mantendo-me curioso, estou a ficar enojado! É que, ao contrário de muitos, sou dos que considero que “na política não vale tudo”…!

Mas, do que depender de mim, tentarei impedir que em Portugal suba ao poder um Trump, um Bolsonaro, um Orbán, um Salvini, uma Le Pen, ou outros da mesma laia.

Estou esperançado em que, por mais que chamem o diabo, por mais que o tentem forçar a vir, os valores de Abril conseguirão sair vencedores!

É utópico? Provavelmente, sim, mas há utopias pelas quais vale a pena lutar!… 


P.S.

O que aqui escrevo, não me faz esquecer os diversos aspectos, igualmente importantes, que esta farsa provocou e pôs a descoberto: Guerra entre a PJ e a PJM; violação do segredo de justiça (certamente com prática de corrupção); péssima actuação dos responsáveis políticos e militares (nomeadamente o MDN e o CEME), na reacção à farsa; existência de tráfico de armamento, com a conivência/envolvimento de militares; deficiente investimento do poder político nas Forças Armadas (desde há vários governos, a esta parte), com os consequentes nefastos resultados na organização da estrutura das mesmas, seja nas instalações, nos equipamentos e fundamentalmente no pessoal; grande incapacidade (ou não?) dos governos em escolherem ministros da Defesa Nacional; por fim, os fortes indícios da possível existência de militares a conspirarem contra o Estado de Direito Democrático.
 

07.11.2018
Vasco Lourenço

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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